Números 23:19
O Texto
No cume de Pisga, com o cheiro de sete holocaustos ainda no ar e os príncipes de Moabe esperando a maldição pela qual pagaram, Balaão abre a boca e diz o contrário do que foi contratado para dizer. Antes de anunciar a bênção, ele explica por quê: "Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa: porventura diria elle, e não o faria? ou fallaria, e não o confirmaria?" É uma frase curta com quatro golpes: Deus não mente como mentem os homens, não muda de ideia como mudam os filhos dos homens, não fala sem fazer, não promete sem confirmar. O profissional do oráculo declara, diante do rei que o pagou, que aqui não há nada a negociar.
O Cerne
A força desta frase depende do mundo em que foi dita. Os deuses do antigo Oriente Próximo eram, antes de tudo, influenciáveis. Por isso se construíam altares, por isso sete bezerros e sete carneiros, por isso Balaque muda Balaão de montanha em montanha como quem procura o ângulo certo para uma fotografia: talvez de outro lugar a divindade veja Israel com outros olhos. A religião era arte de manejo. E no meio dessa lógica cai a declaração de que Deus não é homem. Não significa apenas que Deus é grande; significa que Deus não é manipulável, porque não é dividido por dentro. Ele não diz uma coisa ao credor e outra ao devedor. A palavra que ele solta não volta vazia nem corrigida, e é exatamente isso que arruína o negócio de Balaque e sustenta a esperança de Israel.
O Fio Condutor
Israel está acampado nas planícies de Moabe, sem saber que naquele momento, no alto da montanha, um adivinho estrangeiro está sendo obrigado a abençoá-lo. Essa é a imagem: a promessa feita a Abraão sendo defendida por Deus nas costas do próprio povo, sem que o povo mova um dedo. A fidelidade de Deus não depende do desempenho de Israel, e o versículo 21 chega a dizer que o Senhor "não viu iniquidade em Israel", o que é espantoso num livro cheio de murmurações. Aqui já se ouve o som do evangelho: a bênção se sustenta em quem a pronunciou, não em quem a recebe. O "sim" de Deus não oscila, e é por isso que Paulo poderá dizer que em Cristo todas as promessas de Deus se tornaram Amém.
O Espelho
Balaque acreditava que a realidade última era negociável, e nós também, com mais educação. Oramos como quem muda de montanha: se este culto não funcionou, talvez outro; se esta oração não rendeu, talvez uma fórmula melhor, uma oferta maior, um jejum mais rigoroso. Por trás disso mora o medo de que Deus seja instável, alguém que hoje ama e amanhã se arrepende, dependendo do nosso rendimento no trabalho, da nossa paciência com os filhos, do saldo bancário. Este versículo corta essa raiz. Deus não muda de ideia a seu respeito quando você falha, porque nunca baseou a sua palavra em você. Hoje, escreva num papel a promessa de Deus de que você mais duvida, e ao lado dela copie à mão: "porventura diria elle, e não o faria?"
O Perfil
Os primeiros a ouvir este relato foram israelitas que atravessaram aquele deserto ou ouviram dos pais como foi. Eles conheciam a vulnerabilidade de serem um povo sem terra, sem templo, sem exército profissional, acampado à beira do território de reis com cidades muradas. E conheciam o pavor real da maldição: naquele mundo, palavras ditas por especialistas em rituais eram armas, tão sérias quanto lanças. Ouvir que um adivinho contratado foi forçado a abençoá-los significava descobrir que existiu uma batalha invisível travada por eles enquanto dormiam em suas tendas. Não era teologia abstrata sobre a imutabilidade divina; era a notícia de que o inimigo gastou fortunas em bezerros e carneiros e voltou para casa de mãos vazias.
A Pergunta
Mas a Bíblia diz várias vezes que Deus se arrependeu: do homem, antes do dilúvio; do mal que pensara fazer a Nínive. Como conciliar? A palavra hebraica para arrepender-se, nacham, descreve mudança de rumo e também dor, compaixão. O que Balaão nega não é que Deus responda de verdade aos homens; é que Deus seja volúvel, que possa ser comprado ou enganado, que a sua palavra tenha letras miúdas. Deus se move em relação a nós sem mudar quem é. Isso não elimina a tensão, e seria desonesto dizer que elimina. Fica um mistério: o Deus imutável não é o Deus imóvel.
O Detalhe
Repare em quem fala. Não é Moisés, não é um sacerdote, é um profissional pago por um rei moabita, cercado de altares que ele mesmo mandou construir. A verdade mais firme deste capítulo sai da boca do homem menos confiável dele, e a tradição posterior o tratará como exemplo de cobiça. Deus põe a palavra na boca de Balaão, e a boca obedece contra o próprio interesse comercial. Há algo quase cômico e profundamente consolador nisso: se Deus pode fazer a sua promessa ser proclamada por um adivinho mercenário no alto de Pisga, nenhuma boca hostil, nenhuma circunstância torta, nenhum poder pago para te amaldiçoar consegue impedir que a bênção chegue.
Reflexão
Em que área da sua vida você age como Balaque, trocando de montanha em busca de um Deus mais disposto a dizer o que você quer ouvir?
Se a bênção sobre você não depende do seu desempenho de hoje, o que isso muda na maneira como você vai encerrar este dia?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, há em mim o mesmo desejo que escapou da boca daquele homem: terminar bem, morrer como quem viveu perto de ti. Mas não quero só o fim dos justos, quero os dias deles também. Ensina-me a caminhar assim hoje, antes que o fim chegue.
Pai, tantas promessas humanas se desfizeram nas minhas mãos que às vezes custa acreditar de novo. Mas o Senhor não muda de ideia nem volta atrás no que fala. Ajuda-me a descansar nisso hoje, mesmo quando a espera parece longa demais.
Então, o levou ao campo de Zofim, ao cume de Pisga; e edificou sete altares, e ofereceu um novilho e um carneiro sobre cada altar." Balaque muda de monte, muda de altar, muda de ângulo, esperando que Deus mude de palavra. E você, quantas vezes já trocou de lugar querendo que Deus trocasse de resposta? O que precisa mudar talvez não seja a paisagem, mas o coração que insiste em não ouvir.
Obrigado, Senhor, porque Tu vais ao encontro do homem e pões a tua palavra na sua boca. Como fizeste com Balaão, tens o poder de dirigir até os lábios que não te conhecem, para que só o teu recado seja dito. Nada escapa ao teu governo, e isso me tranquiliza.
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