Êxodo 37
O Texto
Bezalel constrói, peça por peça, o mobiliário do interior do santuário: a arca de madeira de acácia revestida de ouro por dentro e por fora, com suas argolas e varais; o propiciatório de ouro puro com dois querubins martelados de uma só peça, asas estendidas e rostos voltados para baixo; a mesa com seus utensílios; o candelabro de ouro batido com sete lâmpadas e seus cálices em forma de amêndoa; e o altar do incenso, também com varais. No fim, o óleo santo da unção e o incenso aromático, "de obra do perfumista".
O Cerne
Um capítulo inteiro de medidas e metais. Nenhuma ação dramática, nenhum discurso. E, no entanto, isto é teologia densa. Deus não deixou ao gosto humano a maneira de se aproximar dele. Cada centímetro é prescrito, e Bezalel apenas executa. O que se diz aqui sobre Deus é duplo e aparentemente contraditório: ele quer habitar no meio de um povo recém-saído da escravidão, e ao mesmo tempo essa presença é tão perigosa que precisa de uma tampa, de querubins guardiões, de sangue anual, de ouro puro em cada superfície tocável. A graça, neste capítulo, tem forma, peso e medida. Não é um sentimento vago de que Deus é bonzinho, mas uma engenharia da misericórdia.
O Fio Condutor
O propiciatório é a peça que carrega o peso do Evangelho. É a tampa da arca, o lugar onde o sangue era aspergido, e a Septuaginta o chamou de hilastērion. Paulo usa exatamente essa palavra para Jesus em Romanos 3.25: Deus o "propôs como propiciação pelo seu sangue". Ou seja: o que aqui é ouro batido, ali é carne. A tampa que cobria a lei acusadora torna-se uma pessoa. Note também o padrão da madeira de acácia revestida de ouro, matéria comum do deserto envolvida em glória, presente na arca, na mesa e no altar do incenso. Não force a imagem, mas ela ressoa: Deus escolhe unir o durável e o humilde. E os varais nunca retirados dizem que essa presença caminha, não se hospeda num templo estático.
O Espelho
Você provavelmente não tem problema em crer que Deus perdoa em geral. O problema aparece quando o perdão precisa de forma concreta: a conversa que você adia com seu irmão, a dívida que você fingiu não existir, o e-mail agressivo que enviou às onze da noite e nunca mencionou. Este capítulo é impaciente com religiosidade abstrata. Deus mandou fazer objetos, com medidas, com peso de ouro contado em talentos. Havia custo, trabalho, prestação de contas. Pergunte-se onde a sua fé tem contornos assim, e onde ela virou só disposição interior. E pergunte também: você acredita mesmo que precisa de uma cobertura? Ou vive supondo que sua consciência relativamente tranquila basta para estar diante do Santo?
O Protagonista
Bezalel é o único nome próprio do capítulo, repetido logo no primeiro versículo, e depois desaparece atrás dos verbos: fez, cobriu, fundiu, meteu. Um artista que não assina a obra. Ele havia sido descrito antes como cheio do Espírito de Deus para trabalhar em ouro e madeira, e é notável que a primeira pessoa da Bíblia de quem se diz isso não é profeta nem sacerdote, mas artesão. Seu retrato espiritual é feito de precisão e submissão: ele tem talento de sobra para melhorar o projeto e não melhora nada. Faz o candelabro de uma peça só batida, trabalho de meses, sabendo que quase ninguém o veria. Há uma santidade discreta em fazer bem aquilo que Deus mandou, sem alterar a planta.
O Perfil
Imagine ouvir isto acampado no Sinai, com a areia entrando em tudo, sem casa, sem terra, sem templo. Vocês vinham do Egito, onde os deuses moravam em templos de pedra que atravessavam séculos e onde vocês fabricavam tijolos para os outros. Agora o ouro que os egípcios lhes deram vira mobiliário para o Deus que os libertou, e esse Deus manda instalar varais em tudo, porque vai se mudar junto com vocês. Para escravos libertos, isso era escandaloso e consolador ao mesmo tempo: nenhum deus se rebaixa a acampar. E o candelabro em forma de árvore florida, com amêndoas e flores, num deserto sem árvore alguma, dizia silenciosamente que a vida ainda era possível.
A Pergunta
Por que Deus exige tanto ouro de um povo faminto no deserto? A pergunta é justa e o texto não a responde. Poderíamos dizer que o luxo aponta para o valor da presença divina, e isso é verdade, mas não elimina o desconforto: talentos inteiros de ouro trancados num quarto onde ninguém entra. Talvez o incômodo seja o ponto. A religião que só calcula utilidade nunca entenderá adoração, nem o perfume derramado sobre os pés de Jesus. Ainda assim, deixo a tensão aberta, porque os profetas depois usariam essa mesma tensão para dizer que Deus prefere justiça a sacrifício. As duas coisas estão na Bíblia, e não devemos resolver uma anulando a outra.
Reflexão
Onde a sua fé ainda é apenas disposição interior, sem forma, custo ou medida concreta nesta semana?
Se Cristo é o propiciatório, o que muda na maneira como você entra na presença de Deus na sua oração de amanhã cedo?
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Perguntas frequentes sobre Exodus 37
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, quero que a minha vida tenha um perfume que agrade a ti. Ensina-me a cuidar das pequenas tarefas com o mesmo carinho de quem prepara algo santo. Que o que eu faço em silêncio, sem ninguém ver, seja oferta agradável diante de ti.
O altar do incenso, lugar da oração, recebeu argolas: "para nelas se meterem os varais, para com eles ser levado". Ou seja, o lugar de orar não ficou preso a um endereço. Ele viajava com o povo pelo deserto. Sua vida de oração também não depende do lugar certo. Ela vai com você, hoje, onde você estiver.
De ouro puro a cobriu e lhe fez uma bordadura de ouro ao redor." Uma simples borda na mesa, para que os pães não caíssem. Quase ninguém veria aquilo. Mesmo assim, Bezalel trabalhou o ouro ali. Talvez Deus esteja te chamando a cuidar bem daquele detalhe que só você conhece.
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