2 Pedro 3:3
O Texto
Pedro não começa com um argumento, mas com um aviso: "Sabendo primeiro isto: que nos ultimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas proprias concupiscencias." Antes de qualquer outra coisa, diz ele, saibam disto. Não que virão perseguidores, nem tiranos, nem exércitos, mas gente que ri. Homens e mulheres que farão da esperança cristã motivo de piada, e que caminharão, essa é a palavra exata, segundo os próprios desejos. O verso é curto, quase seco, e vem logo depois de um pedido comovente para que os leitores se lembrem das palavras dos profetas e do mandamento do Senhor. Como se Pedro dissesse: guardem a memória, porque vem um tempo em que o riso alheio tentará apagá-la.
O Cerne
Repare no que Pedro liga: o escárnio e a concupiscência. Não são duas coisas separadas, uma intelectual e outra moral. O texto insinua que a zombaria brota de um andar, de uma direção de vida já escolhida. Quem caminha atrás dos próprios apetites precisa que a promessa da vinda do Senhor seja ridícula, porque uma promessa verdadeira exigiria uma virada de rota. A descrença, aqui, não é primeiro um problema de evidências; é um problema de amores. E isso é desconfortável, porque nos obriga a perguntar sobre nossas próprias dúvidas: elas nascem de honestidade ou de conveniência? Pedro não responde por nós. Ele apenas coloca as duas coisas lado a lado, o riso e o desejo, e deixa o silêncio fazer o resto do trabalho.
O Fio Condutor
Há uma linha que atravessa toda a Escritura e é feita de zombaria. Noé construindo um barco em terra seca; os profetas imitados nas ruas de Jerusalém; e por fim o próprio Cristo, na cruz, cercado de quem repetia "desça daí". O escárnio é a resposta mais antiga do mundo à palavra de Deus que ainda não se cumpriu. Pedro sabe disso, e não por teoria: ele ouviu o riso do pátio, e um dia foi ele mesmo quem, aquecendo-se ao fogo, achou mais barato negar do que confessar. Por isso o aviso não é altivo. A vinda do Senhor, que os escarnecedores tratam como fábula, é a mesma vinda que já aconteceu uma vez em Belém, quando ninguém esperava, e que virá "como o ladrão de noite". O riso não altera o calendário de Deus. Apenas revela onde estamos quando ele tocar a porta.
O Espelho
O escárnio raramente chega em forma de debate. Chega como um levantar de sobrancelha na sala de professores, como o silêncio educado depois de você mencionar a oração num jantar de família, como o comentário do seu filho adolescente de que aquilo tudo é conforto para gente com medo. E funciona, não é? Não porque o argumento seja forte, mas porque ninguém gosta de ser o ingênuo da mesa. Aí começa uma erosão discreta: você continua crendo, mas para de dizer. Continua esperando, mas guarda a esperança no bolso, onde ninguém a vê. Pedro chama seus leitores de "amados" justamente aí, no ponto em que a fé se torna vergonha social. Ele não pede combate; pede memória. Hoje, então: escreva num papel uma promessa de Deus que você deixou de mencionar em voz alta nos últimos meses, e leia-a em voz alta, sozinho, no seu quarto.
Contexto
Esta é a segunda carta, escrita a comunidades onde a primeira geração cristã já estava morrendo. O verso 4 dá o clima exato: "desde que os paes dormiram todas as coisas permanecem como desde o principio da creação." Os pais adormeceram, os túmulos se multiplicaram, e a volta prometida não veio. No mundo greco-romano, a ideia de um julgamento cósmico e de corpos ressuscitados soava provinciana; o cosmos era eterno, as coisas seguiam seu curso, e homens cultos consideravam o medo do juízo uma superstição para gente simples. Os escarnecedores de Pedro provavelmente não eram forasteiros hostis, mas gente de dentro ou próxima, mestres com boa retórica e vida solta, que ofereciam liberdade sem espera e sem contas a prestar. Pedro escreve como um homem que sabe que não estará por muito tempo para responder por escrito.
O Protagonista
Quem fala aqui é um velho pescador que viu de perto o que agora precisa defender. Pedro não argumenta como filósofo; ele desperta, "desperto com exhortação o vosso animo sincero". A palavra é de quem sacode alguém que está cochilando num lugar perigoso. Note a delicadeza: ele não acusa seus leitores, os chama de amados três vezes ao longo do capítulo e supõe que o problema deles é esquecimento, não maldade. Há nele uma mistura rara de urgência e ternura, de quem conhece a fragilidade da própria memória. E há, no fundo, uma confiança que não depende de resultados visíveis: se o Senhor "é longanimo para comnosco", então a demora que alimenta o riso é, na verdade, misericórdia disfarçada de atraso. Pedro esperou trinta anos por essa vinda. Morreu esperando, sem desdizer.
O Detalhe
"Andando segundo as suas proprias concupiscencias." No grego, o verbo é o de fazer caminho, seguir uma estrada. Isso importa porque o escarnecedor mais famoso da Bíblia está sentado: o Salmo 1 fala de quem se assenta "na cadeira dos escarnecedores", a postura de quem já se instalou no desprezo. Pedro o coloca de pé, em marcha. Não é apenas uma opinião cínica; é um itinerário, um trajeto com direção e destino, guiado pelo próprio apetite como bússola. E aqui a pergunta se volta contra nós, porque a fé também é descrita como um caminhar. Duas estradas, dois passos, dois desejos puxando os pés. Ninguém apenas duvida; todo mundo está indo para algum lugar. A questão que Pedro deixa sem responder é a mais simples e a mais difícil: para onde os meus passos estão me levando enquanto eu digo que espero?
Reflexão
Quando foi a última vez que o riso de alguém, ou só o medo desse riso, me fez calar algo que eu realmente creio?
Se a demora do Senhor é paciência e não esquecimento, o que essa paciência está esperando de mim neste momento da minha vida?
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Perguntas frequentes sobre 2 Peter 3:3
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O que a comunidade compartilha sobre 2 Peter 3
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado por me avisar que o Dia do Senhor virá como ladrão, e que estes céus e esta terra não são o meu chão definitivo. Grato porque nada ficará escondido: as obras serão descobertas, e nisso vejo justiça e também misericórdia, pois ainda há tempo de viver para Ti.
E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor." A demora que te incomoda não é descuido, é porta aberta. Alguém ainda está a caminho de casa, e um dia você também foi esse alguém. Repare ainda: Pedro chama de "nosso amado irmão Paulo" o homem que um dia o repreendeu na frente de todos.
Esperando e apressando a vinda do Dia de Deus." Pedro coloca duas coisas juntas que parecem opostas: esperar e apressar. Não é ficar sentado olhando o relógio do céu. A tua santidade, a tua oração, o teu perdão dado hoje, tudo isso empurra a história para frente. O que você fez esta semana que apressou aquele Dia?
Pedro reconhece: nas cartas de Paulo "há pontos difíceis de entender". Ele não esconde a dificuldade nem manda ignorá-la. O perigo não está no texto complicado, está em quem chega até ele "ignorante e instável", já decidido sobre o que quer ouvir. Você lê a Bíblia buscando resposta ou buscando confirmação?
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