Habacuque 1
Explicação e história bíblica para adolescentes (12 anos ou mais)
A Explicação
O livro começa com uma palavra estranha: "A carga que viu o propheta Habacuc." Carga. Não "a bela mensagem", não "a visão inspiradora". Um peso. Algo que Habacuque carregou nos ombros como se carregasse pedras.
E a primeira coisa que ele diz a Deus não é louvor. É uma reclamação: "Até quando, Senhor, clamarei eu, e tu não me escutarás? até quando gritarei a ti: Violencia! e não salvarás?" Isto está na Bíblia. Um profeta acusando Deus de silêncio, de demora, quase de indiferença. Ninguém apagou a frase. Deus deixou-a ficar.
Habacuque vive em Judá, provavelmente pouco antes do exílio babilónico, por volta do ano 600 antes de Cristo. E o que ele vê à sua volta destrói-o por dentro. Iniquidade, destruição, violência, gente que vive de criar conflito. Pior ainda: o sistema legal deixou de funcionar. "Por esta causa a lei se afrouxa, e a sentença nunca sae; porque o impio cérca o justo, e sae a sentença torcida." A lei tornou-se elástica. Os processos nunca chegam ao fim. Quem tem poder cerca quem não tem, e o veredicto sai torcido. Habacuque não está a queixar-se de uma dor pessoal. Está a queixar-se de que Deus parece tolerar um país onde a injustiça ganha sempre.
Então Deus responde. E a resposta é o momento em que este capítulo se torna verdaderamente perturbador.
"Vêde entre as nações, e olhae, e maravilhae-vos, e estae maravilhados; porque obro uma obra em vossos dias que não crereis, quando se vos contar." Deus diz: vou agir, e vou agir de tal maneira que ninguém vai acreditar quando te contarem. Habacuque devia estar a preparar-se para ouvir falar de reforma, de avivamento, de justiça restaurada.
Em vez disso: "eis que suscito os chaldeos, nação amarga e apressada." Os babilónios. O império mais brutal da região. Deus vai responder à violência interna de Judá enviando uma violência externa muito maior.
E a descrição é assustadora na sua beleza. Os cavalos mais rápidos que leopardos, mais afiados que lobos ao anoitecer. Cavaleiros que vêm de longe e "voarão como aguias que se apressam á comida." Reúnem prisioneiros como quem junta areia, aos punhados, sem contar. Riem-se dos reis, gozam com os príncipes, riem-se das fortalezas porque simplesmente amontoam terra e sobem por cima. Nada os detém. E no verso 11 vem o diagnóstico teológico: eles atribuem esse poder ao seu próprio deus. Tornam-se culpados exactamente ali, no ponto em que confundem a sua força com divindade.
Habacuque não fica calado. Volta a atacar, e agora com o argumento mais forte que tem. "Tu és tão puro de olhos, que não podes vêr o mal… porque te calas quando o impio devora aquelle que é mais justo do que elle?" A lógica dele é impecável: se és santo, como podes usar alguém pior do que nós para nos julgar?
E depois vem a imagem que fica: Deus tratou os seres humanos como peixes do mar, como répteis sem ninguém que os governe. O Babilónio pesca com anzol, arrasta com a rede, ajunta na sua varredoura, e alegra-se. Depois oferece sacrifícios à própria rede. Adora o seu método. Queima incenso ao seu equipamento militar, porque foi a rede que o engordou. E a última pergunta do capítulo fica pendurada no ar sem resposta: será que ele vai esvaziar a rede para sempre e nunca parar de matar povos?
Fim do capítulo um. Sem resolução.
O Que Significa Isto?
Significa, primeiro, que Deus não tem medo das tuas perguntas. Habacuque não é castigado por ter falado assim. A sua reclamação foi preservada como Escritura, como palavra de Deus. A fé bíblica não é engolir tudo em silêncio. Há espaço para o "até quando" e para o "porque te calas".
Segundo, significa que as respostas de Deus muitas vezes não são as respostas que queríamos. Habacuque pediu intervenção e recebeu intervenção. Só que a intervenção parecia pior que o problema. Muita gente perde a fé exactamente aqui: não porque Deus não faz nada, mas porque o que faz não se parece com aquilo que nós tínhamos aprovado.
Terceiro, há uma coisa que Habacuque nunca perde, mesmo no meio da revolta. No verso 12 ele diz: "Porventura não és tu desde sempre, ó Senhor meu Deus, meu Sancto?… tu, ó Rocha." Ele grita com Deus e ao mesmo tempo chama-lhe Rocha. Não é contradição. É o que a fé real parece quando está debaixo de pressão. Ele discute com Deus dentro da aliança, não fora dela. Está a bater na porta, não a ir embora.
