Isaías 33
O Texto
Começa com um grito contra o devastador que nunca foi devastado, aquele que trai sem ter sido traído, e o aviso de que a conta chegará. No meio do cerco alguém ora: "Senhor, tem misericordia de nós, por ti temos esperado". Depois vem a descrição da terra arruinada, estradas vazias, embaixadores chorando, e então a virada: Deus se levanta. Aí surge a pergunta que organiza todo o capítulo, feita pelos próprios moradores de Sião: quem pode morar com o fogo consumidor? A resposta não é religiosa, é ética. E o capítulo termina com o Rei visto na sua formosura e uma cidade cujas cordas nunca se rompem.
O Coração
Preste atenção em quem trema no verso 14. Não são os assírios. São "os peccadores de Sião". O inimigo à porta não os assustou tanto quanto Deus se levantando. É isso que o capítulo faz com a gente: descobre que a mesma direção de onde vem a salvação é a direção de onde vem o fogo. Deus não é uma opção segura porque está do nosso lado; ele é santo, e proximidade com o santo queima o que não presta. E a resposta à pergunta terrível é surpreendentemente terrena: mãos, ouvidos, olhos. Quem recusa lucro de opressão mora nas alturas, o mesmo lugar onde o verso 5 diz que Deus habita. A salvação aqui não dispensa a justiça; ela a produz.
O Fio Condutor
Leia a lista do verso 15 com honestidade e ela deixa de ser consolo e se torna acusação. Quem de nós fechou completamente os olhos para o mal, sacudiu das mãos todo o presente? Isaías descreve um homem que ninguém encontrou em Jerusalém. A promessa fica pendurada no ar, esperando alguém que a cumpra. O Novo Testamento aponta para esse alguém, e não por acaso Hebreus retoma exatamente esta imagem, o Deus que é fogo consumidor, imediatamente depois de falar de um Reino que não pode ser sacudido. E olhe o verso 22: Juiz, Legislador, Rei, três funções concentradas numa só pessoa, seguidas de "elle nos salvará". O Juiz é o Salvador. Isso só faz sentido no Calvário.
O Espelho
O verso 18 é o mais desconfortável do capítulo, e é sobre você. "Onde o escrivão, onde o pagador? onde o que conta as torres?" Um dia você olhará para trás e rirá de tudo que passava as noites contando. Só que hoje você ainda conta. O saldo que confere três vezes por semana. O resultado do exame. O número de pessoas que confirmaram presença. As torres da sua defesa, cuidadosamente inventariadas.
E o verso 15 mexe nas mãos: "o que sacode das suas mãos todo o presente". Aquela comissão que ninguém vai auditar. O silêncio conveniente numa reunião. E os ouvidos: você tapa os ouvidos para não ouvir acerca de sangue, ou consome a violência dos outros como entretenimento no fim do dia, rolando a tela?
O consolo do capítulo não está em você ficar tranquilo. Está em Deus se levantar. "Agora pois me levantarei, diz o Senhor."
Hoje: pegue um papel, escreva as três coisas que você conta quando quer se sentir seguro, e ao lado de cada uma escreva à mão as palavras do verso 22, "O Senhor é o nosso Juiz". Depois dobre o papel e guarde na carteira.
O Detalhe
O verso 23 fala de cordas: "As tuas cordas se affrouxaram: não poderam ter firme o seu mastro". É o navio do inimigo, cordame solto, mastro bambo, vela sem forma. Agora volte três versos: Sião é uma "tenda que não será derribada, cujas estacas nunca serão arrancadas, e de cujas cordas nenhuma se quebrará". A mesma palavra, dois destinos. O império navega com equipamento de guerra e afrouxa; o povo de Deus mora numa tenda, a coisa mais frágil que existe, e as cordas aguentam. E o detalhe dentro do detalhe: "até os côxos roubarão a preza". A vitória é entregue justamente a quem não consegue correr atrás dela.
O Protagonista
Deus aparece aqui primeiro como ausência. O capítulo inteiro depende de uma pergunta não dita: onde ele está enquanto as estradas se esvaziam e Basã e Carmelo são sacudidos? Ele espera. Depois fala, e a frase tem a força de alguém que se põe de pé numa sala em silêncio: "agora serei exaltado, agora serei posto em alto". Três vezes "agora". Não é vanidade; é o fim da impunidade do devastador. E há um traço terno no meio dessa altura, na oração do verso 2: "sê tu o seu braço nas madrugadas". O Deus que ninguém suporta de perto é o mesmo a quem se pede um braço de manhã cedo, quando a noite foi longa.
Contexto
Estamos provavelmente em 701 a.C., Judá sob Senaqueribe. Ezequias havia pagado tributo pesado e o acordo foi rompido de qualquer forma: "desfaz a alliança, despreza as cidades, e a homem nenhum estima". Os embaixadores que choram amargamente são diplomatas voltando de mãos vazias. As estradas desertas indicam ocupação militar. "O que conta as torres" é o funcionário assírio avaliando a cidade para cobrança, e "lingua tão estranha que não se pode entender" é o acadiano dos oficiais, o som do poder que você não controla. A palavra traduzida por "presente" no verso 15 é shochad, suborno, o óleo que fazia girar toda aquela máquina imperial. Recusá-lo era escolher ser pequeno.
Reflexão
O que você conta com mais frequência: as suas torres ou as misericórdias de Deus? E o que isso revela sobre onde você realmente busca segurança?
Se o verso 15 fosse lido em voz alta na sua casa hoje, qual das quatro frases faria você desviar o olhar?
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Ao ruído do tumulto, fogem os povos; à tua exaltação, dispersam-se as nações." Jerusalém estava cercada, contando soldados, medindo muros. E Isaías aponta para outro lugar: basta Deus levantar-se. Repare que o texto não diz que o povo lutou. Diz que Deus se exaltou. O que você está tentando vencer no braço hoje?
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