Juízes 14
O Texto
Sansão desce a Timnate, vê uma mulher filisteia e exige dos pais que a tomem para ele. No caminho despedaça um leão com as mãos nuas, e dias depois encontra mel no cadáver do animal, que come e dá aos pais sem lhes contar de onde veio. No banquete de casamento propõe um enigma aos trinta companheiros filisteus, é traído pela esposa que chora durante sete dias, perde a aposta, mata trinta homens em Ascalom para pagá-la e volta furioso para a casa do pai, enquanto a mulher é entregue a outro.
O Cerne
O versículo 4 é a chave que destranca o capítulo inteiro e que, ao mesmo tempo, nos deixa desconfortáveis: "seu pae e sua mãe não sabiam que isto vinha do Senhor". O narrador interrompe a cena doméstica para nos dizer que por trás do capricho de um jovem há um propósito divino em marcha. Não que Deus aprove o capricho. O texto não suaviza nada: Sansão age por apetite, despreza o conselho dos pais, trata o casamento como aquisição. E Deus trabalha dentro disso. É a doutrina da providência em sua forma mais crua, sem verniz piedoso. O Senhor não espera por instrumentos limpos; ele move a história também através de pessoas que não estão colaborando conscientemente com ele. Isso é consolo e terror ao mesmo tempo.
O Fio Condutor
Juízes narra um povo que afunda em espiral, e cada libertador é mais ambíguo que o anterior. Sansão é o último e o pior: um nazireu consagrado desde o ventre que passa o livro inteiro quebrando os termos da própria consagração. E ainda assim o Espírito do Senhor se apossa dele "tão possantemente" (versículos 6 e 19). O leitor atento percebe o que o livro está construindo: a libertação de Israel não depende da qualidade moral do libertador, porque nenhum libertador humano tem qualidade moral suficiente. O livro cava um buraco que só pode ser preenchido por alguém de fora. Quando o Novo Testamento apresenta um Salvador sobre quem o Espírito desce e permanece, e que é obediente até a morte, não é repetição de Sansão, é correção dele. Sansão mostra por contraste o que precisávamos.
O Espelho
"Tomae-me esta, porque ella agrada aos meus olhos." Esse é o argumento inteiro. Não há discernimento, não há oração, não há pergunta sobre aliança ou sobre as consequências para a geração seguinte. Há apetite elevado à categoria de razão suficiente. Reconhecemos isso melhor do que gostaríamos: a compra que você justificou depois de já ter decidido, o emprego aceito porque o salário brilhava, a hora e meia de rolagem no telefone que ninguém escolheu conscientemente mas todo mundo faz. A pergunta que Sansão nunca faz é a pergunta que o desejo odeia: isto é bom, ou apenas me agrada? Hoje, antes de dormir, escreva numa folha uma coisa que você escolheu nesta semana unicamente porque agradou aos seus olhos, diga em voz alta diante de Deus o que ela custou, e rasgue o papel.
O Detalhe
O mel no cadáver do leão é mais do que uma curiosidade da natureza. Um nazireu não podia tocar em corpo morto, era parte do voto, junto com o vinho e o cabelo. Sansão não só toca: enfia a mão, come, e depois entrega o mel aos pais sem dizer de onde veio, tornando-os cúmplices de uma contaminação que desconhecem. O detalhe revela o caráter do homem. Ele não luta com sua consagração, ele simplesmente a ignora e depois esconde o rastro. E há algo mais amargo ainda: a doçura é real. O mel é bom. A violação da santidade produziu um prazer genuíno, e é exatamente por isso que ela é tão difícil de abandonar.
A Pergunta
Se "isto vinha do Senhor", Deus causou o pecado de Sansão? A Escritura recusa as duas saídas fáceis. Não diz que Deus apenas reagiu ao que Sansão já queria, nem diz que Sansão foi um boneco sem responsabilidade, pois o capítulo o julga sem piedade do começo ao fim. Deus é soberano sobre a vontade humana de um modo que não absolve essa vontade. Isso não se resolve logicamente; aprende-se a viver com isso. Talvez a imagem mais honesta seja esta: o Senhor usa a madeira torta sem endireitá-la primeiro, e a madeira continua torta, e continua respondendo pela sua torção. Quem exige clareza total aqui vai acabar negando a soberania de Deus ou a culpa do homem, e as duas perdas são grandes demais.
O Intertexto
A expressão de Sansão, "agrada aos meus olhos", é literalmente "é reta aos meus olhos", e ela ecoa a frase que fecha o livro inteiro: cada um fazia o que era reto aos seus próprios olhos. Sansão não é a exceção em Israel, é o retrato de Israel. E a tensão do versículo 4 encontra seu paralelo mais claro em Gênesis, quando José diz aos irmãos que eles intentaram o mal mas Deus o tornou em bem. Em ambos os casos o mal permanece mal, e Deus permanece Senhor da história que o mal pensava estar escrevendo.
Reflexão
Onde, nesta semana, você usou "me agrada" como se fosse o mesmo que "é certo"?
Que doçura real você encontrou num lugar onde sabia que não devia pôr a mão, e o que fez com ela depois?
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Perguntas frequentes sobre Judges 14
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Desceu, pois, e falou àquela mulher, e ela agradou a Sansão." É a segunda vez que ouvimos isso dele. Primeiro aos pais, agora na narrativa: agradou aos olhos. Entre uma frase e outra ele matou um leão com a força de Deus e não contou a ninguém. Força escondida, desejo em alto e bom som. Em você, o que fala mais alto?
Obrigado, Senhor, porque quando o leão novo saiu rugindo ao encontro de Sansão no caminho de Timna, o Senhor já estava ali. Agradeço porque nenhum rugido inesperado na minha estrada Te surpreende, e nenhuma vinha esconde perigo que esteja fora do Teu alcance.
Apartou-se do caminho a ver o cadáver do leão, e eis que nele havia um enxame de abelhas e mel." Sansão volta ao lugar da sua vitória para admirá-la. Encontra doçura, sim, mas consagrado como nazireu, toca o que não devia. Cuidado com o mel colhido fora do caminho. Nem toda doçura na boca é bênção na alma.
Sansão transforma a própria festa de casamento numa aposta. Os convidados aceitam: "Propõe o teu enigma, para que o ouçamos." Só que o enigma nasceu de um segredo dele, o leão e o mel, algo que ele nunca contou a ninguém, nem aos pais. Ele preferiu vencer as pessoas a ser conhecido por elas. E você, quantas coisas guarda como carta na manga em vez de partilhar?
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