Efésios 2
O Texto
Paulo não começa com um elogio ao progresso espiritual dos seus leitores. Começa com um necrotério: vocês estavam mortos, andando conforme o curso deste mundo, filhos da desobediência como todo mundo. Então vem o "porque Deus", e tudo vira: o Deus "riquíssimo em misericórdia" vivifica, ressuscita e assenta nos céus, junto com Cristo, gente que não tinha nada a oferecer. Pela graça, por meio da fé, dom, não obras. E na segunda metade da página essa graça desce ao chão social: os que estavam longe chegaram perto pelo sangue de Cristo, o muro que separava judeus e gentios caiu, e dos dois Deus fez um só homem novo, um edifício que cresce para ser morada de Deus.
O Núcleo
Repare que Deus é o sujeito de praticamente todos os verbos decisivos. Vivificou, ressuscitou, fez assentar, criou, preparou. O ser humano aqui não é um doente que precisa de tratamento nem um perdido que precisa de mapa; é um morto. Mortos não colaboram na própria ressurreição. Por isso a graça não é desconto sobre um preço que ainda pagamos em parte, é criação do nada, como no primeiro capítulo de Gênesis. E há um segundo núcleo, que costumamos separar indevidamente do primeiro: a mesma cruz que reconcilia com Deus reconcilia povos entre si. Paulo não trata isso como consequência secundária. "Elle é a nossa paz" vem antes de qualquer aplicação moral. Uma igreja dividida não está apenas malcomportada; está desmentindo a cruz.
O Fio Condutor
Quando Paulo diz que Cristo "evangelizou a paz, a vós que estaveis longe, e aos que estavam perto", ele está citando Isaías, onde Deus promete paz ao distante e ao próximo. No profeta, "longe" eram os exilados; Paulo estende a palavra aos gentios de Éfeso, gente que nunca esteve perto de coisa alguma. O fio é este: as promessas feitas a Israel não foram canceladas nem transferidas, foram abertas. Os gentios não substituem o povo da aliança, são enxertados nele. E o destino desse fio é um templo. Toda a história, desde o tabernáculo no deserto até a pedra angular no versículo 20, aponta para um lugar onde Deus habita com gente. Agora esse lugar é um povo.
O Espelho
Você provavelmente não sente vergonha de ser incircunciso. Mas conhece bem a sensação de estar do lado de fora de um círculo que se fechou antes de você chegar. A conversa que muda de tom quando você entra. A igreja onde todos se conhecem desde crianças. O trabalho onde seu diploma não é do lugar certo. E conhece também o outro lado, mais desconfortável: a satisfação silenciosa de pertencer ao grupo certo, de ter a teologia afinada, o histórico limpo, os filhos comportados. Paulo corta os dois nervos de uma vez. Ao de fora ele diz: você é concidadão, doméstico, não hóspede tolerado. Ao de dentro: você também era cadáver, e a única diferença entre vocês é misericórdia recebida, o que não é diferença nenhuma.
O Perfil
Imagine gente que cresceu carregando estátuas de Ártemis em procissão pelas ruas de Éfeso, que pagava taxas às guildas de artesãos com juramentos aos deuses, que usava amuletos contra maus espíritos porque o ar realmente parecia habitado por potestades hostis. Quando Paulo fala do "principe da potestade do ar", eles não pensaram em metáfora. Depois de crerem, ouviram-se chamados de "incircuncisão" por judeus que os toleravam à margem da sinagoga. E o versículo 12 os descreve com uma frase que aparecia em epitáfios pagãos: "sem esperança". Eles sabiam que era verdade. Então vem o vocabulário cívico: concidadãos, membros da casa. Numa cidade onde cidadania definia se você podia ser açoitado ou não, isso não era poesia devocional.
O Detalhe
"Derribando a parede de separação que estava no meio." Todo leitor daquele tempo via a mesma coisa: no templo de Jerusalém havia uma balaustrada de pedra, mais ou menos na altura do peito, separando o pátio dos gentios do interior. Nela, placas em grego avisavam que qualquer estrangeiro que passasse dali seria responsável pela própria morte. Não era símbolo, era pena capital. Paulo escreve isso preso, provavelmente por uma acusação de ter levado um efésio para além daquela linha. E ele diz que a parede caiu, não por demolição política, mas "na sua carne". O corpo de Cristo rasgado ocupou o lugar da barreira. Onde havia um aviso de morte, há agora acesso, "em um mesmo Espirito ao Pae".
Contexto
Estamos nos anos sessenta do primeiro século, Paulo escrevendo da prisão, provavelmente em Roma, uma carta que circulava entre comunidades da província da Ásia com Éfeso como centro. Essas igrejas se reuniam em casas, talvez trinta ou quarenta pessoas espremidas entre o cheiro de azeite, lã e gente, misturando artesãos, escravos, algumas mulheres de posses e uns poucos judeus. A tensão não era doutrinária apenas: era quem come com quem, quem preside, de quem é a casa. Éfeso vivia do templo de Ártemis, uma das maravilhas do mundo, com toda uma economia religiosa girando em torno dele. Falar de outro templo, feito de pessoas, era mexer com dinheiro, identidade e orgulho cívico ao mesmo tempo.
Reflexão
Onde, na sua vida concreta, você ainda mantém de pé uma parede que Cristo declarou derrubada, e o que ela protege em você?
Se as boas obras foram "preparadas" antes por Deus para que andássemos nelas, o que muda na maneira como você mede o próprio valor no fim de um dia improdutivo?
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Perguntas frequentes sobre Ephesians 2
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O que a comunidade compartilha sobre Ephesians 2
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto." Repare que a mesma palavra foi dita duas vezes. Quem estava longe precisava ouvir, mas quem estava perto também. Dá para crescer dentro da igreja, conhecer os hinos de cor, e ainda assim nunca ter recebido essa paz. Ele veio falar com você também.
No qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor." Repare: o edifício cresce. Pedra não cresce sozinha, cresce encaixada. Aquele irmão que te irrita, que pensa diferente, talvez seja exatamente a pedra ajustada ao teu lado. Longe dele, você não cresce. Você só fica solto.
Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular." A pedra angular era a primeira a ser posta, e dela saía o alinhamento de toda a parede. Repare: você não foi encaixado numa obra sua, mas numa que já estava começada. Em que ponto da sua vida a linha está torta porque você mediu por outra pedra?
Não de obras, para que ninguém se glorie." Repare no alvo da frase: não é o seu esforço que está em jogo, é a sua vaidade. Deus fechou a porta da jactância antes mesmo que você pensasse em abri-la. Se a salvação dependesse de um pouquinho seu, você passaria a eternidade lembrando esse pouquinho. E hoje? De que você se gloria?
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