Eclesiastes 6
O Texto
Qohelet descreve uma doença que viu debaixo do sol: um homem recebe de Deus riqueza, bens e honra, nada falta ao seu desejo, e no entanto não lhe é dado poder para desfrutar; um estranho come o que ele juntou. Daí a conclusão mais dura do livro: quem vive cem filhos e longos anos sem se fartar do bem, e no fim nem sepultura tem, está pior do que um aborto, que nunca viu o sol mas tem mais descanso. O capítulo fecha com duas perguntas sem resposta: quem sabe o que é bom nesta vida, e quem declarará ao homem o que vem depois dele?
O Núcleo
O texto não ataca a riqueza. Ataca a distância entre possuir e poder gozar. Note quem dá e quem retém: "Deus deu riquezas, fazenda e honra" e "Deus não lhe dá poder para d'ahi comer". O mesmo sujeito nas duas frases. A capacidade de desfrutar não é um músculo que se treina nem um direito que se compra; é dom. Isso desmonta a lógica religiosa que troca obediência por satisfação garantida. Qohelet não diz que Deus é cruel; diz que Deus é livre, e que o ser humano, por mais abastecido, continua com a alma que "nunca se enche". Todo o trabalho vai para a boca, e a boca não fecha. É um diagnóstico de fome espiritual, não de má administração financeira.
O Fio Condutor
O capítulo termina com uma pergunta que nenhum sábio de Israel conseguiu responder: "quem declarará ao homem que é o que passará depois d'elle debaixo do sol". Qohelet está de pé na fronteira do que a sabedoria humana alcança, batendo numa porta trancada. E é exatamente ali que o Evangelho entra, não como complemento piedoso, mas como resposta à pergunta que o próprio Antigo Testamento deixou aberta. João dirá que ninguém jamais viu Deus, e que o Filho, que está no seio do Pai, foi quem o deu a conhecer. Cristo é aquele que vem do outro lado da cortina e declara. Mais: ele é o único que "pôde contender com o que é mais forte do que elle" (v. 10), porque desceu até as trevas onde o nome do homem se encobre, e voltou de lá com nome.
O Espelho
Você já sentiu isto: a promoção chegou, a casa ficou pronta, os filhos estão bem, e por dentro há um vazio que não combina com nada disso. Esse é o mal de Eclesiastes 6. Não é ingratidão nem depressão clínica necessariamente; é a descoberta de que a satisfação não vem automaticamente acoplada à conquista. E há a outra ponta, igualmente exposta: o medo de que um estranho coma o que você juntou, o filho que desperdiça, o divórcio que divide, a empresa que quebra. Qohelet não oferece técnica de controle. Oferece o versículo 9: melhor a vista dos olhos, o que está diante de você agora, do que o vaguear do desejo. Hoje, antes de dormir, escreva numa folha três coisas concretas que você já tem nas mãos e que ainda não agradeceu, e agradeça em voz alta por elas, uma por uma.
O Perfil
Os primeiros leitores viviam numa cultura onde muitos filhos, vida longa e sepultura honrada na terra dos pais eram a definição prática de bênção divina. Era a tríade da vida bem-sucedida. Qohelet toma as três, empilha-as num só homem, e diz que sem a fartura da alma isso vale menos que um nascimento interrompido. Para quem ouvia, aquilo soava quase blasfemo. Era desmontar a aritmética da retribuição que sustentava a autoestima religiosa de Israel. E era também a honestidade de alguém que viu a história do seu povo: o exílio, a terra perdida, os estrangeiros comendo a colheita. A frase "antes o estranho lh'o come" não é hipótese abstrata; é memória nacional.
O Detalhe
"Melhor é a vista dos olhos do que o vaguear da cubiça." A palavra hebraica por trás de "vaidade" em todo o livro é hevel, vapor, sopro, aquele bafo que se vê no frio e desaparece. Aqui Qohelet aplica o vapor ao próprio desejo: a cobiça é uma alma que anda, que vagueia, nunca chega. A alternativa não é o desejo zero dos estoicos, mas o olho que se detém no que está presente. É uma espiritualidade do pão de hoje, não do pão imaginado. E mesmo essa escolha sensata ele chama de hevel, porque até a melhor sabedoria sob o sol é frágil. Ela só se firma quando alguém de fora do sol nos dá o pão.
O Intertexto
Jesus conta a parábola do homem rico que constrói celeiros e ouve, na mesma noite, que sua alma lhe será pedida e que outros ficarão com as coisas (Lucas 12). É Eclesiastes 6 encenado, com um acréscimo decisivo: Jesus nomeia o problema como falta de riqueza para com Deus. E Jó, no capítulo 3, amaldiçoa o dia em que nasceu, com as mesmas imagens de trevas e de não ter visto o sol. A Escritura, portanto, não censura esse lamento; dá-lhe espaço, e depois o atravessa com a ressurreição.
Reflexão
O que, concretamente, você está esperando ter antes de se permitir estar satisfeito?
Se Cristo é aquele que declara o que vem depois, em que decisão da sua semana isso deveria mudar algo?
Livros cristãos que valem a pena
Livros escolhidos a dedo, disponíveis no seu idioma.
À espera do Natal: 25 leituras de Advento, de 1 a 25 de dezembro, guiadas pelo livro de Lucas. Davi, Zacarias, Maria e José, uma pessoa de hoje por...
Uma defesa clara e acessível das verdades centrais da fé cristã que fortalece a mente e o coração.
Uma alegoria atemporal da jornada cristã que inspira perseverança diante das provações da vida.
Um testemunho profundamente pessoal da graça de Deus que ensina a buscar descanso somente em Cristo.
Um chamado corajoso a seguir Jesus com fidelidade, custe o que custar.
Um convite ardente a cultivar intimidade com Deus e sede pela Sua presença.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre Ecclesiastes 6
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa Eclesiastes 6?
Sobre o que fala Eclesiastes 6?
Qual é o contexto histórico de Eclesiastes 6?
O que Eclesiastes 6 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Eclesiastes 6 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Ecclesiastes 6
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Todo trabalho do homem é para a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu apetite." Você almoça e, horas depois, tem fome de novo. É assim com quase tudo: o salário, a conquista, o elogio. Enchem a boca, não a alma. Talvez a inquietação que você sente não seja falha sua. Talvez seja um convite.
Obrigado, Senhor, porque o que eu não sei o Senhor sabe: o que é bom para mim nestes poucos dias que passam como sombra. Obrigado pelo pão de hoje, pelo trabalho desta manhã, pelo rosto de quem amo. O amanhã ninguém me pode declarar, mas ele está nas tuas mãos.
Salomão fala de um homem com riqueza, filhos e anos longos, mas que não desfrutou nada. E diz do menino que nasceu morto: "e, que nunca viu o sol nem o conheceu, mais descanso tem do que o outro." É duro de ouvir. Mas pergunta algo simples: de que serve viver muito, se você nunca chega a viver? Hoje, você provou alguma coisa boa da mão de Deus, ou só somou?
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo

