Gênesis 21
O Texto
Hagar senta-se a um tiro de arco do filho, longe o bastante para não ver a criança morrer, perto o bastante para ouvir. É nesse mesmo capítulo que Sara ri. Deus visita Sara conforme havia prometido, e Isaac nasce quando Abraão tem cem anos; na festa do desmame a alegria se rompe, Sara exige a expulsão da escrava e do seu filho, e Abraão, de madrugada, entrega a Hagar pão, um odre de água e o menino. No deserto, quando a água acaba, Deus ouve. Depois, Abraão faz um pacto com Abimeleque por causa de um poço, e planta uma árvore em Berseba.
O Cerne
Repare na insistência do versículo 1: "visitou a Sarah, como tinha dito; e fez o Senhor a Sarah como tinha fallado". Duas vezes a mesma coisa, e logo em seguida "ao tempo determinado". O narrador parece não confiar que entendamos de primeira: Deus faz o que diz, e no prazo dele, não no nosso. Mas o capítulo não deixa a promessa cumprida brilhar sozinha. No mesmo espaço cabem o riso de Sara e o choro de Hagar, a festa do desmame e o odre vazio. E o Deus que cumpre à senhora é o mesmo que ouve o escravo. A eleição de Isaac não transforma Ismael em alguém fora do alcance de Deus. Isso deveria nos incomodar e nos consolar ao mesmo tempo.
O Fio Condutor
Isaac é o filho que não deveria existir. Um ventre fechado, dois corpos velhos, uma promessa repetida tantas vezes que já soava a piada, e então: "pari-lhe um filho na sua velhice". Daqui em diante a história da salvação segue esse padrão: Deus produz vida onde a carne já desistiu. Paulo, em Gálatas 4, lê justamente este episódio para dizer que os filhos da promessa nascem do Espírito e não do esforço humano, e por isso a liberdade cristã não é conquista nossa. Há ainda um eco mais silencioso: o pai que se levanta de madrugada e caminha com um filho em direção à morte. No capítulo 21 é Ismael; no 22 será Isaac. Deus conhece esse caminho por dentro.
O Espelho
O detalhe que mais me acusa não é o grito de Sara, é a madrugada de Abraão. Ele se levanta cedo, entrega pão e um odre, e despede. Rápido, discreto, com o mínimo necessário para que a consciência fique razoavelmente tranquila. Nós fazemos isso. Com o colega que foi desligado e a quem mandamos uma mensagem genérica. Com o irmão que ficou do outro lado de uma partilha de herança. Com a pessoa que atrapalhava a paz da nossa casa e que resolvemos simplesmente não ver mais. Damos o pão e a água, o mínimo educado, e nos afastamos a um tiro de arco para não presenciar o que acontece depois. O texto não nos deixa ali confortáveis: Deus ouve exatamente a voz de quem foi mandado embora. Hoje, escreva num papel o nome da pessoa que você despediu da sua vida e diga em voz alta: "Deus, ouve a voz dela desde o lugar onde está."
A Pergunta
E Deus diz a Abraão: "em tudo o que Sarah te diz, ouve a sua voz". Esta é a parte que não se deixa amaciar. Deus endossa uma expulsão nascida de ciúme, e não oferece a Abraão uma terceira via, nenhuma mediação, nenhum acordo de convivência. Por quê? O texto não explica. Não diz que Sara tinha razão; diz apenas que a semente seria chamada em Isaac e que Ismael também teria uma nação. Deus trabalha dentro de uma decisão humana suja sem fingir que ela é limpa. Isso não resolve nada, e talvez não deva resolver. Ficamos com um Deus que não higieniza a história que conduz, e que, no mesmo fôlego, corre atrás da pessoa ferida por ela. Aceitar esse mistério é diferente de achá-lo confortável.
Contexto
Estamos no Neguebe, terra seca, onde um poço não é conveniência mas sobrevivência, e por isso dá origem a juramentos entre homens armados. Abraão é um estrangeiro residente, rico em rebanhos mas sem terra própria, forte o bastante para que Abimeleque queira um tratado com ele e frágil o bastante para ter poços tomados à força. Hagar é egípcia e escrava: segundo os costumes da época, o filho que ela deu a Abraão tinha direitos de herança reais, e é precisamente isso que Sara ataca. A festa do desmame marcava os três anos, o momento em que a criança finalmente tinha probabilidade de sobreviver. Berseba, poço do juramento ou dos sete, nasce de sete cordeiras separadas como testemunho.
O Perfil
Israel ouvia esta história sabendo que descendia de Isaac e tendo como vizinhos os descendentes de Ismael, povos do deserto, arqueiros, nem sempre amigos. Para eles, o texto dizia algo arriscado: o Deus de vocês ouviu o choro daquele menino também. Ouviam ainda a própria identidade sendo narrada ali, um povo que não existe por força natural, nascido de um ventre morto, chamado pelo nome do riso. E ouviam a reivindicação sobre Berseba, aquele poço é nosso por juramento antigo. No fim, nenhuma conquista militar, apenas uma árvore plantada e um nome invocado: "Deus eterno". Um estrangeiro peregrinando muitos dias numa terra que ainda não é sua, adorando como quem já chegou.
Reflexão
O riso de Sara nasceu de uma espera tão longa que ela já havia desistido; o que você parou de pedir a Deus, e por quê?
Quem está hoje sentado a um tiro de arco de você, perto o bastante para ser ouvido, mas longe o bastante para você não precisar olhar?
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Perguntas frequentes sobre Genesis 21
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Pai, tem gente andando por desertos que não escolheu, com o pouco que coube nas mãos e a água acabando. Eu já estive ali. Não me deixe esquecer que o Senhor vê quem foi deixado para trás, e vai atrás. Sustenta quem hoje caminha sem saber para onde.
Pôs Abraão à parte sete cordeiras do rebanho." Sete animais separados do que era seu, só para que ficasse claro, diante de todos, que aquele poço era dele e que ali havia paz. Abraão pagou pela tranquilidade de um acordo. E você, tem disposição de perder alguma coisa para que a paz fique de pé?
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