Apocalipse 18
O Texto
Um anjo desce com tal glória que a terra inteira se ilumina, e grita que a grande Babilônia caiu, tornada morada de demônios e abrigo de toda ave imunda. Outra voz, vinda do céu, chama o povo de Deus para fora dela antes que o juízo caia. Então vem o luto: reis, mercadores e navegantes contemplam a fumaça de longe, chorando não pela cidade, mas pelo negócio perdido; um anjo lança uma pedra de moinho no mar como sinal do afundamento definitivo, e o capítulo termina com a acusação que sustenta tudo: nela se achou o sangue dos profetas e dos santos.
O Coração
O que impressiona nesta visão não é a violência, mas a lentidão da conta. "Já os seus peccados se accumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades d'ella." Houve, portanto, um longo tempo em que Deus pareceu não se lembrar. Séculos de negócios prósperos, de música nos salões, de lâmpadas acesas até tarde, e nenhuma interrupção do céu. Babilônia interpretou esse silêncio como aprovação: "Estou assentada como rainha, e não sou viuva, e não verei o pranto." O texto diz que ela se enganou, e que o engano durou muito. A justiça de Deus aqui não é reflexo imediato; é memória. E memória é uma coisa mais assustadora do que reação, porque significa que nada se perdeu.
O Fio Condutor
Babilônia é um nome antigo para um mecanismo que se repete: o império que compra tudo, inclusive gente, e cobre o sangue com perfume e canela. Os profetas cantaram lamentos parecidos sobre Tiro e sobre a Babilônia histórica, e João pega esses cânticos e os aplica à cidade do seu tempo. Mas repare no chamado do verso 4: "Sae d'ella, povo meu." É a mesma voz que tirou Abraão de Ur e Israel do Egito, e é a mesma direção do evangelho, que sempre começa com um chamado para fora antes de ser um chamado para dentro. Cristo é o Cordeiro morto por essa cidade e o Senhor que a julga; o sangue dos santos, no verso 24, é continuação do sangue dele.
O Espelho
A lista de mercadorias termina de um modo que não deveria deixar ninguém tranquilo: ouro, pérolas, seda, mármore, canela, trigo, cavalos, "e de corpos e de almas de homens". A cadeia de suprimentos não muda de tom quando chega às pessoas; elas entram no mesmo inventário, entre o vinho e as carruagens. Pergunte-se onde você está nessa lista. Não como monstro, mas como consumidor razoável, que quer a roupa barata e não pergunta quem a costurou, que quer o rendimento e não pergunta de onde vem. Babilônia não seduz com crueldade, seduz com conforto: "delicias", diz o texto três vezes. O perigo raramente aparece como perigo. Aparece como qualidade de vida.
O Detalhe
Demore-se nos versos 22 e 23, onde o juízo é descrito quase inteiramente por ausência de som. Nenhuma harpa, nenhuma flauta, nenhum artífice, nenhum ruído de mó, nenhuma lâmpada acesa, nenhuma voz de esposo e de esposa. É estranho: o fim de um império descrito como o fim de um casamento de aldeia, do pão sendo moído de manhã, da luz de uma casa. São coisas inocentes. Deus não as odeia; ele as inventou. Mas quando uma civilização se constrói sobre corpos e almas de homens, até a sua música se contamina, e o silêncio que resta é o preço. Fica a pergunta desconfortável: quanto da beleza que consumimos foi paga por alguém que não consultamos?
O Perfil
As igrejas da Ásia Menor que ouviram isto eram pequenas, pobres em alguns casos, sem influência política e cercadas por uma máquina impressionante. Roma trazia grão do Egito, mármore da Grécia, seda da China, escravos de todo lugar. Recusar-se a participar do culto ao imperador significava perder clientes, perder a filiação nas associações profissionais, perder o sustento. Para eles, "Sae d'ella" não era metáfora espiritual, era ruína econômica. E a promessa de que aquilo tudo cairia "n'uma hora" devia soar quase absurda, do jeito que soaria hoje dizer que os mercados globais desaparecerão numa tarde. Foi exatamente essa palavra absurda que os manteve de pé.
A Pergunta
O verso 20 é difícil de engolir: "Alegra-te sobre ella, ó céu." Como é possível alegrar-se com a queima de uma cidade? Não tenho uma resposta que dissolva o desconforto. Só noto duas coisas. Primeiro, a alegria é dirigida ao céu, aos apóstolos e profetas, isto é, aos que foram mortos; não é a alegria do espectador seguro, é a alegria da vítima que finalmente é ouvida. Segundo, os que choram no capítulo choram por si mesmos, pelo lucro, não pelos mortos do verso 24. Talvez a pergunta verdadeira não seja se podemos nos alegrar, mas de que lado da fumaça estamos quando ela sobe, e por quem realmente choramos.
Reflexão
Onde, na sua vida concreta, o silêncio de Deus tem sido lido por você como permissão?
O que significaria, esta semana, dar um passo para fora de Babilônia sem sair do mundo?
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Perguntas frequentes sobre Revelation 18
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, tudo o que brilha aqui pode acabar em uma hora. Ajuda-me a não colocar meu coração no que se desfaz, nas aparências que impressionam e passam. Ensina-me a valorizar o que permanece: tua presença, teu amor, a vida que vem de ti.
Pai, há em mim uma voz que insiste em dizer que estou seguro, que nada vai me abalar, que não preciso de ninguém. Desfaz esse trono pequeno que construí no meu coração. Ensina-me a viver de mãos abertas, dependente de ti e perto dos que choram.
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