Eclesiastes 8
O Texto
O Pregador começa elogiando a sabedoria que suaviza o rosto de um homem, e imediatamente a coloca à prova no lugar mais perigoso: diante do rei, onde "ha a palavra do rei, ahi está o poder". Daí passa para o escândalo que corrói qualquer moral simples: os ímpios são enterrados com honra, a sentença sobre a má obra demora, e há justos a quem acontece "segundo as obras dos impios". A conclusão não é cinismo nem resignação, mas duas coisas ao mesmo tempo: temer a Deus, e comer, beber e alegrar-se, porque a obra de Deus permanece fora do alcance de quem a procura.
O Núcleo
O versículo 11 é uma das frases mais realistas da Bíblia sobre o coração humano: "Porquanto logo se não executa o juizo sobre a má obra, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para obrar o mal." A ética do Pregador não nasce de um mundo onde o crime não compensa. Nasce de um mundo onde compensa, muitas vezes, e por muito tempo. E ainda assim ele diz: "bem sei eu, que bem succede aos que temem a Deus". Esse "sei" não é uma conclusão da observação; a observação diz o contrário no versículo 14. É fé, declarada em voz alta contra a evidência disponível. Deus permanece juiz mesmo quando o tribunal parece vazio.
O Fio Condutor
O capítulo termina com uma derrota intelectual honesta: a obra de Deus "o homem não pode alcançar", nem mesmo o sábio que jura tê-la entendido. Isso prepara o terreno para algo que Eclesiastes não podia ver ainda. O Novo Testamento não resolve o enigma com mais informação, mas com uma pessoa: em Cristo aparece um justo a quem aconteceu exatamente "segundo as obras dos impios", condenado no lugar dos culpados. O escândalo do versículo 14 não foi corrigido; foi absorvido por Deus mesmo. E a ressurreição responde ao versículo 8, onde nenhum homem tem poder sobre o dia da morte nem armas nessa peleja. Um teve. Isso não anula o adiamento do juízo, apenas garante que ele não é esquecimento.
O Espelho
Você já contou, sem dizer a ninguém, quanto tempo faz que aquele colega manipula números e continua sendo promovido. Já viu o sogro grosseiro morrer cercado de elogios no funeral. Já percebeu que o segundo cálculo, o de que talvez ninguém verifique, começou a moldar as suas decisões de imposto, de horas registradas, de conversas que você não repetiria em voz alta. O versículo 11 não fala de criminosos, fala de você e de mim: a demora do juízo educa o coração para o mal, lentamente, sem drama. E o versículo 3, "nem persistas em alguma coisa má", é um conselho de sobrevivência dentro de estruturas de poder que você não controla. Saia da má causa antes que ela se torne a sua identidade profissional.
A Pergunta
Como conciliar o versículo 12, onde o Pregador afirma que bem sucede aos que temem a Deus, com o versículo 14, onde ele constata o oposto com os próprios olhos? A tentação é escolher um dos dois: o piedoso fica com o 12 e finge que o 14 não existe; o desiludido fica com o 14 e chama o 12 de ingenuidade. O texto recusa as duas saídas, colocando as afirmações lado a lado sem costura. Talvez a única resposta honesta seja esta: a justiça de Deus é real e o seu calendário não nos foi entregue. Isso não conforta muito às três da manhã. Mas é mais respeitoso com a realidade do que qualquer teodiceia rápida, e é o máximo que o texto concede.
Contexto
O ambiente destes versículos é uma corte, não um templo. Alguém que serve perto do poder, num pequeno reino vassalo ou sob administração estrangeira, sabe que discordar publicamente do soberano pode custar a vida: "quem lhe dirá: Que fazes?" não é uma pergunta retórica sobre Deus, mas sobre um homem com espada. O conselho de observar o mandamento do rei é temperado por uma cláusula decisiva: "segundo a palavra do juramento que fizeste a Deus". A lealdade civil é real, e é penúltima. Nesse mundo, a religião oficial também funcionava socialmente: os que entravam e saíam do lugar santo eram respeitáveis, e o Pregador nota, seco, que o respeito coletivo tem memória curta.
O Detalhe
"Tempo ha em que um homem tem dominio sobre outro homem, para desgraça sua." A frase é gramaticalmente ambígua em hebraico, e é isso que a torna afiada: a desgraça pode ser do subordinado ou de quem manda. Provavelmente ambas. O poder machuca quem o sofre e deforma quem o exerce. Se você chefia alguém, é elder, é professor diante de trinta adolescentes, é pai de crianças pequenas, essa linha é dirigida a você e não apenas ao tirano distante. Domínio sobre outro ser humano nunca é neutro. Ele produz dano, sempre, a menos que seja exercido com um medo saudável de si mesmo e daquele diante de quem também você prestará contas.
Reflexão
Em que área concreta da minha vida eu já ajustei o meu comportamento à probabilidade de não ser descoberto, em vez de à presença de Deus?
Sobre quem eu exerço domínio, e que evidência tenho de que esse domínio não está causando desgraça, nem neles nem em mim?
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Não te apresses em deixar a presença dele, nem persistas em coisa má." Duas pressas perigosas: a de sair batendo a porta e a de insistir num erro só por orgulho. Salomão viu gente perder tudo por não esperar meia hora. Antes de tomar aquela decisão hoje, respire. A urgência que você sente talvez não venha de Deus.
O pregador acabou de admitir que a sentença tarda e que o mal parece sair impune. Ainda assim escreve: "eu sei que bem sucederá aos que temem a Deus, aos que temem diante dele." Repare no "eu sei". Não é o que ele vê, é o que ele crê. Há coisas que você vai precisar segurar com a fé, e não com os olhos.
Senhor, me ajuda a viver perto do que ensinas, mesmo quando parece mais simples seguir meu próprio jeito. Dá ao meu coração sabedoria para reconhecer a hora certa de falar, de agir e de esperar. Confio que sabes o tempo de cada coisa.
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