Juízes 8
O Texto
Depois da vitória noturna, Gideão apara a queixa ciumenta de Efraim com uma resposta diplomática, e então atravessa o Jordão exausto atrás dos reis midianitas. Sucote e Peniel lhe negam pão; ele promete vingança e cumpre, debulhando os anciãos com espinhos e matando os homens de Peniel. Captura e executa Zebá e Salmuna, recusa a coroa que Israel lhe oferece, mas pede o ouro do despojo e faz dele um éfode, que se torna armadilha; morre em boa velhice, deixando setenta filhos, um deles chamado Abimeleque, "meu pai é rei".
O Núcleo
Este capítulo não é sobre um herói que decai; é sobre o que acontece quando a vitória de Deus é apropriada por mãos humanas. O Gideão do capítulo 7 lutava com trezentos homens e trombetas, para que ninguém pudesse se gloriar. O Gideão do capítulo 8 luta por si mesmo: vinga irmãos mortos, castiga cidades que o humilharam, coleciona ornamentos de camelo. A frase mais bonita do capítulo, "Sobre vós eu não dominarei… o Senhor sobre vós dominará", é teologicamente impecável e biograficamente falsa: ele recusa o título e assume tudo o que vem com ele, o harém, os setenta filhos, o santuário particular. A tentação não é sempre negar a Deus; às vezes é dizer a coisa certa enquanto se constrói uma dinastia.
O Fio Condutor
Preste atenção nos nomes das cidades. Sucote e Peniel são lugares de Jacó. Foi em Peniel que Jacó lutou a noite inteira e saiu manco, dizendo que vira Deus face a face e sobrevivera; foi em Sucote que ele armou as tendas ao voltar em paz. Gideão passa exatamente por esses dois lugares e deixa ruínas: derruba a torre de Peniel e mata os homens da cidade. O lugar da bênção arrancada a Deus vira lugar da vingança arrancada aos irmãos. Israel está desfazendo, com espinhos e espada, a memória do seu próprio patriarca. Esse é o movimento de Juízes: a história da promessa correndo para trás, até que só um rei verdadeiro, nascido em Belém e coroado numa cruz, possa recusar de fato o domínio para si.
O Espelho
Há um tipo de mágoa que se disfarça de justiça, e ela mora nos versículos 15 e 16. Gideão volta com os reis capturados e diz aos homens de Sucote: "Vedes aqui a Zebah e a Salmuna, dos quaes desprezivelmente me deitastes em rosto". Ele guardou a frase deles palavra por palavra durante toda a perseguição. Você conhece isso: a resposta que seu cunhado deu no Natal, o comentário do chefe na reunião, o silêncio de um amigo quando você precisou de pão. A vitória chega e, em vez de gratidão, você faz as contas. Hoje, escreva num papel a frase exata que alguém disse e que você ainda cita de cor, e queime ou rasgue o papel dizendo em voz alta: "isto não vai me governar".
A Pergunta
Por que o texto não condena Gideão explicitamente? O narrador conta os espinhos, o éfode, as muitas mulheres e a concubina de Siquém sem uma palavra de reprovação direta, e termina dizendo que ele morreu "n'uma boa velhice". Só uma frase escapa: o éfode "foi por tropeço a Gideon e á sua casa". A Escritura muitas vezes julga pelas consequências e não pelo comentário. O leitor precisa virar a página e ver Abimeleque assassinando setenta irmãos sobre uma pedra para entender o que estava sendo semeado aqui. Isso é desconfortável, porque significa que não somos avisados no momento do erro. O pecado de Gideão não teve trovão; teve netos.
O Detalhe
O éfode. Reúna as peças: Gideão pede os pendentes de ouro, o povo estende uma capa, cada um lança ali o seu, e do ouro sai um objeto de culto ao qual "todo o Israel fornicou". Quem lê Êxodo 32 reconhece imediatamente o roteiro: brincos de ouro recolhidos do povo, fundidos, transformados em objeto, e Israel se prostituindo diante dele. Gideão repete Arão, com uma diferença agravante: Arão cedeu à pressão da multidão, Gideão tomou a iniciativa. E o éfode era peça sacerdotal legítima, usada para consultar a vontade de Deus. Não é um ídolo pagão; é um instrumento santo colocado no lugar errado, em Ofra, na cidade dele, sob controle dele. As piores idolatrias de Israel raramente foram importadas. Foram feitas em casa, com material sagrado.
A Personagem Central
Gideão começou escondido num lagar, pedindo sinais, quebrando o altar de Baal à noite por medo. Termina como um homem que ninguém pode contrariar. O trajeto é reconhecível: quem foi pequeno demais tempo às vezes se torna incapaz de tolerar uma única humilhação. Sua resposta a Efraim é hábil e generosa, prova de que ele sabia acalmar; sua resposta a Sucote mostra que ele só sabia acalmar quem tinha poder. E há a cena com Jéter, o filho primogênito ordenado a matar dois reis e que não consegue puxar a espada porque tinha medo. Gideão coloca o próprio menino diante do sangue para lhe dar honra militar, e o menino congela. O pai que já foi covarde não suporta ver a covardia no filho. É o retrato de um homem livre dos midianitas e ainda cativo de si mesmo.
Reflexão
Em que área da minha vida digo "o Senhor domina" enquanto, na prática, mantenho o controle nas mãos?
Que coisa boa e legítima eu instalei "na minha cidade", sob meu controle, e que já começou a ser tropeço para os que estão perto de mim?
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Perguntas frequentes sobre Judges 8
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Senhor, esse relato me incomoda. Vejo em mim os dois lados: a dureza de quem nega pão a quem está exausto e a vontade de revidar quando me ferem. Ensina meu coração de outro jeito, com misericórdia, e não com espinhos.
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