Esdras 3:11
O Texto
Lançados os alicerces, os sacerdotes com trombetas e os levitas com instrumentos tomam posição, e o canto começa a ir e vir entre dois coros: "louvando e celebrando ao Senhor; porque é bom; porque a sua benignidade dura para sempre sobre Israel". Não é um hino novo, composto para a ocasião; é a antiga confissão de Israel, cantada agora sobre pedras recém-assentadas de um templo que ainda não tem paredes. E o povo responde com um grito, "com grande jubilo", não pela casa acabada, mas "pela fundação da casa do Senhor". Um começo, apenas um começo, e já se canta como se a obra estivesse pronta.
O Coração
A palavra hebraica traduzida aqui por "benignidade" é ḥesed: a lealdade obstinada de Deus ao seu compromisso, o amor que não recua quando o parceiro do pacto falha. E é justamente esse termo que ressoa nas ruínas de Jerusalém. Aquele povo tinha provado o juízo até o fundo: cidade queimada, templo desmontado, setenta anos de exílio. O canto não nega nada disso. Diz algo mais difícil e mais firme: o juízo não cancelou a aliança. Deus continuou bom enquanto Israel estava na Babilônia, e continua bom agora que resta pouco mais do que um alicerce. Aqui se vê o coração da graça bíblica: ela não é a recompensa de um recomeço bem-sucedido, é o solo sobre o qual qualquer recomeço se torna possível.
O Fio Condutor
Note a ordem dos acontecimentos neste capítulo: primeiro o altar, depois o alicerce. Antes de haver um edifício, houve sangue e fogo, "holocaustos de manhã e de tarde", porque um povo que voltou do juízo não pode simplesmente retomar a vida religiosa como se nada tivesse acontecido. Precisa de expiação. E é essa sequência que atravessa toda a Escritura até o Novo Testamento: a comunhão com Deus nunca começa pela construção humana, mas pelo sacrifício que Deus mesmo providencia. O templo de Zorobabel foi um estágio intermediário, nunca o destino. Aquele alicerce apontava para além de si mesmo, para o Filho em quem Deus finalmente habitou entre os homens, e para a comunidade que Paulo chamaria de templo edificado sobre um único fundamento. O canto dos levitas estava certo por razões que eles ainda não conheciam.
O Espelho
Você provavelmente conhece a tentação de esperar o fim para se alegrar. O casamento que está sendo remendado depois de anos de silêncio, e você ainda não ousa dizer que vai dar certo. O filho que voltou a atender o telefone, mas só isso. A dívida que diminuiu um pouco. A recuperação que tem três semanas e nenhuma garantia. Tudo em você diz: espere, não celebre um alicerce, você já se decepcionou antes. Este versículo contraria esse instinto, e não por otimismo. Contraria porque a razão do canto não é o progresso da obra, é o caráter de Deus. Eles cantam "porque é bom", não porque as paredes estão de pé. Hoje, escreva num papel a coisa inacabada que mais te consome, e diga em voz alta sobre ela, uma vez, devagar: a sua benignidade dura para sempre.
O Detalhe
Há três palavras aqui que não pertencem ao refrão tradicional: "sobre Israel". O antigo estribilho litúrgico afirmava simplesmente que a benignidade do Senhor dura para sempre, uma verdade universal, cantada nas festas por gerações. Em Jerusalém, sobre aquele alicerce, alguém acrescenta o endereço. Não é apenas verdade em geral, é verdade sobre nós, sobre este resto encolhido de povo que voltou com autorização persa e medo dos vizinhos. Fé é exatamente isso: pegar a confissão grande e colocá-la em cima da sua situação pequena e humilhante. Deus é bom, sim, mas os que cantam ali querem dizer que essa bondade tem um destinatário concreto, com nome, com endereço, com escombros ao redor. Sem esse "sobre", o louvor vira apenas teoria educada.
O Intertexto
O refrão vem do Salmo 136, onde a mesma frase se repete vinte e seis vezes, ligada sempre a fatos: a criação do mundo, a saída do Egito, o pão no deserto. Em Israel, a bondade de Deus nunca foi um sentimento; era uma lista de coisas acontecidas. Cantar isso sobre um alicerce significa acrescentar mais um item à lista: também isto, também o retorno da Babilônia, também esta pedra. O contraste vem depois, no versículo 12, onde os velhos que viram a primeira casa "choraram em altas vozes". Zacarias, profetizando nesses mesmos anos, perguntaria quem se atreve a desprezar o dia das coisas pequenas. As duas Escrituras juntas dizem: a memória do que se perdeu é legítima, mas não tem a última palavra sobre o que Deus está fazendo.
A Pergunta
Aquele templo cujo alicerce arrancou gritos de alegria seria profanado, saqueado, reconstruído por Herodes e finalmente reduzido a pó em 70 d.C. Então o júbilo estava enganado? A pergunta é séria, porque também nos toca: cantamos sobre coisas que não duram. A resposta honesta não é dizer que tudo estava bem no fundo. É reconhecer que a benignidade eterna de Deus não é uma promessa de permanência para as nossas pedras. O que dura para sempre é ele, não o edifício. Os que cantaram ali receberam algo real, presença e perdão em seu tempo, e ao mesmo tempo cantaram melhor do que sabiam, sobre uma fidelidade que sobreviveria à ruína daquele próprio templo. Isso não é consolo barato. É o consolo de que a última palavra não está com aquilo que se pode demolir.
Reflexão
Qual "alicerce" na sua vida você tem se recusado a celebrar, porque ainda não tem paredes?
Se você tivesse que acrescentar hoje um item concreto à lista do Salmo 136, algo acontecido, verificável, seu, o que escreveria?
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Perguntas frequentes sobre Ezra 3:11
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O que a comunidade compartilha sobre Ezra 3
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, mesmo com medo do que está ao redor, quero começar pelo altar. Ajuda-me a te buscar de manhã e de noite, não porque tudo esteja seguro, mas porque tu és firme quando eu não sou. Coloca meus alicerces no lugar certo.
Pai, obrigado por não me chamares a trabalhar sozinho. Ensina-me a ficar lado a lado com outros, com as mãos na mesma obra, sem disputa de lugar. Que a nossa união seja parte do que se levanta para a tua honra.
Obrigado, Senhor, por restaurares o culto do teu povo mesmo antes de o templo estar de pé. Grato pelo holocausto contínuo, que me lembra que posso te buscar cada manhã, e pela alegria de trazer oferta voluntária, com o coração livre e disposto.
Obrigado porque, mesmo antes de estarem postos os fundamentos do templo, o povo já podia oferecer holocaustos ao Senhor. Assim me recebes: com a vida ainda em obras, sem tudo pronto nem resolvido. Não esperas o acabamento para aceitar meu louvor no altar.
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