Salmos 17
O Texto
Um homem cercado pede audiência a Deus. Ele afirma que sua oração "não é feita com labios enganosos", relata que Deus o sondou de noite e nada encontrou, e pede proteção contra inimigos que o rodeiam como leões à espreita. No fim, depois de gritar por intervenção, sua voz muda de registro: não pede mais vitória, mas rosto. "Contemplarei a tua face na justiça; satisfazer-me-hei da tua similhança quando acordar." O salmo começa em tribunal e termina em vigília, à espera de um despertar.
O Coração
Há algo desconcertante no versículo 3. "Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me, e nada achaste." Ninguém em sã consciência diz isso a Deus. E, no entanto, o salmo não está reivindicando perfeição moral; está reivindicando integridade numa causa específica. Trata-se de um homem falsamente acusado que sabe que, neste caso concreto, não fez o que dizem. O que o texto revela sobre Deus é isto: ele é aquele que examina de noite, quando não há testemunhas, quando as defesas caem e o pensamento anda solto. E o orante não teme esse exame; ele o invoca como prova. A fé aqui não é a certeza de estar limpo, mas a coragem de deixar a luz entrar no quarto escuro.
O Fio Condutor
Duas imagens do salmo vêm de longe. "Guarda-me como á menina do olho, esconde-me debaixo da sombra das tuas azas" retoma o cântico de Moisés em Deuteronômio 32, onde Deus guarda Israel como a pupila do olho e o cobre como a águia cobre os filhotes. O orante, sozinho e sem aliados, se coloca dentro da história do povo: o que Deus fez com Israel no deserto, faça comigo agora. E o versículo final aponta para frente. "Satisfazer-me-hei da tua similhança quando acordar." Que despertar é este? O salmo não explica. Mas quando João escreve que seremos semelhantes a Cristo porque o veremos como ele é, ele está pisando neste chão. A esperança do salmo é maior do que o problema do salmo.
O Espelho
Você conhece esse cerco. Não com leões, mas com e-mails que reinterpretam o que você disse, com uma conversa de corredor que já decidiu quem você é, com um irmão que conta a versão dele primeiro. E a tentação mais forte não é a vingança; é a autodefesa incessante, a construção diária do dossiê da própria inocência. O salmo faz outra coisa. Ele entrega o caso: "Saia o meu juizo de diante do teu rosto." E depois pede algo que ninguém pede quando está furioso: direção. "Dirige os meus passos nos teus caminhos." Ser injustiçado não nos torna automaticamente retos. Hoje, antes de dormir, apague a luz, fique dois minutos em silêncio e diga em voz alta: "visitaste-me de noite; examinaste-me". Depois nomeie diante de Deus uma única coisa que você não quereria que ninguém visse. Sem explicar, sem desculpar.
Contexto
O salmo pertence ao mundo dos processos jurídicos antigos, onde não havia polícia nem perícia, e um homem sem clã forte estava entregue à palavra dos poderosos. Daí a linguagem de tribunal nos primeiros versículos: ouvir, atender, dar ouvidos, sair o juízo. Quando a justiça humana estava capturada, restava o santuário, restava apelar ao Juiz que não podia ser comprado. Os adversários descritos são gente bem instalada: "na sua gordura se encerram, com a bocca fallam soberbamente." São homens "cuja porção está n'esta vida", satisfeitos, com filhos, herança e sobras para distribuir. Não é o retrato do bandido marginal; é o retrato do respeitável que prospera. Isso torna o salmo mais incômodo, porque a maldade aqui usa terno.
O Personagem Principal
O orante é um homem tenso, e o salmo não esconde essa tensão. Ele passa de linguagem forense controlada para verbos crus: "Levanta-te, Senhor, detem-n'a, derriba-o." Sente-se caçado, descreve os olhos dos inimigos baixados para o chão como felinos que calculam o salto. E ainda assim há nele uma disciplina rara: ele já decidiu sobre a própria boca, "propuz que a minha bocca não transgredirá", e não retribui a soberba com soberba. Seu desejo mais fundo aparece só no fim, e é surpreendentemente pouco prático. Não pede reparação, nem que a verdade venha à luz publicamente. Pede rosto. Toda aquela agitação estava, no fundo, com fome de outra coisa.
A Pergunta
E se o exame de Deus encontrar algo? O salmo funciona porque o homem diz "nada achaste". Mas a maioria de nós, sondada de noite, tem coisas encontradas. A oração deste salmo pode então ser nossa? A resposta honesta é: nem sempre, e não do mesmo modo. Há momentos em que somos os injustiçados e podemos orar isto quase palavra por palavra. Há outros em que somos os "homens do mundo, cuja porção está n'esta vida", saciados e falando com soberba, e o salmo ora contra nós. O texto não nos permite escolher confortavelmente o papel. Talvez seja isso o que a visita noturna decide. E o salmo não nos diz o que Deus encontrou nas outras noites, aquelas que não entraram no poema.
Reflexão
Se Deus te visitasse esta noite e examinasse, sem acusação e sem lisonja, o que você preferiria que ele não olhasse?
O orante termina pedindo o rosto de Deus, e não a derrota dos inimigos. O que você realmente quer quando ora sob pressão?
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