Isaías 4:1
O Texto
Sete mulheres agarram um único homem. Não é uma cena de sedução, é uma cena de fome: fome de pertencer. Elas não pedem sustento nem roupa, renunciam antecipadamente a tudo aquilo que a lei garantia a uma esposa: "Nós comeremos do nosso pão, e nos vestiremos de nossos vestidos". O único pedido é um nome. "Tão sómente que sejamos chamadas pelo teu nome; tira o nosso opprobrio." Depois da guerra descrita no capítulo anterior, quando os homens de Jerusalém caíram à espada e a cidade ficou sentada no chão, sobraram mulheres demais e homens de menos. E o que resta, no fim de uma civilização que ruiu, é este murmúrio: deixa-me existir sob o teu nome.
O Cerne
O que este versículo diz sobre o ser humano é duro e verdadeiro: nós suportamos a fome antes de suportar a vergonha. Sete mulheres abrem mão do pão e da roupa, isto é, da própria segurança material, para não carregarem o estigma de não pertencerem a ninguém. Isaías não as ridiculariza. Ele expõe uma verdade que a nossa cultura prefere maquiar: a identidade não é algo que produzimos sozinhos, é algo que recebemos de fora, de um nome que alguém nos dá. E aqui está o silêncio inquietante do texto: nenhuma dessas mulheres pede a Deus. Elas pedem a um homem. O juízo de Deus não apenas derrubou muros; deixou à mostra o lugar onde o coração humano procura ser reconhecido, e quão pequeno esse lugar é.
O Fio Condutor
Repare no que acontece na frente seguinte. O versículo 1 termina com um pedido humano por um nome; o versículo 2 começa com Deus dando um: "N'aquelle dia o Renovo do Senhor será um ornamento e uma gloria". Os dois versículos são separados por nada mais que um ponto final, e no entanto entre eles se abre um abismo. As sete mulheres procuram cobertura debaixo do nome de um homem sobrevivente; o Senhor anuncia um Renovo, um rebento que brota justamente onde tudo foi cortado. E no versículo 3, o nome finalmente aparece, mas vem da boca de Deus: "será chamado sancto". Não é um nome conquistado por barganha. É um nome dado a quem "em Jerusalem está escripto para vida". Toda a linha que atravessa a Escritura até Cristo está aqui em miniatura: o opróbrio não é removido por quem se agarra, mas por quem é chamado.
O Espelho
Você provavelmente não teme ficar sem pão. Teme ficar sem título. A pergunta "e você, o que faz?" numa festa; o cartão de visita que já não vale; o sobrenome que some quando o casamento termina; a mãe cujos filhos cresceram e que já não sabe como se apresentar; o homem aposentado que ainda diz "eu era engenheiro". Nós também negociamos: aceito trabalhar mais barato, aceito ser tratado assim, aceito calar, contanto que continuem me chamando de alguma coisa. Isaías não nos condena por isso, ele apenas acende a luz e mostra a que preço fazemos o negócio. E deixa a pergunta suspensa: se o nome que você comprou for retirado amanhã, sobra quem? Hoje, escreva num papel o título do qual você mais depende para se sentir alguém, leia-o em voz alta diante de Deus e depois diga, também em voz alta: "isto não é o meu nome".
Contexto
Estamos em Jerusalém, no século oitavo antes de Cristo, sob a sombra da Assíria. O capítulo 3 descreveu o desmoronamento: líderes removidos, meninos governando, e as filhas de Sião desfilando com correntinhas, brincos e perfumes que se tornariam podridão. A guerra devora os homens, e numa sociedade de honra e vergonha isso significa mulheres sem marido, sem filhos, sem lugar. A lei de Israel garantia à esposa alimento, vestimenta e direito conjugal; essas três coisas eram o mínimo inegociável. As sete mulheres abrem mão dos dois primeiros itens explicitamente. Sete é o número da plenitude: não são sete mulheres literais, é a plenitude do desamparo. Elas não pedem casamento. Pedem cobertura legal, um teto de nome sobre a cabeça.
O Personagem Principal
Deus não fala neste versículo. É esse o detalhe mais perturbador. Ouvimos apenas a voz das mulheres, e ela é urgente, coletiva, quase sem fôlego. Elas não choram nem acusam; negociam. Há uma dignidade estranha nisso, a dignidade de quem já perdeu tudo menos a vontade de existir. Mas o silêncio de Deus aqui não é ausência. Três versículos adiante ele aparece lavando: "Quando o Senhor lavar a immundicia das filhas de Sião". As mesmas filhas de Sião ridicularizadas no capítulo 3, agora lavadas. Ele não responde ao pedido delas; responde à necessidade delas, que era outra e mais funda. Fica a pergunta que o texto não fecha: quantas das nossas orações Deus atravessa sem responder, para responder o que não soubemos pedir?
O Intertexto
Mais adiante, Isaías falará a uma mulher estéril e envergonhada e lhe dirá que não tema o opróbrio, porque o seu marido é o seu Criador (capítulo 54). É a mesma palavra, o mesmo opróbrio, e agora não há mais nenhum homem no meio da transação: Deus assume ele mesmo o lugar do nome que cobre. E ainda mais longe, no capítulo 56, o eunuco, o homem sem descendência e sem futuro, recebe da parte de Deus um nome melhor do que o de filhos e filhas. Isaías volta três vezes ao mesmo ponto, como quem insiste com um teimoso. O opróbrio não se resolve horizontalmente. Nenhum ser humano tem nome suficiente para cobrir outro.
Reflexão
Se o Senhor removesse hoje o nome pelo qual você é mais conhecido, o que restaria de você diante dele?
As sete mulheres pedem a um homem o que só Deus podia dar. Onde, na sua vida, você tem pedido a coisa certa à pessoa errada?
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Perguntas frequentes sobre Isaiah 4:1
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Pouco antes, Deus arranca os enfeites das filhas de Sião: pulseiras, véus, perfumes, tudo aquilo em que elas se apoiavam para se sentir alguém. Fica o vazio. E então vem a promessa: "Naquele dia, o Renovo do SENHOR será cheio de beleza e de glória." O que te sustentava caiu, e sobrou o que não cai. O que Deus está tirando de você agora para enfim poder te vestir?
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