Explicação bíblica

Salmos 103

Bíblia
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O Texto

Um homem se dirige a si mesmo em tom de ordem: "Bemdize, ó alma minha ao Senhor, e tudo o que ha em mim, bemdiga o seu sancto nome." Não é uma sugestão, é um comando dado à própria interioridade, seguido de uma lista do que Deus faz: perdoa, sara, redime da perdição, coroa, farta. A partir do versículo 6 o olhar se alarga do indivíduo para o povo, de Moisés a Israel, e o salmo descreve o caráter de Deus: lento para a ira, que não nos trata segundo os nossos pecados, que se compadece como pai e sabe que somos pó. Termina convocando anjos, exércitos e todas as obras da criação para o mesmo louvor com que começou.

O Cerne

O centro deste salmo não é a gratidão humana, é o que torna a gratidão possível: "Não nos tratou segundo os nossos peccados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades." Essa frase é uma confissão de que existe um tratamento merecido, e que ele não veio. A palavra hebraica que aparece aqui como "benignidade" é hesed, a lealdade fiel de Deus dentro da aliança, um amor que não oscila conforme o desempenho do amado. E é justamente isso que torna o versículo 12 tão perturbador quando lido devagar: Deus afasta as transgressões, mas o salmo não diz para onde elas vão. Alguma coisa foi retirada de nós e colocada em outro lugar. O salmo canta o resultado sem mostrar o custo, e essa lacuna é o espaço onde a cruz virá se encaixar.

O Fio Condutor

O versículo 12 tem uma pré-história ritual. Uma vez por ano, no Dia da Expiação, o sacerdote de Israel colocava as mãos sobre um bode vivo, confessava sobre ele as iniquidades do povo e o enviava para o deserto, para uma terra separada (Levítico 16). As transgressões não evaporavam; eram carregadas para longe, sobre um corpo vivo. O salmista canta a experiência desse rito: elas foram afastadas, a distância é imensurável, do oriente ao ocidente. Mas um bode no deserto é um símbolo, não uma solução, e Israel repetia o gesto todo ano. O Novo Testamento anuncia que alguém finalmente saiu carregando o peso de verdade, fora dos portões da cidade, e não voltou para repetir. Tudo o que o Salmo 103 celebra como fato consumado, a cruz mostra como foi pago.

O Espelho

Há um pecado específico que você já confessou e que ainda assim volta, geralmente por volta das três da manhã, ou quando você vê determinada pessoa, ou quando alguém elogia a sua integridade e você sente um frio no estômago. Sua memória é mais tenaz do que a de Deus, e nisso ela não é mais honesta, é apenas mais cruel. O salmo não manda você esquecer; manda lembrar-se dos benefícios, "não te esqueças de nenhum de seus beneficios", e o primeiro da lista é o perdão. Há também o outro lado: você tem trabalhado como se fosse indestrutível, negligenciando o corpo, o sono, a família, enquanto o versículo 15 diz calmamente que você é flor de campo. Hoje: diga em voz alta, sozinho no carro ou na cozinha, o nome daquilo que você mais se envergonha de ter feito, e em seguida leia em voz alta o versículo 12. Só isso, uma vez.

O Protagonista

O Deus deste salmo é retratado sobretudo por aquilo que não faz. Não reprova perpetuamente, não retém a ira para sempre, não nos trata segundo os nossos pecados. É um retrato por subtração, e isso diz algo: a ira existe, o merecimento existe, e Deus os contém. Depois vem a imagem positiva, e ela é doméstica: "Assim como um pae se compadece de seus filhos." Um pai que se compadece não é um pai que finge não ver. Ele vê exatamente, e a compaixão nasce justamente de ver. O versículo 14 completa: "elle conhece a nossa estructura, lembra-se de que somos pó." Deus não está decepcionado com a sua fragilidade. Ele a projetou, e se lembra dela melhor do que você.

A Pergunta

"Sara todas as tuas enfermidades." Todas. Você conhece pessoas que oraram com este versículo na boca e morreram mesmo assim, jovens, deixando filhos pequenos. O salmo mente? Não, mas também não explica. Três versículos adiante ele mesmo admite que o homem passa como a erva e que o seu lugar não será mais conhecido, sem retirar nada do que disse sobre a cura. As duas afirmações convivem dentro do mesmo poema sem se resolverem. O que o salmista parece saber é que a cura de Deus não é um contrato executável no prazo que definimos, e que a misericórdia "desde a eternidade e até á eternidade" opera numa escala onde o túmulo não é a palavra final. Isso não anestesia a dor de ninguém. Apenas impede que a dor tenha a última palavra.

O Detalhe

"Lembra-se de que somos pó." A palavra pó vem de Gênesis, do chão de onde o ser humano foi formado e ao qual retorna, e no salmo ela funciona como argumento a favor do homem, não contra ele. Deus lembra da matéria-prima. É uma frase estranhamente terna: a nossa fraqueza, em vez de provocar impaciência divina, provoca compaixão. E aqui a leitura cristã ganha um peso que o salmista não podia calcular. Aquele que se lembra de que somos pó um dia assumiu o pó, teve fome, cansou-se junto ao poço, suou sangue, foi enterrado. Deus não conhece a nossa estrutura apenas como engenheiro que examina a planta; conhece-a por dentro, por experiência. É por isso que a compaixão do versículo 13 não é condescendência. É solidariedade.

Reflexão

Se Deus já afastou determinado pecado seu à distância entre oriente e ocidente, o que você ganha ao continuar segurando-o perto?

Onde, na sua semana concreta de trabalho e família, você tem vivido como se não fosse pó, e o que mudaria se aceitasse que é?

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Perguntas frequentes sobre Psalms 103

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Salmos 103?
Um homem se dirige a si mesmo em tom de ordem: "Bemdize, ó alma minha ao Senhor, e tudo o que ha em mim, bemdiga o seu sancto nome." Não é uma sugestão, é um comando dado à própria interioridade, seguido de uma lista do que Deus faz: perdoa, sara, redime da perdição, coroa, farta.
Sobre o que fala Salmos 103?
O versículo 12 tem uma pré-história ritual. Uma vez por ano, no Dia da Expiação, o sacerdote de Israel colocava as mãos sobre um bode vivo, confessava sobre ele as iniquidades do povo e o enviava para o deserto, para uma terra separada (Levítico 16). As transgressões não evaporavam; eram carregadas para longe, sobre um corpo vivo.
Qual é o contexto histórico de Salmos 103?
O Deus deste salmo é retratado sobretudo por aquilo que não faz. Não reprova perpetuamente, não retém a ira para sempre, não nos trata segundo os nossos pecados. É um retrato por subtração, e isso diz algo: a ira existe, o merecimento existe, e Deus os contém. Depois vem a imagem positiva, e ela é doméstica: "Assim como um pae se compadece de seus filhos.
O que Salmos 103 nos ensina sobre o caráter de Deus?
"Lembra-se de que somos pó." A palavra pó vem de Gênesis, do chão de onde o ser humano foi formado e ao qual retorna, e no salmo ela funciona como argumento a favor do homem, não contra ele. Deus lembra da matéria-prima. É uma frase estranhamente terna: a nossa fraqueza, em vez de provocar impaciência divina, provoca compaixão.
Como Salmos 103 continua relevante hoje?
Onde, na sua semana concreta de trabalho e família, você tem vivido como se não fosse pó, e o que mudaria se aceitasse que é?

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