Explicação bíblica

Isaías 31

Bíblia
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O Texto

Duas imagens que não combinam ficam lado a lado neste capítulo, e o texto não se desculpa por isso. Primeiro o leão que ruge sobre a presa e não se assusta com a gritaria dos pastores; depois os pássaros que sobrevoam o ninho, "assim o Senhor dos Exercitos amparará a Jerusalem". O capítulo começa com um lamento: ai dos que descem ao Egito em busca de socorro, confiando em cavalos e carros e cavaleiros, mas sem olhar para o Santo de Israel. Segue a razão, curta e desarmante: os egípcios são homens, não Deus. Depois vem o chamado, "Convertei-vos", a promessa de que os ídolos serão jogados fora, e o anúncio de que a Assíria cairá por uma espada que não é de homem.

O Centro

O verso 3 é o eixo de tudo, e é preciso demorar-se nele: "os egypcios são homens, e não Deus; e os seus cavallos carne, e não espirito". Não é uma condenação moral do Egito. É uma constatação sobre a natureza das coisas. Carne é aquilo que respira e depois deixa de respirar. Espírito, ruach em hebraico, é o sopro que vem de fora de nós e sustenta o que existe. A acusação contra Judá não é ter negociado com o poder errado, mas ter confundido categorias: ter buscado no que é finito a segurança que só o infinito pode dar. E note a ironia amarga do verso: "cairá o ajudado" junto com o auxiliador. Quem se apoia no que é carne cai com ele.

O Fio Condutor

O verso 8 diz algo que não se explica: a Assíria cairá "pela espada, não de varão". A libertação acontece, mas sem que ninguém possa apontar o braço que a realizou. Esse padrão atravessa a Escritura. O Mar Vermelho se abre sem exército. O menino que vai enfrentar Golias recusa a armadura. E no fim, a vitória decisiva acontece num homem desarmado, pregado numa cruz, onde não há cavalo nem carro nem aliança política, apenas alguém entregue. Paulo dirá que Deus escolheu o que é fraco para envergonhar o forte. Isaías já está nesse terreno. Há uma lógica em Deus que não podemos instrumentalizar, e é precisamente por não podermos instrumentalizá-la que ela nos salva.

O Espelho

Descer ao Egito raramente parece infidelidade. Parece prudência. Parece o plano de saúde, a reserva de emergência, a conversa estratégica com a pessoa influente da igreja, o segundo emprego que garante que nada dê errado. Nada disso é errado em si; os cavalos do Egito eram cavalos de verdade, e bons. A pergunta que o texto faz é outra, mais silenciosa: onde está a sua paz quando esses apoios são retirados? Existe algo na sua vida que, se cair, levará você com ele? "Cairá o ajudado." Vale ficar sentado com essa frase sem pressa de resolvê-la. Hoje, escreva num papel o nome daquilo em que você realmente confia quando fica com medo à noite, diga em voz alta "isto é carne, e não espírito", e guarde o papel onde só você o veja.

Contexto

Estamos no fim do século VIII antes de Cristo, e a Assíria é o pesadelo do Oriente Próximo: deportações em massa, cidades empaladas em relevos de pedra, tributos esmagadores. O reino do norte já caiu. Judá, pequeno e encurralado, tem uma saída que qualquer conselheiro sensato recomendaria: aliar-se ao Egito, a outra grande potência, e comprar sua cavalaria. Cavalos e carros eram a tecnologia militar decisiva da época, e Judá, país de montanhas, nunca os teve em quantidade. "Descer ao Egito" é geografia literal, do planalto para o delta, mas também é memória: é voltar ao lugar da escravidão para pedir proteção. Isaías fala na corte, contra a política oficial, e sabe exatamente quem se ofenderá.

O Perfil

Quem ouviu isso primeiro não eram devotos buscando inspiração, mas pessoas com medo real de um exército real. Para eles, a palavra "ai" era uma fórmula de luto, o grito que se dava diante de um caixão. Isaías está fazendo o velório de uma estratégia que ainda não fracassou. E quando ele diz que Deus "tambem elle é sabio", há um sarcasmo que nos escapa: os conselheiros de Jerusalém se orgulhavam de sua sabedoria política, e o profeta responde que Deus também tem alguma sabedoria, obrigado. O mais estranho para eles seria o verso 9: o fogo e a fornalha de Deus estão em Sião. O lugar da proteção é também o lugar do fogo. Não se pode ter um sem o outro.

O Protagonista

Deus aparece aqui em dois corpos que não deveriam caber na mesma página. É o leão que não se abaixa pela multidão, absolutamente indiferente ao ruído dos pastores, e é a ave que paira sobre o ninho, "e, amparando, a livrará, e, passando, a salvará". Predador e mãe. Poder que não negocia e ternura que cobre. Talvez seja essa a única maneira de dizer a verdade sobre ele: se fosse apenas o leão, seríamos presas; se fosse apenas a ave, seríamos órfãos de um amor sem força. O texto não harmoniza as imagens, e nós também não deveríamos. Ficamos entre as duas, que é exatamente onde a fé mora.

Reflexão

Onde, nas suas decisões mais sensatas dos últimos meses, houve uma "descida ao Egito" que você não chamaria assim?

O fogo de Deus está em Sião, no mesmo lugar onde ele protege. O que isso muda na sua maneira de pedir a proteção dele?

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Perguntas frequentes sobre Isaiah 31

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Isaías 31?
Duas imagens que não combinam ficam lado a lado neste capítulo, e o texto não se desculpa por isso. Primeiro o leão que ruge sobre a presa e não se assusta com a gritaria dos pastores; depois os pássaros que sobrevoam o ninho, "assim o Senhor dos Exercitos amparará a Jerusalem".
Sobre o que fala Isaías 31?
O verso 8 diz algo que não se explica: a Assíria cairá "pela espada, não de varão". A libertação acontece, mas sem que ninguém possa apontar o braço que a realizou. Esse padrão atravessa a Escritura. O Mar Vermelho se abre sem exército. O menino que vai enfrentar Golias recusa a armadura.
Qual é o contexto histórico de Isaías 31?
Estamos no fim do século VIII antes de Cristo, e a Assíria é o pesadelo do Oriente Próximo: deportações em massa, cidades empaladas em relevos de pedra, tributos esmagadores. O reino do norte já caiu. Judá, pequeno e encurralado, tem uma saída que qualquer conselheiro sensato recomendaria: aliar-se ao Egito, a outra grande potência, e comprar sua cavalaria.
O que Isaías 31 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Deus aparece aqui em dois corpos que não deveriam caber na mesma página. É o leão que não se abaixa pela multidão, absolutamente indiferente ao ruído dos pastores, e é a ave que paira sobre o ninho, "e, amparando, a livrará, e, passando, a salvará". Predador e mãe. Poder que não negocia e ternura que cobre.
Como Isaías 31 continua relevante hoje?
O fogo de Deus está em Sião, no mesmo lugar onde ele protege. O que isso muda na sua maneira de pedir a proteção dele?
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Reflexão Editorial em versículo 4

Judá corria ao Egito por cavalos e carros, e Deus responde com a imagem de um leão sobre a presa: "não se espantam das suas vozes, nem se intimidam pela sua multidão." O barulho dos pastores não move o leão. Nem o barulho das tuas ameaças move Aquele que desce para pelejar por ti. Por que ainda buscas socorro menor?

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