Lamentações 2
O Texto
O segundo lamento descreve a queda de Jerusalém não como obra dos babilônios, mas como obra de Deus. Verso após verso, o sujeito da frase é o Senhor: ele cobriu, devorou, cortou, armou o arco, rejeitou o altar, esqueceu a festa. No meio disso, o poeta desmorona: seus olhos se consumiram, crianças desfalecem nas ruas pedindo pão às mães que nada têm. E no fim ele não explica nada; apenas grita a Deus para que olhe: "Vê, ó Senhor, e considera a quem fizeste de tal modo."
O Núcleo
"Tornou-se o Senhor como inimigo" (v. 5). Não há frase mais perigosa no Antigo Testamento, e ela está aqui, cantada em ordem alfabética hebraica, com cuidado litúrgico, para ser repetida em voz alta na comunidade. O texto não diz que Deus abandonou o povo por distração ou fraqueza. Diz o contrário: ele fez exatamente o que anunciou. "Fez o Senhor o que intentou; cumpriu a sua palavra, que mandára desde os dias da antiguidade" (v. 17). O horror não é que Deus tenha falhado; é que ele foi fiel, inclusive às advertências que ninguém quis levar a sério. Aqui a fé encontra seu limite mais duro: um Deus verdadeiro é um Deus cujas palavras têm peso, também as que preferíamos tratar como retórica.
O Fio Condutor
O templo é arrancado "como a de uma horta" (v. 6), o altar rejeitado, o rei e o sacerdote desprezados. Tudo em que Israel apoiava sua segurança religiosa cai. E é justamente esse padrão, um santuário destruído, um sacerdote-rei abandonado, uma cidade que zomba ("assobiam, e rangem os dentes", v. 16), que reaparece fora dos muros de Jerusalém séculos depois. Quando Jesus é crucificado, os que passam meneiam a cabeça exatamente como aqui. A diferença é decisiva: em Lamentações a ira cai sobre culpados que sabiam o que faziam; no Gólgota ela cai sobre um inocente. Lamentações 2 não é resolvido por otimismo. É resolvido por alguém disposto a ficar no lugar do "dia da sua ira".
O Espelho
O verso que mais dói não é sobre Deus, é sobre pregadores: "não manifestaram a tua maldade" (v. 14). Havia gente religiosa em Jerusalém dizendo o que as pessoas queriam ouvir. Ninguém nomeou o pecado, e por isso ninguém mudou de rumo. Pergunte-se com honestidade quem, na sua vida, tem permissão para lhe dizer algo desagradável. Você tem um cônjuge que já desistiu de tocar naquele assunto? Um amigo que você foi deixando de lado depois que ele foi sincero demais? Um grupo de estudo bíblico onde tudo é edificante e nada é verdadeiro? Nós construímos redes de vozes que nos poupam, e chamamos isso de comunhão. Depois nos espantamos com os muros caindo.
Hoje: escreva num papel, em uma frase, aquilo que você sabe estar errado na sua vida e sobre o que ninguém nunca te confrontou. Leia em voz alta diante de Deus. Depois rasgue o papel.
O Perfil
Os primeiros ouvintes eram sobreviventes. Não leram isso como poesia distante; enterraram aqueles mancebos e virgens que "vieram a cair á espada" (v. 21). Muitos tinham crescido com a certeza teológica de que Sião era intocável, porque o Senhor habitava ali. Cantavam que Jerusalém era "o gozo de toda a terra" (v. 15), e agora estrangeiros repetem a frase como piada. O que eles ouviam neste poema e nós facilmente perdemos é o alívio brutal de ter finalmente uma linguagem para a catástrofe. Melhor um Deus que se tornou inimigo do que um Deus ausente ou impotente. O lamento, por mais terrível, mantém Deus dentro da conversa. Por isso o poema termina não em conclusão, mas em vocativo: "Vê, ó Senhor."
O Detalhe
Duas vezes aparece a expressão "dia de solemnidade", e as duas vezes é uma faca. No verso 7, os inimigos "levantaram grita na casa do Senhor, como em dia de solemnidade": o barulho da festa foi substituído pelo grito de vitória dos invasores no mesmo pátio onde se cantavam salmos. No verso 22, pior: "Convocaste os meus temores em redor como n'um dia de solemnidade." O verbo é o da convocação festiva, aquele com que Deus chamava as tribos para a Páscoa. Agora ele convoca terrores. O calendário sagrado foi virado do avesso. Quem já entrou numa igreja depois de uma tragédia e ouviu o hino habitual soar obsceno entende o que o poeta faz aqui.
Contexto
Ano 587 antes de Cristo, ou pouco depois. Jerusalém sitiada por Nabucodonosor durante meses, fome dentro dos muros até o ponto descrito no verso 20, uma insinuação que o texto não completa e nós não deveríamos completar. O templo de Salomão queimado, a monarquia davídica encerrada, os líderes "entre as nações" (v. 9). A frase mais desnorteante do capítulo talvez seja "já não ha lei, nem acham visão alguma do Senhor os seus prophetas": nem culto, nem instrução, nem palavra nova. Silêncio institucional completo. É neste vácuo que o poema é escrito, provavelmente para uso em jejuns comemorativos nas ruínas. Um povo aprendendo a rezar sem templo, sem rei e sem respostas.
Reflexão
Quem tem, hoje, permissão real para me dizer o que eu não quero ouvir, e quando foi a última vez que essa pessoa usou essa permissão?
Sou capaz de rezar como o verso 20, colocando diante de Deus aquilo que me revolta nele, ou só sei orar aquilo que já está teologicamente arrumado?
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Perguntas frequentes sobre Lamentations 2
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O que a comunidade compartilha sobre Lamentations 2
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Destruiu o seu tabernáculo, como se fosse o de um jardim." A tenda de Deus derrubada com a facilidade de quem desmancha um abrigo de horta. O que parecia intocável caiu, e as festas foram esquecidas. Dói pensar que Deus possa remover aquilo que viramos costume. Será que ainda O buscamos, ou só o lugar?
A mesma destra que abriu o mar agora se recolhe: "retirou para trás a sua destra de diante do inimigo". Dói mais perder o socorro de Deus do que enfrentar o adversário. Talvez você conheça esse silêncio. Repare, porém: a mão não foi cortada, foi recolhida. E quem recolhe ainda pode estender de novo.
Obrigado porque, quando passam e meneiam a cabeça diante da minha ruína, o Senhor não se junta aos que zombam. Jesus também ouviu o escárnio e carregou a minha vergonha. A formosura que um dia chamaram alegria de toda a terra veio das Tuas mãos, e só elas podem refazê-la.
Senhor, olha. Vê o que acontece com os pequenos, com os que morrem de fome e de guerra enquanto o mundo segue adiante. Não tenho respostas bonitas para isso, só esta dor levada até Ti. Não desvies o rosto. Vê, e vem.
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