Explicação bíblica

1 Reis 8

Leia

O Texto

Vinte e duas mil vacas e cento e vinte mil ovelhas. Comece por aí, pelo cheiro: sangue, gordura queimada, fumaça sobre Jerusalém durante quatorze dias no mês de Etanim, quando as chuvas ainda não vieram e o ar está seco. Salomão reúne os anciãos e os chefes das tribos para subir a arca da Cidade de Davi ao novo templo. Os sacerdotes a colocam sob as asas dos querubins, e uma nuvem enche a casa a ponto de eles não conseguirem ficar de pé. Então o rei se ajoelha diante do altar, de mãos estendidas, e faz a oração mais longa registrada no Antigo Testamento: sete situações de angústia, sete pedidos, sempre a mesma súplica repetida, "ouve tu então nos céus, e perdôa".

O Cerne

O que Salomão faz nessa oração é desmontar, no próprio dia da inauguração, a expectativa que todo o mundo antigo tinha de um templo. Nas nações vizinhas, a casa do deus era onde o deus morava, comia e podia ser administrado; era poder concentrado, controlável, útil ao rei. Salomão diz o contrário: "Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? eis que os céus, e até o céu dos céus, te não comprehenderiam, quanto menos esta casa que eu tenho edificado." O templo não contém Deus. Contém o Nome, isto é, a promessa de que ele se deixa encontrar aqui. E o que ele faz aqui não é aceitar alimento, mas ouvir e perdoar. É uma casa de escuta, não de manutenção divina. A glória enche o lugar precisamente quando ninguém consegue mais funcionar ali dentro.

O Fio Condutor

Repare em quem Salomão inclui na lista de suplicantes. Entre a seca, a peste, a guerra e o exílio, ele insere o estrangeiro que vem de terras remotas "por amor do teu nome", e pede que Deus faça tudo o que esse forasteiro clamar. É uma frase espantosa num edifício cercado de pátios e limites. O templo nasce já apontando para além de Israel: a casa é de um povo, mas o Nome invocado sobre ela pertence a todas as nações. Séculos depois, Jesus expulsa os cambistas justamente do pátio dos gentios, o único lugar onde aquele estrangeiro poderia orar, e depois fala de si mesmo como o templo que será destruído e reerguido em três dias. O que Salomão construiu em pedra, Cristo passa a ser em carne: o lugar onde Deus ouve e perdoa.

O Espelho

A oração parte de um pressuposto que ninguém em Jerusalém contestaria naquele dia de festa: "pois não ha homem que não peque". Salomão não constrói o templo para pessoas que estão bem. Ele o constrói para quem terá a colheita destruída pela ferrugem, para quem perderá a guerra, para quem acordará um dia numa terra estrangeira sabendo que a culpa é sua. E há uma expressão que atravessa todas as sete situações: cada um "conhecendo cada um a chaga do seu coração". Não a chaga do vizinho, não o pecado nacional em abstrato. A sua. O ponto que você conhece e não nomeia: o ressentimento com um irmão, o dinheiro que você move sem contar a ninguém, o modo como fala com quem depende de você. Escreva hoje, numa única frase, qual é a chaga do seu coração, e leia essa frase em voz alta diante de Deus.

A Pergunta

Salomão pede que os olhos de Deus estejam "noite e dia" abertos sobre aquela casa. Quatro séculos depois, aquela casa foi incendiada pelos babilônios e o povo levado exatamente para o cenário que a oração antecipa. Quem primeiro leu este capítulo já sabia disso; leu-o das ruínas. Então o pedido falhou? A honestidade do texto está em que Salomão já sabe, no dia da inauguração, que o templo não impedirá a catástrofe. Ele não pede proteção contra o exílio; pede que Deus ouça de dentro do exílio. A promessa a Davi vem com uma condição, "sómente que teus filhos guardem o seu caminho", e os filhos não guardaram. O que resta não é uma garantia de que nada dará errado, mas de que nenhuma distância está fora do alcance da escuta. Isso não é consolo barato. É consolo estreito, e por isso confiável.

O Intertexto

Daniel, em Babilônia, abre as janelas do quarto na direção de Jerusalém e ora três vezes ao dia, sabendo que isso lhe custará a vida. Ele está fazendo exatamente o que Salomão previu nos versículos 47 e 48: orar da terra do cativeiro "para a banda da sua terra". O templo que Daniel encara já não existe; sobrou o endereço vazio de uma promessa. E funciona. A oração de Salomão não era liturgia decorativa de inauguração, era um mapa de sobrevivência entregue de antemão a gerações que nasceriam sem templo, sem rei e sem terra.

O Detalhe

Os varais. As varas com que os levitas carregaram a arca pelo deserto ficam no lugar, e são tão compridas que suas pontas se veem de dentro do santuário, mas não de fora. Deixaram-nas ali. Ninguém as retirou, embora a arca tivesse chegado ao seu destino final sob as asas dos querubins. É um detalhe de mudança inacabada, como uma família que não desmonta as caixas. O texto acrescenta: "ficaram ali até ao dia d'hoje", frase escrita por alguém que já vira o templo em cinzas. Aquelas varas dizem, para quem entra no lugar santo, que este Deus tem história de estrada e não assinou contrato de permanência com nenhum edifício. A casa é dele; a mobilidade também.

Reflexão

Se o templo não continha Deus, mas apenas o Nome e a promessa de escuta, o que exatamente você espera encontrar quando entra no culto de domingo?

Salomão orou de joelhos por um exílio que ainda não tinha acontecido. Por qual perda futura, que você já pressente, ainda não teve coragem de orar?

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Perguntas frequentes sobre 1 Kings 8

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa 1 Reis 8?
Vinte e duas mil vacas e cento e vinte mil ovelhas. Comece por aí, pelo cheiro: sangue, gordura queimada, fumaça sobre Jerusalém durante quatorze dias no mês de Etanim, quando as chuvas ainda não vieram e o ar está seco. Salomão reúne os anciãos e os chefes das tribos para subir a arca da Cidade de Davi ao novo templo.
Sobre o que fala 1 Reis 8?
Repare em quem Salomão inclui na lista de suplicantes. Entre a seca, a peste, a guerra e o exílio, ele insere o estrangeiro que vem de terras remotas "por amor do teu nome", e pede que Deus faça tudo o que esse forasteiro clamar. É uma frase espantosa num edifício cercado de pátios e limites.
Qual é o contexto histórico de 1 Reis 8?
Salomão pede que os olhos de Deus estejam "noite e dia" abertos sobre aquela casa. Quatro séculos depois, aquela casa foi incendiada pelos babilônios e o povo levado exatamente para o cenário que a oração antecipa. Quem primeiro leu este capítulo já sabia disso; leu-o das ruínas.
O que 1 Reis 8 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Os varais. As varas com que os levitas carregaram a arca pelo deserto ficam no lugar, e são tão compridas que suas pontas se veem de dentro do santuário, mas não de fora. Deixaram-nas ali. Ninguém as retirou, embora a arca tivesse chegado ao seu destino final sob as asas dos querubins.
Como 1 Reis 8 continua relevante hoje?
Salomão orou de joelhos por um exílio que ainda não tinha acontecido. Por qual perda futura, que você já pressente, ainda não teve coragem de orar?

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