Ester 8
O Texto
No mesmo dia em que Hamã cai, Ester recebe a casa dele e Mordecai recebe o anel do rei, o sinal do poder de assinar leis. Mas Ester não se aquieta com isso: lança-se aos pés de Assuero, chora e pede que as cartas de morte sejam revogadas. O rei responde com algo estranho e decisivo: a lei selada com o anel real "não é para revogar", mas Mordecai pode escrever uma nova carta, em nome do rei, e os judeus poderão defender-se. Os correios partem a galope, Mordecai sai vestido de azul, branco e púrpura, e onde chega a palavra do rei há luz e alegria.
O Cerne
Repare no que o texto não faz: o decreto de Hamã nunca é cancelado. Aquele papel continua válido, com o selo do rei sobre ele, até o dia treze de adar. A lei do império persa é irreversível por definição, e o autor de Ester parece querer que sintamos o peso disso. A salvação, aqui, não vem por apagar a sentença, mas por acrescentar uma segunda palavra, igualmente selada, igualmente real, que dá aos condenados o direito de viver. Isto é teologia densa disfarçada de burocracia oriental: Deus não salva ignorando a legalidade da morte, mas enviando uma palavra mais forte dentro dela. E essa palavra chega pelas mãos de quem se colocou no chão, chorando, entre o rei e o povo.
O Fio Condutor
Há um padrão aqui que a cruz depois cumpre. O condenado não é absolvido por decreto revogado; é livrado por uma palavra nova, autorizada pelo próprio trono, entregue por um mediador exaltado. Mordecai sai da presença do rei com coroa de ouro e manto de linho fino e púrpura, e é essa saída que traz "luz, e alegria, e gozo, e honra" a um povo que ontem estava marcado para morrer. Cristo, ressuscitado e coroado, sai da presença do Pai com uma palavra que não anula a lei mas a supera. E note o final do capítulo: gente que não era judia junta-se ao povo. Onde a palavra do rei corre, as nações são recolhidas. Não é alegoria forçada; é o mesmo modo de agir de Deus, ensaiado em Susã.
O Espelho
Ester já estava salva no versículo 2. Tinha a casa de Hamã, o favor do rei, o primo no poder. Poderia ter parado ali, e ninguém a censuraria: ela tinha feito a sua parte. Nós conhecemos essa tentação com precisão desconfortável. O emprego está garantido, o filho está bem, o exame deu limpo, e a partir daí o sofrimento dos outros torna-se notícia, não ferida. Ester não consegue: "como poderei ver o mal que sobrevirá ao meu povo?" Ela chora por gente que não conhece. E arrisca outra vez o pescoço junto de um rei imprevisível, depois de já estar em segurança.
Hoje, faça isto: diga em voz alta, sozinho, o nome de uma pessoa cuja ruína você preferia não ver, e reze a frase de Ester como sua, pedindo a Deus pelo mal que virá sobre ela.
O Intertexto
Moisés, no Sinai, oferece-se para ser riscado do livro de Deus se o povo não for perdoado; Paulo diz que desejaria ser anátema pelos seus irmãos segundo a carne. Ester pertence à mesma linhagem de intercessores que não conseguem salvar-se sozinhos, e é essa linhagem que desembocará em alguém que efetivamente foi riscado. A diferença é reveladora: em Susã a sentença fica no arquivo e só perde força pela força de uma segunda carta; em Colossenses Paulo diz que o documento de dívida contra nós foi cancelado e cravado na cruz. Ester mostra o problema em toda a sua dureza legal. Cristo faz aquilo que Assuero não podia fazer: rasgar o papel.
A Personagem Central
Ester é aqui a figura mais forte do livro, e não por astúcia. O texto diz que ela se lançou aos pés do rei, chorou e suplicou; só depois, quando o cetro de ouro se estende, ela se levanta e fala de pé. Aquele movimento, do chão para a postura ereta, é o retrato de uma mediadora: primeiro sem qualquer direito, depois autorizada. E a linguagem dela é toda condicional, quase encolhida, "se bem parecer ao rei, e se eu achei graça perante ele", enquanto o conteúdo do pedido é enorme. Ela pede o que legalmente não existe. Espiritualmente, é uma mulher que já tem tudo a perder e escolhe perder, porque não suporta ver.
O Perfil
Os primeiros leitores eram judeus da diáspora, longe de Jerusalém, vivendo sob leis que não podiam alterar e reis cujo humor decidia o seu futuro. Num livro em que o nome de Deus nunca aparece, eles ouviam a sua própria condição: sobrevivemos por uma palavra vinda de um trono a que não temos acesso, a não ser por alguém que se coloque no meio. Também ouviam o versículo 11 sem o nosso choque, porque conheciam de cor a carta de Hamã, que usava exatamente as mesmas palavras contra eles. E depois celebravam Purim, comendo e enviando porções, porque a única resposta possível a uma libertação assim é a festa.
Reflexão
Onde a sua segurança pessoal já lhe permitiu deixar de ver o mal que vem sobre outros?
Se a salvação não é a sentença apagada mas uma palavra mais forte enviada dentro dela, o que muda no modo como você vive com a sua própria culpa?
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Perguntas frequentes sobre Esther 8
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque o decreto de livramento não ficou parado: foi selado com o anel do rei e correu nos ginetes das cavalariças reais até os confins do império. Assim o Senhor faz chegar a Sua salvação até mim, sem atraso e sem distância que a impeça.
Pai, tu sabes transformar o medo de uma cidade em festa. Onde hoje eu só vejo ameaça, lembra-me de que a última palavra é tua. Veste-me de dignidade quando eu me sentir pequeno, e ensina-me a celebrar o teu cuidado.
Obrigado, Senhor, porque onde chegou a palavra do rei houve "alegria e regozijo, banquetes e festas". O Senhor transforma o decreto de morte em motivo de festa e faz até os de fora se achegarem ao Teu povo. Gratidão por essa reviravolta que só vem das Tuas mãos.
Obrigado, Senhor, porque a carta de livramento foi escrita "a cada província segundo a sua escrita, a cada povo conforme a sua língua". Tu não deixas ninguém de fora: alcanças da Índia até a Etiópia e falas comigo na língua do meu coração.
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