Neemias 6
O Texto
O muro está de pé, sem brechas, faltando só pendurar os portões. É exatamente aí que os inimigos mudam de tática: em vez de espadas, convites. Quatro vezes chamam Neemias para uma reunião no vale de Ono; depois vem uma carta aberta acusando-o de conspiração real; por fim, um profeta pago tenta arrastá-lo para dentro do templo sob pretexto de proteção. Neemias recusa tudo, o muro é concluído em cinquenta e dois dias, e os inimigos ficam pequenos aos próprios olhos. Só que o capítulo não termina em triunfo: termina com a notícia de que os nobres de Judá trocavam correspondência amigável com Tobias.
O Cerne
Este capítulo é sobre o que acontece quando a oposição descobre que não consegue derrubar a obra pela força. Ela então mira o construtor. Sanballate não quer o muro caído; quer Neemias desacreditado, assustado, ou pego numa transgressão. E o que sustenta Neemias não é coragem natural, mas uma clareza sobre a própria vocação que ele consegue formular numa única frase: "Faço uma grande obra, de modo que não poderei descer". Deus aparece aqui não como quem elimina a ameaça, mas como quem fortalece mãos: "Agora pois, ó Deus, esforça as minhas mãos". A providência divina, neste livro, quase nunca é espetacular. Ela se parece com um homem que continua trabalhando enquanto lhe mentem a respeito.
O Fio Condutor
Jerusalém sem muro era uma promessa sem corpo. O exílio havia terminado no papel, mas o povo do pacto vivia numa cidade aberta, humilhada, à mercê de qualquer bando. Reconstruir aquele muro era afirmar, em pedra, que Deus não havia desistido do lugar onde prometera colocar o seu nome. E note o padrão: o adversário tenta primeiro a violência, depois a negociação, depois a religião falsa, "vamos juntamente á casa de Deus". É o mesmo roteiro que reaparece no deserto, quando aquele que veio edificar o verdadeiro templo é convidado a descer, a provar, a negociar, a usar a Escritura como atalho. Jesus também não desceu. Também terminou a obra.
O Espelho
Você provavelmente não tem um Sanballate. Tem coisas menores e mais eficazes: o e-mail que insinua algo sobre você e é copiado para três pessoas, a conversa de corredor que reinterpreta suas intenções, o boato que circula na igreja com voz mansa. E a tentação real não é desistir, é descer. Descer para se explicar, descer para participar da reunião onde tudo será esclarecido, descer para provar que você não é o que dizem. Neemias responde à calúnia com uma frase curta e volta ao trabalho: "De tudo o que dizes coisa nenhuma succedeu; mas tu do teu coração o inventas". Nem ignora, nem se enrola. Há uma economia de energia aí que muitos de nós, esgotados de nos defender, precisamos aprender.
O Detalhe
"Uma carta aberta na sua mão." Nas cinco tentativas anteriores as mensagens vinham seladas; esta, não. No mundo persa, uma carta aberta na mão de um servo era um documento público, lido por escribas, comentado nas hospedarias, discutido em cada parada da estrada entre Samaria e Jerusalém. Sanballate não escreveu para Neemias; escreveu sobre Neemias, e entregou o texto a quem quisesse ler. A acusação era mortal: rebelião contra Artaxerxes, um rei ungido em Judá. Bastava que o rumor chegasse a Susã pela boca errada. É a mais antiga forma de campanha de difamação, e funciona exatamente como hoje: a mentira não precisa ser provada, precisa apenas circular.
A Pergunta
Como Neemias soube que Semaías mentia? O texto diz simplesmente: "conheci que eis-que não era Deus quem o enviara". Não houve sinal, nem voz, nem confirmação sobrenatural. Ele sabia que a Lei proibia um leigo de entrar no santuário, e que fugir seria confessar culpa. Ou seja: o discernimento veio da Escritura conhecida e da consciência da própria vocação, não de uma intuição espiritual privada. Isso é reconfortante e incômodo ao mesmo tempo. Reconfortante, porque significa que o discernimento é acessível a quem estuda e reflete. Incômodo, porque muitos de nós preferiríamos uma voz clara a ter que pensar. E permanece a pergunta desconfortável: quantos em Jerusalém acreditaram no profeta pago, e como distinguir, hoje, entre o medo prudente e o medo fabricado por alguém que lucra com ele?
Contexto
Estamos por volta de 445 a.C. Judá é uma província pequena e empobrecida do império persa, e Samaria, ao norte, é uma província rival com um governador ambicioso. Sanballate, Tobias e Gesém representam três frentes de pressão em volta de Jerusalém. O vale de Ono ficava a uns trinta quilômetros a noroeste, em terreno de fronteira, longe demais de qualquer aliado de Neemias. E a última nota do capítulo revela o problema mais grave: Tobias era genro de Secanias e sogro por parte de filho de outro nobre de Judá. A elite de Jerusalém estava ligada ao inimigo por casamento, negócios e favores. O muro ficou pronto em cinquenta e dois dias, no mês de elul, fim do verão. As rachaduras internas levariam bem mais tempo.
Reflexão
Qual é hoje o seu "vale de Ono", o convite razoável que o tiraria exatamente do lugar onde Deus o colocou?
Onde, na sua vida, você percebe que o medo que sente foi plantado por alguém que ganha algo com ele?
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Perguntas frequentes sobre Nehemiah 6
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Para isto o subornaram, para que eu temesse, e assim fizesse, e pecasse." Repare na ordem: primeiro o medo, depois o pecado. E o conselho vinha embrulhado em piedade, esconder-se no templo, lugar santo. O medo também aprende a falar linguagem religiosa. Que decisão você está prestes a tomar só porque está com medo?
Tobias não precisava derrubar o muro pela força. Ele tinha parentes lá dentro: "muitos em Judá se haviam ajuramentado com ele, por ser genro de Secanias". Casamentos, favores, compromissos antigos. A obra era ameaçada por vínculos, não por espadas. Que lealdades você assumiu antes e que hoje sussurram contra aquilo que Deus está construindo em você?
Pai, tantas vozes me chamam para descer do que o Senhor me deu para fazer. Ajuda-me a reconhecer o que é distração e o que é chamado. Que eu permaneça no muro, com as mãos firmes, sem trocar a tua obra por conversas que só me esvaziam.
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