Gênesis 15
O Texto
Depois de uma vitória militar, a palavra do Senhor chega a Abrão numa visão e lhe diz que não tema: Deus mesmo é o seu escudo e o seu grandíssimo galardão. Abrão responde com uma queixa nua, porque continua sem filhos, e Deus o leva para fora, sob as estrelas, e promete descendência incontável. Abrão crê, e isso lhe é imputado por justiça. Depois vem o pedido de um sinal, os animais partidos ao meio, o sono profundo, o terror, o anúncio dos quatrocentos anos de servidão, e finalmente um forno de fumo e uma tocha de fogo passando entre os pedaços na escuridão.
O Cerne
Repare em quem caminha entre as metades dos animais. No mundo de Abrão, quem cortava uma aliança passava entre os pedaços dizendo, sem palavras: que eu seja como estes bichos se eu quebrar minha parte. Abrão não passa. Abrão dorme. Sobre ele cai "grande espanto e grande escuridão", e é Deus, em fogo e fumaça, que atravessa sozinho o corredor de sangue. O verbo hebraico para fazer aliança é literalmente cortar, karat, e aqui o corte é unilateral. Deus se obriga e não obriga Abrão a nada. É por isso que o versículo 6 não diz que Abrão mereceu; diz que creu, e que isso lhe foi imputado. A justiça chega de fora, como dom.
O Fio Condutor
Há uma linha que sai destas metades ensanguentadas e não para mais. Deus jura por si mesmo, comprometendo a própria vida com a promessa, e a história seguinte é a história de Deus pagando o preço desse juramento. As estrelas contadas por Abrão apontam para um povo; o forno de fumo aponta para a fornalha do Egito de onde esse povo sairá "com grande fazenda", exatamente como foi dito. E o corredor escuro entre os pedaços, onde só Deus caminha, encontra seu eco final numa outra escuridão, num outro meio-dia que virou noite, quando o Filho atravessa sozinho aquilo que nós jamais poderíamos atravessar. Não é alegoria forçada: é o mesmo Deus mantendo o mesmo juramento.
O Espelho
Abrão acaba de ouvir "não temas" e responde perguntando o que Deus tem para lhe dar, já que anda sem filhos. É uma resposta quase indelicada, e a Escritura não a censura. Talvez você conheça esse lugar: o consolo religioso chega correto e certo, mas escorrega pela superfície do que dói de verdade, o exame que não veio, o casamento que não engravidou, o filho que não volta, a conta que não fecha. Abrão não finge gratidão. Ele diz o nome exato da sua ferida diante de Deus, e Deus não se ofende; leva-o para fora e lhe mostra o céu. Há uma fé que só nasce depois que a queixa é dita em voz alta.
Contexto
Abrão é um homem sem terra e sem herdeiro num mundo em que essas duas coisas eram a única forma de existir depois da morte. Sem filho, o patrimônio iria para um servo da casa, o damasceno Eliézer, prática atestada nos contratos daquela região. Ele vive como estrangeiro entre cidades cananeias, dependente da boa vontade alheia, e acaba de se envolver numa guerra entre reis. Quando pede um sinal, "como saberei que hei de herdá-la?", não é ceticismo moderno; é o pedido de um documento, de garantia jurídica. Deus responde com o procedimento legal mais solene que existia. E responde também com uma paciência desconcertante: os amorreus ainda terão gerações, "porque a medida da injustiça dos Amoreos não está ainda cheia".
A Pergunta
Por que a promessa vem embrulhada em quatrocentos anos de escravidão? Deus poderia ter dito apenas: teus descendentes herdarão a terra. Em vez disso, informa antecipadamente que serão peregrinos, servos e afligidos por quatro séculos, e Abrão recebe essa notícia no meio de um terror que o texto não explica. Não há aqui nenhuma promessa de que a fé abrevia o sofrimento. Deus não justifica a demora; ele apenas a nomeia e diz que estará no fim dela julgando os opressores. Fica a pergunta sem fundo: um Deus que vê quatrocentos anos de gemido antes que aconteçam e mesmo assim os inclui no caminho da bênção. Não sei resolver isso. Sei que Abrão dormiu.
Ecos na Escritura
Paulo volta a Gênesis 15:6 em Romanos 4 e faz dele a pedra angular do evangelho: Abrão foi declarado justo antes da circuncisão, antes da lei, antes de qualquer obra, apenas por confiar numa promessa que ainda não via. O outro eco é sombrio. Em Jeremias 34, o povo de Jerusalém corta um bezerro ao meio e passa entre as partes, jurando libertar seus escravos, e depois volta atrás; Deus os entrega à maldição que eles mesmos invocaram. O contraste ilumina Gênesis 15: nós somos o povo que quebra alianças, e o único que passou entre os pedaços sem falhar foi aquele que não precisava passar.
Reflexão
Qual é a queixa que você ainda não disse em voz alta diante de Deus, e o que a mantém trancada?
Se a justiça de Abrão veio de crer e não de conseguir, o que muda no modo como você mede o seu próprio valor diante de Deus esta semana?
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Perguntas frequentes sobre Genesis 15
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