Jó 42:7
O Texto
O vento do redemoinho se cala. Job está no chão, coberto de pó, acabando de dizer que se abomina e se arrepende. E então, no silêncio que se segue, Deus vira-se. Não para Job, mas para os três homens sentados um pouco mais atrás, os que falaram tanto. "A minha ira se accendeu contra ti, e contra os teus dois amigos", diz o Senhor a Elifaz, "porque não fallaste de mim o que era recto, como o meu servo Job." Trinta e cinco capítulos de teologia bem construída, e o veredito é: errado.
O Núcleo
Reparemos no que Deus não condena. Não condena Job por ter gritado, acusado, exigido tribunal. Condena três homens por terem falado corretamente sobre um Deus falso. Elifaz e companhia defenderam um universo arrumado: o justo prospera, o ímpio sofre, portanto o sofredor é culpado. É lógico, é piedoso, é citável. E é mentira sobre Deus. Job, em contrapartida, falou mal e falou verdade: gritou que não entendia, que Deus lhe parecia inimigo, que o mundo não fechava as contas. Deus prefere a queixa honesta ao dogma bem-comportado. Isto deveria assustar qualquer um de nós que já ofereceu explicações a quem chorava.
O Fio Condutor
Há uma palavra repetida três vezes nestes versículos que não se pode passar em claro: "o meu servo Job". Deus chama-o assim precisamente depois de Job ter falado com dureza. E o desfecho é ainda mais estranho: os amigos só serão poupados porque "o meu servo Job orará por vós". O acusado torna-se intercessor pelos seus acusadores. Aquele que sofreu sem culpa é aquele por cuja mão os culpados são aceitos. Não é alegoria forçada: é o mesmo padrão que atravessa a Escritura e chega ao seu peso pleno naquele que, pendurado, pediu perdão pelos que o julgaram. O sofredor inocente que ora pelos que o condenaram, e Deus aceita.
O Espelho
Todos já fomos Elifaz. Talvez ontem. Alguém do grupo perdeu o emprego e você pensou, sem dizer, que houve descuido. Um casamento ruiu e você já sabia porquê. Alguém adoeceu e você mencionou, com delicadeza, o poder da fé. Não somos cruéis; somos aterrorizados. Porque se o sofrimento não obedece a regras, então nada me protege, e essa hipótese é insuportável. Por isso construímos sistemas em que Deus é previsível e nós somos seguros. O versículo 7 desmonta essa arquitetura toda. Deus não se irou contra os amigos por serem insensíveis. Irou-se porque a teologia deles servia para se protegerem, não para conhecê-lo.
O Detalhe
"A minha ira se accendeu." A imagem hebraica é de nariz que arde, de calor subindo ao rosto. É a mesma linguagem usada quando Israel adora o bezerro de ouro. Isto merece um segundo de espanto: os únicos personagens do livro que provocam a ira declarada de Deus são os defensores da ortodoxia. Não Satanás, que sugeriu a aposta. Não a esposa, que disse a Job para amaldiçoar Deus. Não Job, que quase o processou. São os três teólogos. E o que arde não é irritação passageira; é a mesma indignação reservada à idolatria. Falar de Deus o que não é reto é fabricar um ídolo com palavras corretas.
A Pergunta
Mas onde exatamente Job falou "o que era recto"? Ele disse que Deus destrói o inocente com o culpado, que ri da desgraça, que não responde. Nada disso parece reto. E há uma dificuldade maior: no versículo 3, Job admite que "relatei o que não entendia". Então Deus aprova um homem que confessa ter falado sem entender? Talvez a resposta esteja aí mesmo. Job falou errado sobre Deus, mas falou com Deus, e no fim aceitou ser corrigido. Os amigos falaram certo sobre Deus e nunca falaram com ele; não há uma única oração nos seus discursos. O reto, aqui, não é a precisão da frase; é a direção do rosto. Isto não resolve tudo. Fica um resíduo incômodo, e o livro parece querer que fique.
O Intertexto
Ezequiel 14 menciona Noé, Daniel e Job como os três homens cuja justiça poderia salvar uma terra, e o eco é claro: Job entrou na memória de Israel não como o paciente, mas como o intercessor eficaz. E há um contraste que vale a pena guardar: quando Jesus encontra o cego de nascimento, os discípulos fazem exatamente a pergunta de Elifaz, quem pecou, ele ou os pais. A resposta de Jesus rompe a corrente causal do mesmo modo que Deus a rompe aqui. Dois milénios depois de Elifaz, a teologia dele ainda estava viva na boca de gente que seguia Jesus de perto. Provavelmente ainda está na nossa.
Reflexão
Quando foi a última vez que você ofereceu uma explicação a alguém que sofria, e o que essa explicação protegia em você?
Job foi aprovado por falar com Deus, ainda que mal. Existe alguma coisa que você diz sobre Deus aos outros mas nunca ousou dizer a ele?
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Perguntas frequentes sobre Job 42:7
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