2 Crônicas 20
O Texto
Três exércitos aliados marcham contra Judá, e Josafá, rei de um reino pequeno e sem chance militar, faz algo estranho: convoca jejum, reúne o povo inteiro no templo e reza uma oração que termina em confissão de ignorância. Um levita chamado Jaaziel responde em nome de Deus: a batalha não é deles. No dia seguinte o exército sai com um coral à frente, e quando o louvor começa, os inimigos se voltam uns contra os outros. Judá volta para casa com saque, música e três dias de trabalho só para recolher os despojos.
O Coração
A frase que sustenta o capítulo inteiro não é "não temais", mas o que Josafá diz antes: "em nós não ha força perante esta grande multidão que vem contra nós, e não sabemos nós o que faremos; porém os nossos olhos estão postos em ti." É uma oração que admite duas coisas que nós raramente admitimos juntas: não tenho recursos e não tenho estratégia. A fé bíblica não começa quando reunimos coragem; começa quando paramos de fingir competência. E note que a resposta divina não dispensa Judá de sair de casa. "Ámanhã descereis contra elles" vem logo depois de "a peleja não é vossa". Confiar não é ficar na cama. É ir até o campo sem a ilusão de que a vitória depende do seu braço.
O Fio Condutor
Josafá não inventa a oração; ele cobra uma promessa. No verso 9 ele cita quase literalmente o que Salomão disse na dedicação do templo em 2 Crônicas 6: se vier espada, juízo, peste ou fome, clamaremos diante desta casa e tu nos ouvirás. Deus é lembrado daquilo que ele mesmo prometeu. É assim que o povo da aliança reza: com a palavra de Deus na mão. E o canto dos levitas carrega a palavra hebraica hesed, aqui traduzida por "benignidade", o amor fiel que Deus jurou e não revoga. Esse mesmo hesed chega ao fim do caminho na cruz, onde outra vez o povo de Deus não luta, apenas recebe uma vitória conquistada por outro.
O Espelho
Você sabe como é chegar ao fim das suas opções. A conversa com o RH que não tem saída boa. O filho adolescente que você já tentou abordar de cinco jeitos. A dívida que não cabe no salário. O exame que ainda não saiu. Nossa reação instintiva é a de qualquer rei pequeno: calcular, negociar, montar alianças, como aliás o próprio Josafá faz no fim do capítulo, aliando-se a Acazias e vendo seus navios despedaçados. Há aqui uma pergunta incômoda: por que oramos com fervor nas crises e improvisamos sozinhos nas decisões de rotina, justamente onde a maioria dos danos acontece? Hoje, escreva numa folha, em uma frase só, a situação em que você honestamente não sabe o que fazer. Depois leia em voz alta, olhando para o papel: "não sabemos nós o que faremos; porém os nossos olhos estão postos em ti." Dez minutos, e dito em voz audível, não pensado.
O Protagonista
Josafá é um homem corajoso e assustado ao mesmo tempo, e o texto não esconde nem uma coisa nem outra: "Então Josaphat temeu, e poz-se a buscar o Senhor". O medo não é o oposto da fé; é o que a põe em movimento. Ele reza em público, o que exige humildade de um rei: diante de súditos, mulheres e crianças, admite que não tem plano. Depois se prostra com o rosto em terra. E ainda assim, o mesmo homem termina o capítulo fechando um negócio de navios com um rei ímpio. O retrato é adulto: a fé de Josafá é real e intermitente. A nossa também. Isso não desculpa nada, mas impede que você se julgue falso por não ser constante.
A Pergunta
E quando o inimigo vence? Cristãos oram, jejuam, cantam, e o tumor cresce, a empresa fecha, o país não se levanta. Se este capítulo for uma fórmula, ele é cruel. Mas observe o que Deus promete em concreto: "o Senhor será comvosco." A presença é a promessa; o desfecho em Beraca é um presente, não um contrato. Crônicas foi escrito para um povo que tinha voltado do exílio justamente porque, outras vezes, a batalha fora perdida. Eles liam isto sabendo disso. O texto não nos garante que sairemos cantando de toda guerra. Garante que o Deus que fez a promessa não está do outro lado do vale, nem indiferente, e que não existe derrota que escape ao seu governo. Isso é menos do que queremos e mais do que merecemos.
O Detalhe
"E todo o Judah estava em pé perante o Senhor, como tambem as suas creanças, as suas mulheres, e os seus filhos." Os bebês estão lá. Ninguém os deixou em casa com uma tia enquanto os adultos resolviam o assunto sério. A crise não foi escondida das crianças, foi mostrada a elas no lugar certo: de pé diante de Deus. Pense no que isso significa para a sua casa. Nossos filhos percebem a tensão no ar de qualquer maneira; a questão é se eles nos veem apenas preocupados ou também orando. Deixar a criança ouvir o pai dizer "não sei o que fazer" diante de Deus ensina mais teologia do que uma década de respostas prontas.
Reflexão
Em que decisão recente você agiu como Josafá nos navios, calculando sozinho, sem sequer pensar em perguntar a Deus?
O que as pessoas que moram com você já viram de sua oração, e não apenas de sua ansiedade?
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Perguntas frequentes sobre 2 Chronicles 20
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque na saída do Egito o Teu povo "deles se desviaram e não os destruíram", obedecendo à Tua ordem. Agradeço por me ensinares a respeitar os limites que marcas, e por guardares na Tua memória cada passo de obediência meu.
Eles saíram para a batalha cantando e voltaram cantando: "Vieram a Jerusalém com alaúdes, e com harpas, e com trombetas, para a Casa do SENHOR." Os mesmos instrumentos na ida e na volta. O louvor não nasceu da vitória, só continuou nela. E o seu, depende do resultado ou já começou antes de você saber como termina?
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