Apocalipse 1:20
O Texto
A visão se fecha com uma chave de leitura. Antes que João comece a escrever as cartas, aquele que está no meio dos castiçais explica os dois objetos que mais chamaram a atenção na cena: "O mysterio das sete estrellas, que viste na minha dextra, e dos sete castiçaes de oiro." A explicação é curta e quase seca: as estrelas são os anjos das sete igrejas, os castiçais são as próprias igrejas. Nada de enigma prolongado, nada de decifração esotérica. O próprio Cristo traduz sua imagem, e a tradução muda tudo o que vem depois: quando João escrever a Éfeso ou a Laodicéia, estará escrevendo a uma luz acesa e a uma estrela segurada numa mão.
O Núcleo
Pense em como isso soava numa casa de Esmirna, à noite, com uma lamparina de barro sobre a mesa e quinze ou vinte pessoas apertadas num pátio. Eles eram invisíveis. Nenhum templo de mármore, nenhum sacerdócio reconhecido, nenhuma estátua, nenhum nome gravado em pedra. A cidade em volta tinha ruas iluminadas por procissões em honra do imperador; eles tinham uma chama frágil que qualquer corrente de ar apagava. E agora ouvem que aquela chama frágil é o que o Filho do homem vê quando olha para o mundo, e que a igreja deles não é um ajuntamento tolerado, mas um castiçal de ouro colocado deliberadamente diante de Deus. A teologia aqui é brutalmente simples: a realidade não é o que Roma mede. O que Cristo nomeia é o que existe de fato, e ele nomeia aquelas comunidades minúsculas como luz e como estrela na sua mão direita, a mão do poder e da posse.
O Fio Condutor
Um castiçal de ouro não é um objeto neutro para quem conhece as Escrituras. Era o candelabro do santuário, a única luz do lugar santo, alimentado com azeite puro e mantido aceso continuamente diante de Deus. Zacarias viu um desses candelabros numa visão noturna, em tempos de escombros e desânimo, e ouviu que a obra de Deus não avançaria por força nem por violência, mas pelo seu Espírito. Agora o candelabro se multiplicou por sete e saiu do templo: está em Pérgamo, em Sardes, em cidades de província. O lugar da presença mudou de endereço. E no meio dos castiçais não há mais um véu, mas alguém que fala, que segura, que já morreu e vive.
O Espelho
O que isso faz com a sua igreja de quarenta pessoas, com telhado que goteja e um grupo de jovens que encolhe todo ano? Existe uma tentação muito respeitável de medir a comunidade pelos instrumentos da cidade: números, influência, relevância cultural, se alguém importante nos leva a sério. Quando medimos assim, sempre perdemos, e a partir daí começamos a administrar a nossa própria insignificância em vez de servir. O texto não promete crescimento. Promete uma coisa mais estranha e mais dura: que aquela mão direita já está segurando o que você acha pequeno demais para sustentar, e que os olhos como chama de fogo estão olhando de perto. Hoje, escreva num papel o nome da sua congregação e, embaixo, a palavra "castiçal de ouro", e ore um minuto por ela com esse nome.
A Pergunta
E os anjos? O texto diz que as sete estrelas são "os anjos das sete egrejas", e não explica mais nada. Alguns leem mensageiros humanos, os portadores das cartas ou os líderes de cada comunidade, já que as cartas seguintes são dirigidas a eles no singular. Outros leem seres celestiais, cada igreja com sua contraparte no céu. A palavra grega serve para as duas coisas, e o livro não decide por nós. O incômodo permanece: como uma comunidade pode ter uma existência celeste tão ligada à sua existência terrena que repreender uma é repreender a outra? Prefiro não fechar o que Cristo deixou chamando de mistério. Fica de pé apenas isto, e já é muito: alguém responde diante dele por aquela luz.
O Detalhe
"Mysterio" não significa, aqui, charada. No vocabulário destas cartas, mistério é o segredo guardado por Deus que agora foi dito em voz alta. Ou seja: o significado das estrelas e dos castiçais não é algo que João deveria adivinhar com esforço, nem algo que leitores espertos decifram melhor que os simples. É revelação entregue de graça, no fim da visão, justamente para que ninguém fique preso ao espetáculo. Vale notar o que Cristo escolhe explicar. Não explica a espada de dois fios, nem os pés de latão, nem os cabelos brancos. Explica as igrejas. De toda aquela glória insuportável, o que ele faz questão de tornar compreensível é o lugar do seu povo dentro dela.
O Intertexto
Jesus já havia dito, na montanha, que seus discípulos eram a luz do mundo e que ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo do alqueire. Em Mateus isso soa como vocação e advertência: brilhem. Em Apocalipse soa como constatação e como perigo, porque o mesmo que segura as estrelas avisará, poucos versículos adiante, que pode remover um castiçal do seu lugar. A luz não é propriedade da igreja; é confiada a ela. E aqui está o contraste que o primeiro leitor sentiu na pele: a lâmpada que ele podia soprar e apagar com a boca era, ao mesmo tempo, a única coisa naquela cidade inteira que Roma não tinha poder de apagar de verdade, porque quem a segurava tinha "as chaves da morte e do inferno".
Reflexão
Se alguém olhasse para a sua comunidade com os olhos do capítulo 1, o que veria brilhando ali que você deixou de notar por estar perto demais?
O que você tem medido como sucesso ou fracasso espiritual nos últimos meses, e que medida Cristo usa quando chama sua igreja de castiçal de ouro?
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O que a comunidade compartilha sobre Revelation 1
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque João Te viu "no meio dos candeeiros": Tu andas entre as igrejas, também na minha, no domingo comum, nas cadeiras meio vazias. Com a cinta de ouro ao peito, és o Sacerdote que não se afasta de nós.
João já tinha se recostado no peito de Jesus. Conhecia aquele rosto. Mesmo assim, "caí a seus pés como morto". E o que o levanta não é uma explicação, é um toque: "pondo sobre mim a mão direita, disse: Não temas." A glória que te derruba é a mesma mão que te sustenta. Você já sentiu essa mão?
Pai, obrigado por Jesus, a testemunha fiel, que venceu a morte e reina sobre tudo. Quando o medo aperta, me lembra de que sou amado e que fui libertado a um preço alto. Que eu viva hoje como quem já foi resgatado.
Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno." João ouve isso exilado numa ilha, longe de tudo. Repare: Jesus não desviou da morte, entrou nela e saiu com as chaves na mão. O que te apavora não guarda mais a própria porta. Quem guarda é Ele.
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