Jó 31
O Texto
Jó faz seu juramento final. Um após outro, ele enumera os pecados que poderia ter cometido e não cometeu: cobiça sexual, desonestidade nos negócios, adultério, desprezo pelo direito dos seus escravos, indiferença ao pobre, à viúva e ao órfão, confiança no ouro, alegria secreta com a desgraça do inimigo, portas fechadas ao estrangeiro, exploração da terra e de quem a trabalhava. A cada item ele acrescenta uma maldição contra si mesmo, caso esteja mentindo. E termina desafiando Deus a aparecer no tribunal: "Ah quem me dera um que me ouvisse!" Depois disso, silêncio. "Acabaram-se as palavras de Job."
O Cerne
Repare no que Jó não diz. Ele não se defende alegando que ofereceu sacrifícios suficientes, nem que orou muito, nem que teve experiências espirituais. Sua defesa inteira é ética, e ética horizontal: como tratou pessoas com menos poder que ele. E a raiz teológica aparece no versículo 15, uma das frases mais explosivas do Antigo Testamento: "Aquelle que me fez no ventre não o fez tambem a elle? ou não nos formou do mesmo modo na madre?" Num mundo onde o escravo era propriedade, Jó fundamenta o direito do escravo na criação. Deus não é apenas juiz da conduta religiosa; ele é o oleiro que moldou ambos os corpos no mesmo escuro. Diminuir alguém é insultar o artesão.
O Fio Condutor
Jó pede um julgamento e não o consegue nos seus próprios termos. Ele quer que "o meu adversario escreva um livro", uma acusação formal, por escrito, que ele possa carregar como coroa. Ele quer o processo justo que o universo parece lhe negar. Essa fome de um tribunal onde o inocente seja reconhecido atravessa toda a Escritura e só encontra descanso na cruz, onde a acusação é finalmente escrita e pregada, mas sobre outra cabeça. O paradoxo é duro: Jó, o justo, não recebe seu dia no tribunal; Cristo, o justo, recebe um julgamento e é condenado. A integridade de Jó aponta para aquilo que ele mesmo não pode garantir: um veredito que não dependa da nossa própria defesa.
O Espelho
Este capítulo é desconfortável porque é específico. Jó não diz "procurei ser uma boa pessoa". Ele fala de olhos, de balanças, de pão partilhado, de mão de obra não paga. "Se comi a sua novidade sem dinheiro, e suffoquei a alma dos seus donos." Traduza para hoje: o freelancer que você paga em sessenta dias porque pode; a diarista sem carteira porque sai mais barato; o colega cuja ideia você apresentou como sua. Traduza para o versículo 1, o pacto com os olhos: não é apenas pornografia, é o hábito de avaliar corpos como mercadoria. Traduza para o versículo 29, a alegria discreta quando o desafeto tropeça. Jó inclui até o que ninguém vê: "E o meu coração se deixou enganar em occulto." A ética dele chega onde nenhuma câmera chega.
A Pergunta
Jó não seria arrogante? Ele fala como quem tem currículo e cobra reconhecimento: "como principe me chegaria a elle." Não é exatamente isso que Paulo depois demole, a justiça própria? A tensão é real e o texto não a resolve. Mas note duas coisas. Primeiro, Jó não afirma ausência de pecado; ele nega ter escondido pecado, "Se, como Adão, encobri as minhas transgressões". Isso é outra coisa: é transparência, não perfeição. Segundo, quando Deus finalmente responde, nos capítulos seguintes, ele não desmente nenhum item desta lista. Deus não diz "você mentiu no versículo 20". Ele muda o assunto inteiro. Talvez a lição incômoda seja esta: uma vida limpa é verdadeiramente valiosa e ainda assim não é alavanca sobre Deus.
O Intertexto
Isaías 58 faz a mesma cirurgia pelo outro lado: lá está o povo que jejua religiosamente e Deus responde que o jejum que ele escolhe é repartir o pão com o faminto e abrigar o pobre sem casa. Jó já vivia isso séculos antes do profeta ter de gritá-lo. E Tiago, no Novo Testamento, define religião pura e sem mácula como visitar órfãos e viúvas na sua aflição, exatamente as duas categorias que Jó nomeia nos versículos 16 e 17. A Bíblia insiste, com uma teimosia que deveria nos assustar: o termômetro da fé não fica na boca, fica na mão que dá ou retém.
O Perfil
Os primeiros ouvintes viviam numa economia onde o poder do patriarca era quase absoluto. Ele decidia salários, casamentos, castigos. Não havia sindicato, ministério público nem imprensa. A "porta" mencionada nos versículos 21 e 34 era o tribunal da cidade, onde os influentes definiam sentenças entre si. Jó diz que não usou essa vantagem: "Se eu levantei a minha mão contra o orphão, porquanto na porta via a minha ajuda." Para quem ouvia, isso era chocante, quase antinatural. Um homem grande que abre mão da vantagem estrutural que todos consideravam legítima. E as maldições que ele invoca não são retóricas: perder a colheita, perder o braço, perder a esposa. Ele apostou tudo o que tinha na verdade do que dizia.
Reflexão
Onde, na sua semana, você tem uma vantagem estrutural que ninguém questionaria se você usasse: no trabalho, em casa, com dinheiro? O que mudaria se você a recusasse?
Jó nega ter escondido suas transgressões "como Adão". Que coisa você mantém no peito, não por vergonha diante de Deus, mas por medo do "desprezo das familias"?
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Perguntas frequentes sobre Job 31
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Porventura, não vê ele os meus caminhos e não conta todos os meus passos?" Jó diz isso no meio de acusações, e o olhar de Deus não o assusta: é sua testemunha. Curioso como o mesmo olhar que nos faz esconder pode nos sustentar. Depende do que temos feito quando ninguém mais estava olhando.
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