Jonas 4
O Texto
A cidade inteira foi poupada, e o profeta ficou furioso. Jonas reza, mas a sua oração é uma acusação: eu sabia que era assim que ias acabar, foi por isso que fugi. Pede a morte, senta-se numa cabana fora dos muros para ver o que aconteceria, alegra-se com uma planta que lhe dá sombra, perde a planta e volta a pedir a morte. E o livro termina não com o arrependimento do profeta, mas com uma pergunta de Deus sobre cento e vinte mil pessoas e muitos animais.
O Núcleo
Repare no que Jonas confessa no verso 2. Ele não recita uma teologia errada. Recita a mais bela definição de Deus que Israel conhecia, palavra por palavra: "Deus piedoso, e misericordioso, longanimo e grande em benignidade". Aquilo que os salmos cantam com gratidão, Jonas cospe como queixa. O problema dele não é ignorância; é que sabe demasiado bem quem Deus é e não suporta. Aqui está o coração do capítulo: é possível ter a doutrina toda certa e odiar aquilo que ela significa quando se aplica ao outro. A graça é doce enquanto me alcança e amarga quando alcança quem eu queria ver destruído. Jonas prefere morrer a viver num mundo governado por essa misericórdia.
O Fio Condutor
Há um detalhe geográfico que arde: Jonas senta-se "ao oriente da cidade", de fora, a olhar para dentro, à espera de fogo. Séculos depois, outro profeta olha para uma cidade do lado de fora dos muros, e chora sobre ela em vez de esperar a sua ruína. Jesus invoca Jonas precisamente aqui: os homens de Nínive se arrependeram, e "eis que quem está aqui é maior do que Jonas" (Mateus 12). O contraste é o ponto. Jonas quer que a cidade morra e ele viva; Cristo aceita morrer para que a cidade viva. O livro termina em aberto porque o coração que falta a Jonas só apareceria mais tarde, num monte, fora de outra cidade grande.
O Espelho
A pergunta de Deus no verso 4, "É bem feito que assim te apaixones?", é feita com uma calma que humilha. E nós sabemos a resposta que damos, porque também nos indignamos com precisão selectiva. Choramos por um carro amolgado e não por um colega despedido. Ficamos genuinamente abalados quando a árvore do quintal seca e permanecemos serenos diante de notícias de cidades a arder do outro lado do mapa. Deus não repreende Jonas por ter amado a aboboreira; repreende-o por ter amado só a aboboreira, aquela pela qual ele "não trabalhaste, nem a fizeste crescer". A nossa compaixão é real, apenas pequena e voltada para dentro. Hoje: escreva num papel o nome de uma pessoa ou de um grupo cuja queda o aliviaria secretamente, e ore em voz alta pelo bem dessa pessoa, usando as palavras do verso 2 sobre ela.
Contexto
Nínive era a capital da Assíria, o império que arrasaria o reino do norte e deportaria as dez tribos. Não era um estrangeiro genérico, era o carrasco. Os anais assírios descrevem com orgulho pilhas de cabeças e prisioneiros esfolados; era propaganda de terror, e funcionava. Pedir a um profeta israelita para pregar arrependimento a Nínive é como pedir a um sobrevivente para avisar o algoz de que ainda há tempo. E o pormenor final, "muitos animaes", não é sentimentalismo: gado significava sustento, aldeias, vidas comuns. Deus está a nomear o que a destruição custaria em detalhe. Jonas, sentado na sua cabana à sombra, tem a paciência de quem espera um espectáculo. A ironia é que a única coisa que seca é a sua sombra.
O Perfil
Os primeiros leitores eram judeus que conheciam a humilhação nacional por dentro: impérios que passavam por cima deles, promessas que pareciam adiadas, vizinhos que prosperavam sem temer o Senhor. Para eles, Jonas não era um vilão exótico, era o espelho da sua própria oração legítima por justiça. E o livro faz-lhes uma coisa cruel e necessária: dá-lhes um profeta que tem toda a razão histórica e nenhuma razão diante de Deus. Ouviram, com um aperto no peito, que a eleição de Israel nunca foi um contrato de exclusividade, mas uma vocação de mediação. E ouviram a pergunta final ficar suspensa, sem resposta, à espera que alguém no auditório se atrevesse a responder por Jonas.
A Pergunta
Por que é que Deus não responde a Jonas? Não corrige a teologia dele, não o obriga a mudar, não conta o fim da história. Deixa o profeta desmaiado ao sol com uma pergunta na cabeça. E, mais incómodo ainda: quarenta anos depois, Nínive voltou à violência e acabou destruída. Então a misericórdia foi apenas um adiamento? O texto não nos deixa fechar isso. Aquilo que Deus defende não é o resultado garantido, é o seu próprio direito de ter compaixão de quem não a merece, mesmo por pouco tempo, mesmo sabendo que talvez se estrague. Se isso nos parece insuficiente, vale a pena perguntar de que lado da pergunta estamos sentados.
Reflexão
Onde é que a sua indignação é maior do que a sua compaixão, e o que a torna tão convincente para si mesmo?
Se Deus lhe fizesse hoje a pergunta do verso 4 sobre algo concreto da sua semana, o que é que ele nomearia?
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Perguntas frequentes sobre Jonah 4
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque quando a ira tomou conta de Jonas, o Teu modo de tratá-lo foi uma pergunta: "É razoável essa tua ira?" Também comigo fazes assim, não me destróis no meu mau humor, me chamas a pensar. Obrigado por essa paciência que me devolve o juízo.
Senhor, há dias em que o cansaço fala mais alto e eu chego a preferir sumir. Tu ouviste Jonas sem se ofender com a raiva dele, então ouve também a minha. Ensina-me a não me irritar com a tua misericórdia, nem quando ela alcança quem eu não esperava.
Pai, obrigado pela sombra que me deste hoje, mesmo quando meu coração estava amargo e eu nem merecia cuidado. Tu cuidas de mim antes de me corrigir. Ensina me a receber tua bondade sem me apegar só ao alívio, e sim a Ti.
Pai, confesso que às vezes tua misericórdia me incomoda, sobretudo quando alcança quem eu preferia ver longe da tua graça. Cura essa raiva escondida em mim e alarga meu coração até ele caber do tamanho do teu amor.
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