Atos 25:19
O Texto
Festo, governador recém-chegado, tenta explicar ao rei Agripa por que tem um prisioneiro nas mãos e nenhuma acusação decente para escrever no relatório. Ele esperava sedição, fraude, talvez violência. O que encontrou foi outra coisa: "Tinham, porém, contra elle algumas questões ácerca da sua superstição, e de um certo Jesus, defunto, que Paulo affirmava viver." Toda a fúria que quer Paulo morto, todas as "muitas e graves accusações, que não podiam provar", reduzem-se, aos olhos de um funcionário romano cansado, a uma disputa religiosa sobre um homem morto que um prisioneiro teimoso insiste estar vivo. Festo não sabe que acabou de resumir o cristianismo inteiro numa frase de despacho administrativo, e que a frase está correta.
O Núcleo
Repare no que Festo faz com a ressurreição: não a nega, classifica-a. Chama-lhe "superstição", arruma-a na gaveta das excentricidades judaicas, e segue para o problema real, que é o que escrever a César. É exatamente assim que a fé cristã continua a ser neutralizada, não por argumento, mas por arquivamento. Só que a afirmação de Paulo não é opinião religiosa, é notícia sobre um cadáver. Ou aquele homem está morto, e Paulo é um fanático que perdeu a liberdade por nada, ou está vivo, e então nenhuma carreira, nenhuma agenda, nenhum tribunal fica onde estava. O evangelho não pede um lugar respeitoso entre as suas convicções. Pede que reorganize a vida em torno de um fato que Festo achou irrelevante demais para mencionar por extenso.
O Fio Condutor
A história inteira da Bíblia estreita-se aqui até um ponto quase invisível: um nome próprio numa ata romana. Deus tinha prometido a Abraão uma bênção para todas as famílias da terra, tinha falado por profetas de um servo ferido que veria a luz, e agora tudo isso está em suspenso sobre a questão de saber se "um certo Jesus, defunto" respira ou não. Note a expressão "um certo": para Festo, é um desconhecido qualquer. Para o leitor de Lucas, é o cumprimento de séculos. E é assim que o reino avança em Atos, não por conquista visível, mas por um prisioneiro algemado que teima em afirmar uma coisa e por isso mesmo é levado, degrau a degrau, até Roma. A promessa viaja em cadeias.
O Espelho
A pergunta que este versículo lhe faz não é se você acredita na ressurreição. É se alguém à sua volta já teve de reparar nisso. Festo não conseguiu descrever Paulo sem mencionar Jesus; a convicção do prisioneiro tinha invadido o relatório oficial do governador. Se o seu chefe tivesse de resumir você numa frase, o que escreveria? Provavelmente algo sobre competência, simpatia, pontualidade. Coisas boas, e nenhuma delas custa nada. Nós aprendemos a manter a fé no lugar onde Festo a arrumou: privada, respeitável, sem consequências para o orçamento familiar, para o modo como falamos de colegas ausentes, para a agenda de sábado. Uma fé que ninguém precisa de mencionar é uma fé que ninguém teve de encarar. E a de Paulo custou-lhe dois anos de cela e ainda vai custar mais.
Hoje, escolha uma pessoa que sabe que você é cristão mas nunca ouviu de si por quê. Envie-lhe uma mensagem curta com uma só frase: o que a ressurreição de Jesus muda concretamente na sua vida. Sem sermão, sem convite, apenas a frase.
A Personagem Principal
Festo é um homem competente e vazio, e é por isso que fascina. Faz bem o seu trabalho: recusa entregar um homem sem julgamento, cita corretamente o costume romano, resiste à pressão do sumo sacerdote, reconhece que "nenhuma coisa digna de morte fizera". Tem instintos decentes. Mas confessa também que ficou "perplexo ácerca da inquirição d'esta causa" e a sua saída para a perplexidade é administrativa: mandar o problema para cima, para César. Perante a maior notícia já anunciada, o seu único interesse é "ter alguma coisa que escrever". Há mais Festos nos bancos das igrejas do que gostaríamos: pessoas honestas, corretas, que ouviram a mensagem, acharam-na estranha, e passaram-na adiante sem nunca a deixarem tocar-lhes o centro.
O Detalhe
A palavra é "defunto". Festo não hesita nesse ponto; a morte de Jesus é o único dado sólido do processo, verificável, romano, resolvido. Foram soldados dele que pregaram os cravos. O problema é o verbo seguinte: Paulo "affirmava viver". Todo o cristianismo cabe nesta tensão entre um particípio e um infinitivo, entre um facto certificado pelo império e uma afirmação de um prisioneiro sem testemunhas oficiais. Repare que Lucas não coloca a defesa da ressurreição na boca de Paulo aqui, mas na boca de um pagão desinteressado que a repete sem lhe dar crédito. Até quem despreza a notícia acaba por transmiti-la. A verdade não depende do entusiasmo de quem a pronuncia.
A Pergunta
Por que é que Deus deixa a coisa mais importante do universo depender da palavra de um prisioneiro? Se a ressurreição é real, por que não uma demonstração que dispensasse a discussão, algo que Festo não pudesse arquivar como "superstição"? A resposta não é confortável: Deus parece preferir testemunhas a provas. Jesus apareceu aos seus, não a Pilatos. Foi confiado a homens algemados aquilo que podia ter sido escrito no céu. Isso deixa a fé permanentemente vulnerável ao encolher de ombros, e deixa-nos a nós, que gostaríamos de argumentos irrespondíveis, com a tarefa de sermos o argumento. Não sei explicar completamente por que Deus escolheu assim. Sei que continua a escolher assim, e que este texto existe porque alguém aceitou o preço disso.
Reflexão
Se alguém tivesse de descrever a sua vida num relatório de duas linhas, a ressurreição de Jesus apareceria lá, ou seria apenas presumida?
Onde é que você tem feito o que Festo fez: reconhecer a questão como real, achá-la perturbadora, e depois passá-la adiante em vez de decidir?
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Perguntas frequentes sobre Acts 25:19
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, quero ouvir de verdade, não só por curiosidade. Guarda meu coração de adiar para amanhã o que preciso escutar hoje. Que a tua voz não seja apenas assunto interessante, mas algo que me mude por dentro.
Dois anos preso, e a resposta de Paulo continua a mesma: "Em nada tenho pecado contra a lei dos judeus, nem contra o templo, nem contra César." Sem gritos, sem revanche. As acusações eram muitas e barulhentas, mas ninguém conseguia prová-las. Você também pode ser mal interpretado por muito tempo. A consciência limpa diante de Deus sustenta quem já perdeu a chance de se explicar.
Pai, há coisas na minha vida que outros decidem por mim, prazos que não escolhi, esperas que se arrastam. Ajuda-me a confiar que nenhum adiamento escapa ao teu cuidado. Enquanto aguardo, guarda meu coração sereno e desperto.
Pai, quando vozes se levantam para me acusar e pedem minha condenação, ajuda-me a não responder com medo nem com amargura. Tu conheces a verdade do meu coração. Guarda-me sereno enquanto espero em ti, que julgas com justiça.
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