Eclesiastes 3
O Texto
Há um tempo para cada coisa sob o céu: nascer e morrer, plantar e arrancar, chorar e rir, guerrear e apaziguar. O Pregador olha para esse ritmo implacável e pergunta que proveito tira o trabalhador de tanto esforço. Sua resposta é dupla: Deus fez tudo formoso em seu tempo e pôs a eternidade no coração humano, e por isso resta ao homem comer, beber, alegrar-se e fazer o bem, como dom recebido. Depois, o texto se torna sombrio: mesmo no lugar do juízo há impiedade, e homem e animal partilham o mesmo pó.
O Núcleo
O capítulo não é uma poesia decorativa sobre "tudo tem seu tempo". É uma provocação ética. Se Deus determinou os tempos e "não se lhe deve accrescentar, e nada d'elle se deve diminuir", então a arrogância humana de controlar a vida é ridícula. Você não escolhe quando nasce nem quando morre; muitas vezes não escolhe quando chora nem quando é forçado a calar. O que resta? Discernir o tempo em que se está. A sabedoria bíblica aqui é uma competência ética: saber a hora de falar e a hora de calar, a hora de abraçar e a hora de recuar. Quem confunde os tempos, mesmo com boa intenção, causa dano.
O Fio Condutor
O Pregador diz que Deus "poz o seculo no coração" do homem, sem que ele possa descobrir a obra de Deus do princípio ao fim. Há em nós uma sede de eternidade que a vida sob o sol não satisfaz. Essa inquietação aponta para além do próprio Eclesiastes. Cristo é aquele que veio "na plenitude do tempo", que sabia a hora de morrer e a hora de ressuscitar, que chorou junto ao túmulo de Lázaro sabendo que iria chamá-lo de volta. Ele viveu o único tempo verdadeiramente formoso. E prometeu que o juízo, que o Pregador vê corrompido no "logar do juizo", terá enfim o seu tempo justo.
O Espelho
Confesse: você quer que seja sempre tempo de construir, nunca de derrubar. Sempre tempo de guardar, nunca de deitar fora. Sempre tempo de falar, quase nunca de calar. E aí está a raiz de muitos conflitos concretos. O casamento em que um dos dois insiste em conversar quando o outro precisa de silêncio. O funeral em que alguém tenta consolar com frases feitas quando era tempo de prantear. O trabalho em que você se recusa a soltar um projeto morto porque investiu demais. O dinheiro que se junta compulsivamente quando era tempo de espalhar. O corpo que envelhece e você trata como traição pessoal. Discernimento ético começa em aceitar que o tempo atual não é o que você teria escolhido.
A Pergunta
E o versículo 19 fica atravessado: "a vantagem dos homens sobre as bestas não é nenhuma, porque todos são vaidade". Como conciliar isso com a fé na dignidade humana e na ressurreição? O Pregador não está negando Deus; está negando que possamos ver, a partir do pó do cemitério, alguma diferença visível entre o homem justo e o boi abatido. É uma observação empírica brutal, não uma doutrina final. E é honesta. Quem já enterrou alguém sabe que o túmulo não distingue currículos. O texto nos obriga a admitir que a esperança da vida além não brota da observação, mas da revelação. Não é conclusão da experiência; é dom que a experiência não pode dar nem tirar.
O Personagem Principal
Deus é o personagem que se move nos bastidores deste capítulo. Ele determina os tempos, faz tudo formoso, planta a eternidade no coração, dá o comer e o beber como dom, julgará justo e ímpio, pede conta do que passou. Note o contraste: Ele age em soberania completa ("nada se lhe deve accrescentar"), e ao mesmo tempo deixa o homem com trabalho que o aflige. Não é um Deus sentimental. É um Deus que quer ser temido (v. 14), não porque seja cruel, mas porque a alternativa, um universo sem juiz, seria pior. O Pregador crê num Deus que ainda vai acertar as contas onde o tribunal humano falhou.
Reflexão
Em que área da sua vida você está tentando forçar o tempo errado: falando quando era hora de calar, guardando quando era hora de largar, construindo o que já deveria ter sido derrubado?
Se Deus vai pedir conta "do que passou" (v. 15), o que da sua semana passada você gostaria de rever antes desse acerto, e o que faria diferente esta semana?
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Perguntas frequentes sobre Ecclesiastes 3
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E também que todo homem coma e beba e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é dom de Deus." Repare: o pão na mesa e o cansaço bom do fim do dia não são prêmio, são presente. Você talvez esteja esperando algo grande para enfim se alegrar. E se a alegria já estiver servida hoje, e você só precisar sentar e receber?
Pai, me ensina a diferença entre segurar e soltar. Tem coisas que carrego há tempo demais e abraços que deixei escapar cedo demais. Me dá coragem para o que precisa ficar e paz para o que precisa ir embora.
Obrigado, Senhor, pela alegria nas minhas obras: o trabalho de hoje, as mãos que ainda se movem, a tarefa simples que o Senhor chama de minha recompensa. Obrigado por eu não precisar carregar o que vem depois de mim, porque isso está em Tuas mãos.
Vi ainda debaixo do sol que no lugar do juízo reina a impiedade." Note onde a injustiça estava: não na rua, mas no tribunal. No lugar exato onde se esperava justiça. Talvez você conheça essa dor, ter sido ferido justamente por quem devia te proteger. O texto não nega isso. Só acrescenta: Deus julgará. E Ele não se atrasa nem se engana.
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