Colossenses 1:1
O Texto
Uma sala emprestada, provavelmente em Roma. Um homem que não escolheu estar ali dita a primeira linha de uma carta para uma cidade pequena do vale do Lico, uma cidade que ele nunca visitou. E a primeira palavra é o próprio nome: "Paulo, apostolo de Jesus Christo, pela vontade de Deus, e o irmão Timotheo." É tudo. Nome, função, origem da função, e um segundo nome sem título nenhum. Antes de qualquer doutrina, antes do hino cósmico sobre o Filho que vem alguns versículos depois, há apenas isto: dois homens se identificando, um deles insistindo que não está ali por decisão própria. O envelope, se quiser. Mas o envelope já diz de onde vem a carta.
O Núcleo
Repare no que Paulo não escreveu. Não disse "Paulo, que se converteu no caminho de Damasco", nem "Paulo, que sofreu muito por vocês", ainda que ambas as coisas sejam verdadeiras e apareçam mais adiante. Ele escreveu "pela vontade de Deus". A palavra grega ali é thelēma, o querer, a decisão soberana. Ou seja: minha autoridade para falar com vocês, que nunca me viram, não nasce da minha experiência religiosa nem da minha competência. Nasce de fora de mim. Isso é evangelho em miniatura. O apóstolo é apóstolo pela mesma razão que os coríntios são santos e os colossenses são fiéis: porque Deus quis. E ao lado dele, sem título, "o irmão Timotheo", prova de que a graça que chama também cria parentesco entre desiguais.
O Fio Condutor
"Apóstolo" significa enviado, e a Bíblia é cheia de enviados que não se candidataram. Moisés discutindo com uma sarça, Isaías com os lábios queimados, Jeremias alegando ser criança demais. Nenhum deles constrói a própria credencial; todos são arrancados de onde estavam. Paulo se coloca nessa fila, e faz isso escrevendo para gentios do interior da Ásia Menor, gente que não tinha nenhum direito histórico de receber carta de um judeu de Tarso. É exatamente o movimento que a carta vai explicitar depois: "O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor." A vontade de Deus que fez de Paulo apóstolo é a mesma vontade que transporta pessoas de um reino para outro. O remetente é amostra da mensagem.
O Espelho
A pergunta que este versículo faz a você é curta e incômoda: com que você assina o seu nome? Nós assinamos com desempenho. O professor assina com resultados da turma, o pai com o comportamento dos filhos, o líder de grupo pequeno com quantas pessoas apareceram na quarta-feira. E quando os números caem, a identidade cai junto, porque foi construída sobre elas. Paulo, preso, sem viagens, sem plateia, sem estatísticas, escreve "pela vontade de Deus" e continua inteiro. Há uma liberdade tremenda ali, e também uma renúncia: se a vocação não é sua conquista, ela também não é sua propriedade. Você não pode devolvê-la quando cansa nem exibi-la quando dá certo. Hoje, escreva num papel a sua função mais pesada da semana, aquela que você teme não cumprir bem, e acrescente à mão, embaixo, as palavras "pela vontade de Deus". Deixe o papel onde você trabalha.
O Protagonista
Quem age neste versículo não é Paulo. Ele é objeto: alguém foi feito apóstolo. O sujeito oculto da frase é Deus, e o que se revela do seu caráter é uma teimosia amorosa. Este Deus escolhe o perseguidor para ser enviado, o prisioneiro para ser voz, e uma cidade sem importância comercial para receber a mais alta descrição de Cristo em todo o Novo Testamento. Ele não trabalha com material adequado; ele qualifica. A carta dirá isso com clareza no versículo 12, ao falar do "Pae que nos fez idoneos de participar da herança dos sanctos na luz". Fez idôneos. Ninguém chega idôneo. Deus decide, e a decisão cria a realidade que descreve, como no primeiro capítulo de Gênesis, quando a palavra faz aparecer o que nomeia.
Contexto
Colossos ficava a uns cento e sessenta quilômetros de Éfeso, numa estrada que já tinha perdido prestígio para a vizinha Laodiceia. Cidade em declínio, população mista de frígios, gregos e judeus, tecelagem de lã tingida, cultos locais em abundância. A igreja nasceu ali sem Paulo: foi Epafras quem levou o evangelho, como o versículo 7 registra. Isso importa para entender por que Paulo abre com credencial. Ele escreve a pessoas que não lhe devem nada afetivamente, e que estavam sendo pressionadas por ensinos sobre anjos, ascetismo e sabedoria superior. Numa cultura em que a autoridade vinha da presença física, do carisma e da rede de relações, um homem ausente e algemado precisa apoiar-se em algo que não seja ele mesmo. Apoia-se na vontade de Deus.
A Pergunta
Se Paulo é apóstolo pela vontade de Deus, e é por essa mesma vontade que está preso, escrevendo em vez de pregando, o que fazemos com a parte da vontade divina que fecha portas? A carta não resolve isso com conforto barato. Mais adiante Paulo dirá "Regozijo-me agora no que padeço por vós", frase que não explica o sofrimento, apenas o coloca dentro de um propósito maior que ele não controla nem enxerga por inteiro. E é honesto reconhecer: a mesma vontade que chama é a vontade que limita. Não temos acesso ao critério. O que temos é a evidência de que a carta chegou, que ela atravessou dois mil anos, e que a cela onde foi escrita virou pó. Isso não é resposta. É apenas motivo suficiente para não soltar a mão.
Reflexão
O que sustentaria a sua identidade se, como Paulo, você perdesse amanhã toda a possibilidade de exercer aquilo que hoje o define?
Em que área da sua vida você tem tratado a vocação como conquista pessoal, e o que mudaria se ela fosse, de fato, "pela vontade de Deus"?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz." Repare: foi Ele quem te fez idôneo. Você não se qualificou, não somou méritos suficientes. E já existe uma parte que te cabe, com teu nome. Talvez hoje você se sinta o menos digno da sala. A herança não depende disso.
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