O Fio Condutor
Habacuque pergunta como é que um Deus puro pode ficar calado enquanto o culpado devora o mais justo. Essa pergunta atravessa toda a Bíblia e encontra a sua resposta mais estranha e mais profunda numa cruz, fora de Jerusalém.
Ali, o mais justo de todos é devorado pelos ímpios. Ali, Deus parece calado. E ali, Jesus grita algo com a mesma forma que o grito de Habacuque: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" A pergunta do profeta torna-se a oração do Filho.
A diferença é que na cruz o silêncio de Deus não é ausência. É o lugar onde ele carrega a "carga" que Habacuque só conseguiu ver. Deus não resolveu a injustiça do mundo com uma explicação. Entrou nela.
E é do capítulo 2 deste mesmo livro que Paulo tira uma frase que muda a história inteira: o justo viverá pela sua fé. Ou seja: entre a pergunta e a resposta, existe uma maneira de continuar vivo. Confiar sem ainda ver.
Para Ti
Provavelmente já tiveste uma versão deste capítulo. A oração repetida durante meses que parece bater no teto. A injustiça que vês nas notícias, ou na tua própria escola, onde quem manipula melhor ganha e quem é honesto paga. A sensação de que Deus tem os recursos para intervir e escolhe não o fazer.
Não finjas que isso não te incomoda. A alternativa a uma fé com perguntas não é uma fé forte, é uma fé de plástico, que se parte no primeiro impacto real.
Mas repara em como Habacuque faz. Ele leva a queixa a Deus, e não sobre Deus para outras pessoas. Há uma diferença enorme entre orar "até quando" e simplesmente desistir com estilo cínico. O cinismo é confortável porque não exige nada. A oração de Habacuque é desconfortável porque mantém a relação viva.
E depois há o verso 16, que talvez seja o mais actual de todo o capítulo. O Babilónio sacrifica à sua rede. Adora aquilo que o fez ter sucesso. Pergunta-te honestamente a que rede tu queimas incenso. As notas? O corpo? Os números do teu telefone? A tua própria inteligência? Aquilo que nos engorda a porção facilmente se torna aquilo que adoramos, e nem nos damos conta.
Desafio: Escreve a tua queixa. A verdadeira, não a versão apresentável. Escreve-a como uma oração dirigida a Deus, sem suavizar nada. E depois, no fim, escreve à mão o verso 12: "não és tu desde sempre, ó Senhor meu Deus, meu Sancto?" Guarda esse papel. Volta a ele dentro de três meses e vê o que mudou, em Deus ou em ti.
Conversem Sobre Isto
Habacuque acusa Deus de silêncio e continua a chamar-lhe Rocha na mesma oração. Consegues fazer as duas coisas ao mesmo tempo, ou uma delas sempre elimina a outra em ti?
A que "rede" queimas incenso, aquilo que te dá resultados e sem o qual te sentirias perdido? Sê específico, mesmo que seja desconfortável dizê-lo em voz alta.
Orando Juntos
Senhor, até quando? Não sei fazer melhor pergunta do que esta. Vejo coisas que não deviam existir e não te vejo agir. Não vou fingir que compreendo. Mas continuo a chamar-te meu Deus, meu Santo, minha Rocha, porque não tenho outro lugar para ir com esta carga. Ensina-me a viver pela fé enquanto espero. Amém.
Perguntas sobre Habacuque 1
Respostas breves para quem lê sobre isto pela primeira vez.
Sobre o que fala Habacuque 1?
O que diz Habacuque 1?
O que Habacuque 1 nos ensina sobre Deus?
O que adolescentes pode aprender com Habacuque 1?
Por que Habacuque 1 é uma história bíblica importante?
O que outros descobriram
E farias os homens como os peixes do mar, como os répteis, que não têm quem os governe?" Habacuque olha a violência e vê gente puxada por anzol, como se ninguém estivesse no comando. A pergunta dele não é mansa, é um grito. E Deus não o repreende por isso. Tua oração também pode ser assim: aberta, com a dor toda dentro.
A todos levanta com o anzol, apanha-os com a sua rede, e os ajunta na sua draga; por isso, ele se alegra e salta de prazer." Habacuque viu gente virar peixe: sem nome, sem voz, apenas quantidade na rede de alguém. E o pior, o pescador festejando. Pergunte hoje: alguma alegria sua foi pescada assim?
Ela é horrível e terrível, dela mesma procede o seu direito e a sua grandeza." O retrato do caldeu é de quem não presta contas a ninguém: ele mesmo decide o que é justo. Assusta porque é familiar. Quantas vezes você julgou uma situação tendo apenas a si mesmo como medida? Há quem esteja acima de você?
Habacuque pediu que Deus fizesse alguma coisa contra a violência. E a resposta veio assim: "Eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa". Não era o que ele esperava. Às vezes Deus responde de um jeito que dói mais que o silêncio. Repare no "eu suscito". Mesmo o que parece fora de controle está na mão dele.
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