Deuteronômio 2
O Texto
Depois de anos girando em torno do maciço de Seir, a ordem chega seca: "Assás tendes rodeado esta montanha: virae-vos para o norte." Israel recebe um roteiro estranho para um povo em marcha de conquista: atravessar os territórios de Edom, Moabe e Amom sem tocar em nada, comprando comida e água com dinheiro, porque aquelas terras já têm dono por decisão do Senhor. No caminho, a geração dos homens de guerra se consome no acampamento, exatamente como fora jurado. Só depois do ribeiro de Arnom o tom muda: Seom, rei de Hesbom, recusa a passagem pedida "com palavras de paz", sai à peleja em Jaaz e é destruído com suas cidades. É um capítulo de fronteiras, de contas fechadas e de uma porta que finalmente se abre.
O Cerne
O que impressiona aqui não é a violência do fim, mas a contenção do começo. Um povo faminto, armado, com quarenta anos de deserto nas costas, passa ao lado de terras férteis e paga pela água que bebe. Por quê? Porque Edom e Moabe e Amom não são terra de ninguém: "porquanto a Esaú tenho dado a montanha de Seir por herança." O Deus de Israel distribui heranças a povos que não são o seu, inclusive aos descendentes do irmão preterido e do sobrinho de Abraão. Isso desmonta a caricatura de um Deus tribal. A conquista não é apetite legitimado por religião; é um mandato com limites precisos, e o limite é tão sagrado quanto a ordem de avançar. Israel não toma o que quer, toma o que lhe é dado.
O Fio Condutor
Repare no vocabulário: herança, dar, possuir. É a linguagem do testamento e da família, não da pilhagem. Deus age como o patriarca que reparte a terra entre os filhos, e a repartição inclui gente de fora da aliança. Israel aprende, andando, que possuir algo diante de Deus nunca é o mesmo que conseguir algo pela força. A geração que se consumiu no arraial durante os trinta e oito anos morreu justamente por ter tentado o contrário: primeiro recusar o dom, depois arrancá-lo à força. O Novo Testamento pega esse fio quando fala de herdeiros e de uma herança guardada, e Hebreus volta exatamente a esta geração no deserto como advertência. A terra prometida nunca foi salário. Sempre foi doação, e por isso mesmo sempre veio com fronteiras.
O Espelho
Há coisas boas que não são suas. Aquele cargo que caberia melhor em você, a casa do vizinho, o reconhecimento que foi para outro, o tempo livre de quem não tem filhos pequenos. O texto não manda você fingir que não vê; manda passar ao lado e ainda pagar pelo pão e pela água. É uma disciplina brutal para quem passou anos girando em torno da mesma montanha, com a sensação de que a vida devia alguma coisa. E note que a promessa não é ausência de desejo, mas suficiência: "estes quarenta annos o Senhor teu Deus esteve comtigo, coisa nenhuma te faltou." Nada faltou. Não sobrou muito, mas nada faltou. Hoje, antes de dormir, escolha uma coisa concreta que pertence a outra pessoa e que você vem cobiçando em silêncio, escreva o nome dela num papel e diga em voz alta: isto foi dado a ele, não a mim.
O Detalhe
Os parênteses dos versículos 10 a 23 parecem nota de rodapé de escriba entediado. Não são. Ali se conta que os emeus e os zanzumeus, gigantes altos como os enaquins, foram expulsos de suas terras, e que quem os expulsou foi o Senhor, para dar lugar a Esaú e a Ló. Ou seja: Israel não é o único povo cuja história teve um Deus mexendo as peças. Os edomitas também tiveram sua conquista, seu Jericó, seus gigantes vencidos. Para uma geração prestes a atravessar o Jordão apavorada com a estatura dos cananeus, isso é remédio e humildade ao mesmo tempo. Remédio, porque gigantes já caíram antes. Humildade, porque o Deus que os derruba não pertence a Israel; Israel é que pertence a ele.
O Intertexto
"O Senhor teu Deus endurecera o seu espirito, e fizera obstinado o seu coração." Quem leu Êxodo reconhece a frase de imediato: é o que se diz de Faraó. A recusa de Seom em deixar passar um povo que pedia apenas a estrada e oferecia dinheiro pela água coloca esse rei amorreu no mesmo lugar do tirano do Nilo. E, como no Egito, a obstinação não desculpa o obstinado; ele sai à peleja por vontade própria, em Jaaz. A Escritura deixa a tensão em pé sem resolvê-la, e faz mal a quem tenta amaciá-la. O que ela afirma é isto: nem o mais duro dos "nãos" humanos consegue trancar o caminho que Deus abriu.
O Perfil
Imagine quem ouviu isto pela primeira vez: gente de trinta e poucos anos, nas planícies de Moabe, com o cheiro do Jordão à frente e um deserto de cemitérios sem lápide atrás. Cresceram enterrando os pais. Aprenderam a contar o tempo por funerais, até que o último homem de guerra da geração antiga se consumiu do meio do arraial. Para eles, "virae-vos para o norte" não era geografia, era o fim de uma sentença. E ouvir que Edom e Moabe conservam suas terras significava algo desconfortável e libertador: o Deus que os castigou é justo com os outros também, portanto será justo com eles. Não um deus de humor instável, mas alguém cuja palavra se cumpre nos dois sentidos, no juízo e na dádiva.
Reflexão
Onde, na sua vida, você está girando há tempo demais em torno da mesma montanha, e o que aconteceria se a ordem de hoje fosse simplesmente "virae-vos para o norte"?
Que fronteira Deus traçou na sua vida que você tem tratado como obstáculo em vez de herança dada a outra pessoa?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Senhor, há páginas da tua Palavra que me pesam no peito, como esta, cheia de guerra e perda. Não consigo explicá-la, e nem tento. Só te peço: guarda meu coração de qualquer desejo de destruir alguém, e ensina teus caminhos de paz.
Os zanzumins eram "povo grande, numeroso e alto como os gigantes". E caíram. Nem foi Israel quem lutou ali. Deus já tinha derrubado gigantes por um povo que nem era o dele de aliança. Moisés conta isso para animar gente com medo. Se Ele fez aquilo pelos amonitas, por que o seu gigante seria grande demais?
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