Gênesis 18
O Texto
No calor do meio-dia, junto aos carvalhais de Manre, três visitantes aparecem à porta da tenda de Abraão. Ele os recebe com uma pressa quase cômica, água, pão, uma vitela tenra, e no meio da refeição vem a palavra que Sara escuta escondida atrás da porta: dentro de um ano ela terá um filho. Depois os hóspedes voltam o rosto para Sodoma, e Abraão fica sozinho diante do Senhor, regateando pela cidade onde vive seu sobrinho: cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez.
O Núcleo
Duas coisas que costumamos separar aparecem aqui na mesma tarde: a promessa de vida e a ameaça de juízo. O Deus que anuncia um filho a um casal de corpos gastos é o mesmo que desce para verificar o clamor de Sodoma. E no meio disso está a pergunta do versículo 14: "Haveria coisa alguma difficil ao Senhor?" Ela não é apenas sobre úteros fechados. É a pergunta que sustenta toda a Escritura, e reaparece na boca do anjo diante de Maria e na boca de Deus diante de Jeremias, quando Jerusalém já está cercada e comprar um campo parece insanidade. Sempre no mesmo lugar: quando os números humanos já fecharam a conta.
O Fio Condutor
Sara ri por dentro, e esse riso fica gravado no nome do filho: Isaque, "ele ri". Deus não apaga o escárnio, transforma-o em nome de família. Quando o menino nasce, Sara dirá que Deus fez dela riso, e todos os que ouvirem rirão com ela. É assim que a graça costuma trabalhar com nosso ceticismo: não com repreensão, mas com um cumprimento que nos obriga a rir de novo, com outro timbre.
O segundo fio é o regateio. Abraão para em dez, e dez não existem. Séculos depois, Jeremias percorrerá as ruas de Jerusalém à procura de um só homem justo, e a busca desce de dez para um. O Novo Testamento responde a essa aritmética: um justo apareceu, e por causa dele muitos são poupados. Abraão intercede de fora; Cristo intercede de dentro, dentro da cidade condenada.
O Espelho
Repare onde Sara estava: atrás da porta, ouvindo o que não lhe foi dito diretamente. Muitos de nós vivemos nessa posição. Escutamos as promessas de longe, com a idade que temos, o corpo que temos, o casamento que já esfriou, e fazemos a conta em silêncio: "Terei ainda deleite depois de haver envelhecido?" É uma pergunta honesta, não blasfema. O que dói é o que vem depois: "Não me ri", diz ela, "porquanto temeu". Ser descoberto rindo de Deus é humilhante, e mentimos para salvar a aparência de fé. Ele não aceita a mentira, mas também não retira a promessa. E Abraão nos incomoda por outro lado: quando foi a última vez que você discutiu com Deus a favor de pessoas cujo estilo de vida você despreza?
O Perfil
Israel ouvia esta história com um mapa na cabeça. Sodoma e Gomorra eram, para eles, o nome do juízo consumado, a paisagem queimada a leste do mar Salgado, e Ló era o pai daqueles vizinhos incômodos, Moabe e Amom. Ouvir que o patriarca havia intercedido por aquela cidade era ouvir que o próprio Deus não destrói por impulso: ele desce, vê, verifica. Para gerações que mais tarde viveriam o exílio e perguntariam se o justo tinha sido varrido junto com o ímpio, a frase de Abraão soava como oração própria: "Não faria justiça o Juiz de toda a terra?" O texto não dá a resposta fácil. Dá a garantia de que a pergunta é legítima e pode ser feita em voz alta.
Contexto
Estamos em Manre, perto de Hebrom, no ponto mais quente do dia, quando ninguém viaja e todos descansam à sombra. Abraão é um chefe de clã com centenas de dependentes, e acabou de passar pela circuncisão do capítulo anterior; a hospitalidade que oferece não é gesto simpático, é lei social do deserto, onde recusar abrigo pode significar a morte de um viajante. Mas ele exagera de propósito: promete "um bocado de pão" e serve três medidas de flor de farinha, pão suficiente para dezenas de pessoas, mais manteiga, leite e um bezerro inteiro. E ele fica de pé, servindo, enquanto os hóspedes comem. O poderoso do lugar age como criado.
O Personagem Principal
Deus aqui está desconcertantemente próximo. Aparece em forma humana, aceita comida, faz uma pergunta cuja resposta já sabe ("Onde está Sarah?"), diz que vai descer para ver com os próprios olhos. Não é ignorância divina; é a maneira de o texto mostrar um Juiz que não sentencia à distância, por relatório. E há a frase surpreendente do versículo 17: "Occultarei eu a Abrahão o que faço?" Deus decide não agir em segredo. Escolhe um parceiro humano, aceita ser questionado, cede seis vezes seguidas e nunca se irrita, mesmo quando Abraão pede desculpas antecipadas por ousar falar sendo "pó e cinza". Esta é a intimidade estranha do Deus da Bíblia: soberano o bastante para julgar cidades, próximo o bastante para negociar à sombra de uma árvore.
Reflexão
Onde você está fazendo, em silêncio e atrás da porta, a conta que exclui Deus da equação?
Por qual cidade, família ou pessoa você ainda não ousou regatear com Deus, e por quê?
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Perguntas frequentes sobre Genesis 18
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque respondeste a Abraão: "Se eu achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, pouparei o lugar todo por amor deles." Que alívio saber que ouves quem intercede e que poupas cidades inteiras por amor a uns poucos. Nossas orações pelos nossos vizinhos não caem no vazio.
Pai, ensina-me a receber bem quem chega, com o melhor que tenho e sem pressa. Que eu saiba ficar por perto, servindo em silêncio, atento. Talvez seja o Senhor mesmo sentado à minha mesa, e eu nem perceba.
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