Cântico dos Cânticos 6
O Texto
O coro pergunta à mulher para onde foi o seu amado, e ela responde que ele desceu ao seu jardim, entre os lírios. Segue-se um longo elogio da boca do amado: ela é bela como as cidades de Tirza e Jerusalém, seus olhos o perturbam, e entre sessenta rainhas e oitenta concubinas ela é a única, "a minha pomba, a minha perfeita". O capítulo termina em movimento confuso: a alma dela é arrebatada, e vozes a chamam de volta para ser vista.
O Núcleo
"Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu." Quem leu os profetas reconhece a cadência. É a fórmula da aliança, virada do avesso e posta na boca de uma mulher: eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo. Jeremias promete essa reciprocidade escrita no coração; aqui ela é cantada por duas pessoas que se pertencem sem contrato de posse, sem dominação. O Cântico não faz alegoria disso, e é justamente por isso que funciona: o amor humano fiel e recíproco é a única linguagem terrena capaz de dizer o que aliança significa. Deus não escolheu por acaso a imagem do casamento para falar do seu vínculo com Israel. Ele escolheu a experiência humana mais próxima de graça: ser querido sem ter merecido.
O Fio Condutor
Duas imagens deste capítulo atravessam toda a Escritura. Primeiro o jardim: o amado "desceu ao seu jardim, aos canteiros da especiaria". Desde Gênesis 2, jardim é o lugar onde Deus e o homem andam juntos sem vergonha, e é dali que fomos expulsos. O Cântico ousa cantar um jardim reaberto, onde dois se buscam e se encontram. Segundo a cidade: ela é bela "como Tirza, aprazivel como Jerusalem". A noiva é comparada a uma capital. No fim da Bíblia, essa metáfora se completa quando João vê a cidade santa descendo do céu preparada como noiva para o seu esposo. O Cântico não prevê Cristo por alegoria forçada; ele fornece o vocabulário com o qual o Noivo virá ser descrito.
O Espelho
Sessenta rainhas, oitenta concubinas, virgens sem número. Você conhece esse cenário, mesmo sem harém. É a lógica do comparativo: sempre há alguém mais competente na reunião, mais magra na academia, mais adiantado na carreira, com casa melhor, filhos mais fáceis. Nesse mercado, o valor de uma pessoa é sempre relativo, sempre em disputa. O amado quebra a lógica com uma frase: "Porém uma é a minha pomba, a minha perfeita." Não diz que ela venceu a competição. Diz que ela não está na competição. Há uma diferença enorme entre ser preferida por ser superior e ser única por ser amada. Se o seu senso de valor depende de estar à frente dos outros, você vive na multidão do verso 8 e nunca no verso 9.
O Perfil
O primeiro leitor sabia que Tirza foi capital do reino do norte e Jerusalém capital do sul: as duas rivais, elogiadas juntas num só verso, como se o amor conseguisse o que a política nunca conseguiu. Sabia também contar cabras em Gileade e reconhecer um rebanho recém-lavado, imagens que hoje nos soam estranhas e para ele eram sinônimo de abundância intacta. E sabia de Salomão. Um leitor israelita ouvindo "sessenta são as rainhas, e oitenta as concubinas" pensava imediatamente nas centenas de mulheres do rei e no coração desviado que elas lhe custaram. O Cântico coloca esse número inflado ao lado de uma única mulher amada e deixa o contraste doer. O rei com mil não tinha o que estes dois têm.
O Detalhe
Duas vezes aparece a expressão mais estranha do capítulo: ela é "formidavel como um exercito com bandeiras". O hebraico usa ayummá, uma palavra que significa temível, que causa pavor. Não é elogio decorativo; é reconhecimento de que a beleza dela o desarma como um exército em formação de batalha desarma quem o vê no horizonte. Daí o pedido no verso seguinte: "Desvia de mim os teus olhos, porque elles me perturbam." O amor aqui não é doçura inofensiva. Tem peso, tem poder, coloca o outro em situação de rendição. E no verso 10 essa mesma expressão vem acompanhada de sol, lua e aurora, o mesmo vocabulário com que a Escritura descreve a glória. A pessoa amada provoca temor reverente. Quem nunca sentiu isso ainda não amou muito.
A Personagem Principal
A Sulamita fala primeiro e fala com uma segurança que não vem de espelho. Perguntam-lhe onde está o amado e ela não hesita nem se queixa do abandono: sabe onde ele está e sabe a quem pertence. Essa é a paisagem interior de quem descansa num vínculo. Mas o capítulo não a deixa idealizada. No verso 12 ela perde o chão: "Antes de eu o sentir, me poz a minha alma nos carros do meu povo voluntario." É uma frase quase intraduzível, e talvez seja exatamente isso o ponto: o amor a arrebata para longe de si mesma antes que ela perceba. E então vozes a chamam de volta, quatro vezes, para ser olhada. Ela é segura e vulnerável ao mesmo tempo, amada e exposta. Como nós, diante de Deus.
Reflexão
Onde na sua vida você ainda está tentando ganhar um lugar que na verdade só pode ser recebido como dom?
O que muda na sua leitura do amor de Deus quando você percebe que ele escolheu descrevê-lo com a linguagem do desejo, e não apenas do dever?
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Perguntas frequentes sobre Song of Solomon 6
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Os teus dentes são como o rebanho de ovelhas que sobem do lavadouro, e das quais todas produzem gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas." Ele já dissera isso antes, no capítulo 4. Depois da distância, do desencontro, da noite em que ela demorou a abrir a porta, o elogio volta igual. Você acredita que alguém possa te olhar assim, sem descontar nada?
Ela tinha acabado de vaguear pelas ruas, ferida pelos guardas, sentindo-se perdida. E é justamente aí que ele diz: "Formosa és, amiga minha, como Tirza, aprazível como Jerusalém, imponente como um exército com bandeiras." Não é beleza de quem está impecável. É o olhar que enxerga majestade em alguém cansado. Você já se deixou ver assim?
Obrigado, Senhor, porque não busco sozinho. Quando as amigas perguntam "para onde foi o teu amado... para que o busquemos contigo?", vejo que colocaste ao meu lado irmãos dispostos a procurar contigo. Grato por cada um deles e por Te deixares achar.
Obrigado, Senhor, porque o Teu olhar sobre mim é de deleite, e não de desprezo. Tu me vestes de beleza que não vem de mim: formosa como a lua, brilhante como o sol. Grato porque me chamas de amada e me fazes imponente como um exército com bandeiras.
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