2 Crônicas 9
O Texto
Uma rainha vem de muito longe com camelos carregados de especiarias e ouro, não para negociar, mas para pôr Salomão à prova com enigmas, e fala com ele "de tudo o que tinha no seu coração". Ele responde a tudo; nada lhe fica oculto. Quando ela vê a casa, a mesa, os servos, as vestes e a subida pela qual o rei subia à casa do Senhor, ela "ficou como fóra de si", e bendiz o Deus de Israel. Depois disso o capítulo se transforma num inventário: seiscentos e sessenta e seis talentos de ouro por ano, escudos batidos, um trono de marfim com doze leões, prata tão comum como pedras. E então, numa única frase, Salomão dorme com seus pais.
O Cerne
O que esta rainha estrangeira entende, e o que o narrador quer que entendamos, é que nada disto pertence a Salomão. Ela não diz "bendito sejas tu", diz "Bemdito seja o Senhor teu Deus, que se agradou em ti para te pôr como rei sobre o seu throno". O trono não é de Salomão; é o trono do Senhor, e Salomão está sentado nele por empréstimo. E a razão não é o mérito do rei, mas o amor de Deus por um povo: "porquanto teu Deus ama a Israel, para estabelecel-o perpetuamente". A glória visível aponta para uma decisão invisível, tomada antes de qualquer sabedoria ou ouro. Aqui o esplendor não é recompensa pelo esforço humano; é sinal de um afeto divino que precede tudo.
O Fio Condutor
Chama atenção o que acontece com esta mulher: uma estrangeira, vinda do sul, chega carregada de presentes e se curva diante da sabedoria de Deus em Israel. Os profetas falariam depois das nações subindo a Jerusalém; aqui já se vê o primeiro broto disso, antecipado em camelos e especiarias. Jesus faria referência a essa rainha, dizendo que ela se levantará no juízo contra a sua geração, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e ali estava alguém maior do que Salomão. O fio é esse: a sabedoria que atrai o mundo não termina num trono de marfim, termina num homem que não tinha onde reclinar a cabeça, e que mesmo assim respondia a tudo o que os corações lhe traziam.
O Espelho
Há algo desconfortável no fim deste capítulo. Toda aquela acumulação, os quatro mil estábulos, os cavalos vindos do Egito, a prata que "se reputava por nada", e depois a frase seca: "E dormiu Salomão com seus paes". O inventário não protege ninguém da sepultura. Você talvez conheça essa aritmética silenciosa, a planilha mental que corre enquanto você dirige para o trabalho: mais um ano, mais um cargo, mais uma reserva, e então enfim estarei seguro. Salomão chegou ao limite dessa conta e ainda assim a frase final é idêntica à de qualquer pastor de Belém. A rainha não ficou sem fôlego diante da quantidade, mas diante de uma ordem, de uma beleza que apontava para cima. Hoje, escreva num papel as três coisas que você tem construído para se sentir seguro, e sobre a lista escreva: "Bemdito seja o Senhor teu Deus". Depois guarde o papel onde você o verá amanhã.
O Intertexto
Deuteronômio 17 estabelece que o rei de Israel não deve multiplicar cavalos para si, nem fazer o povo voltar ao Egito para consegui-los. Leia depois disso o versículo 28 deste capítulo: "E do Egypto e de todas aquellas terras traziam cavallos a Salomão." O Cronista não comenta, não acusa, apenas registra, e o silêncio pesa mais do que uma repreensão. A glória e a transgressão estão na mesma lista, lado a lado, sem aviso. E em Mateus 12, Jesus levanta essa mesma rainha como testemunha contra os que tinham diante de si algo maior e não se moveram. Duas vozes, portanto: uma nos diz que o esplendor de Salomão já estava rachado por dentro, outra nos diz que mesmo esse esplendor rachado bastou para mover uma estrangeira a atravessar o deserto.
A Personagem Central
Salomão aparece aqui no auge, e é um auge estranhamente mudo. Ele responde a todos os enigmas, mas o capítulo não registra uma única palavra sua. Fala a rainha, falam os números, fala o ouro; o rei permanece em silêncio no centro de sua própria glória. Ele dá à rainha "tudo quanto lhe agradou, e o que lhe pediu", gesto de uma generosidade real, e no entanto é alguém que recebe presentes "cada coisa d'anno em anno", ano após ano, numa maré de tributos que nunca cessa. É difícil não sentir ali um homem cada vez mais cercado e cada vez menos visível. A sabedoria que Deus lhe dera no coração continuava sendo dom; o ouro empilhado em volta era outra coisa, e não sabemos se ele ainda distinguia os dois.
O Detalhe
Na lista do que deixou a rainha sem fôlego, o último item é o mais discreto: "a sua subida pela qual elle subia á casa do Senhor". Não é um objeto, é um movimento. Entre as iguarias, as vestes e os copeiros, há um caminho que sai do palácio e vai para cima, para o templo, e é esse caminho que fecha a enumeração. A rainha viu tudo o que o rei possuía, e então viu o que o rei fazia com o que possuía: ele subia. Talvez seja essa a única coisa deste capítulo que ainda vale para nós. Não quanto acumulamos, mas se existe, no meio do que construímos, uma subida visível, um caminho gasto pelo uso, que leva para fora de nós mesmos.
Reflexão
A rainha falou com Salomão "de tudo o que tinha no seu coração". O que você ainda não disse a Deus porque teme que não haja resposta para aquele enigma?
Se alguém visitasse a sua vida como ela visitou aquele palácio, veria alguma subida, algum caminho que leva para fora de você mesmo, ou apenas o inventário?
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Fez o rei que houvesse prata em Jerusalém como pedras." Imagine andar por uma cidade onde a prata está tão espalhada que ninguém mais se abaixa para pegar. O auge de Salomão. E poucos capítulos depois, Sisaque leva tudo embora. O que hoje te encanta pode virar pedra comum amanhã. Você ainda se admira com o que Deus põe nas suas mãos?
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