Isaías 22
O Texto
Um oráculo sobre o "valle da visão", isto é, sobre a própria Jerusalém: a cidade está nos telhados, mas não para vigiar e sim para festejar, enquanto seus príncipes fogem e são amarrados sem que houvesse batalha digna do nome. O profeta chora, descreve o cerco que se aproxima com carros e escudos, e acusa o povo de contar casas, reforçar muros e represar águas sem jamais olhar para cima. No fim, o oráculo se estreita até um único homem, Sebna, o mordomo que esculpia o próprio túmulo na rocha, deposto e substituído por Eliaquim, a quem Deus entrega a chave da casa de Davi; e mesmo esse prego firme, avisa o texto, um dia cairá.
O Cerne
O pecado que Deus declara imperdoável aqui não é idolatria explícita nem injustiça social, e é isso que assusta. É competência sem oração. Jerusalém faz tudo certo do ponto de vista da engenharia militar: inspeciona as brechas, demole casas para reforçar a muralha, constrói um reservatório entre os dois muros. O veredito vem em meia linha: "porém não olhastes acima para o que fez isto, nem considerastes o que o formou desde a antiguidade". A cidade administrou a crise sem consultar o autor da crise. E quando Deus convoca ao pranto e ao saco de cinza, responde-se com carne e vinho: "Comamos e bebamos, porque ámanhã morreremos". Paulo cita exatamente essa frase em 1 Coríntios 15 como o lema lógico de quem não crê na ressurreição. Aqui, porém, ela sai da boca de gente que ainda se diz do povo de Deus. Fatalismo alegre é ateísmo com boa mesa.
O Fio Condutor
O versículo 22 é o ponto onde este capítulo furioso se abre para o evangelho: "E porei a chave da casa de David sobre o seu hombro, e abrirá, e ninguem fechará, e fechará, e ninguem abrirá". João ouve essa frase e a coloca na boca de Cristo, na carta a Filadélfia (Apocalipse 3:7), quase sem retoque. Ou seja: o cargo de mordomo do palácio, aquele funcionário que decidia quem entrava na presença do rei, virou imagem da autoridade do Filho. E note a honestidade cruel do texto: o próprio Eliaquim falha. O prego firme, no qual pendurou-se "toda a honra da casa de seu pae", desde as taças até os odres, arrebenta sob o peso e cai. Todo administrador humano quebra quando a família inteira se pendura nele. Só um levou o peso de uma casa inteira sobre os ombros sem partir, e o fez numa cruz.
O Espelho
Você provavelmente não festeja em telhados, mas sabe muito bem o que é administrar uma crise sem orar por ela. O diagnóstico chega e você já está no terceiro médico antes de ter dito uma palavra a Deus. A empresa aperta e você refaz a planilha, corta gastos, reforça o muro, conta as casas. Nada disso é errado; Jerusalém não é repreendida por consertar a muralha, é repreendida por consertar a muralha como se ninguém estivesse por trás daquilo. E há o outro lado, o de Sebna: a energia que gastamos esculpindo um túmulo bonito, a preocupação com como seremos lembrados no trabalho, na igreja, entre os filhos. Hoje, antes de dormir: escreva num papel a situação que você está gerenciando neste momento e diga em voz alta, olhando para o papel, "Senhor, o que estás fazendo nisto?". Depois faça a próxima ligação.
A Personagem Principal
Sebna aparece com título antes de nome próprio: tesoureiro, mordomo. É o homem que controla o acesso, a agenda e o cofre. O texto não lhe dá pai, o que é notável quando o sucessor vem apresentado como "Eliakim filho d'Hilkias"; Sebna parece um homem sem raiz que compensou isso com pedra. Ele cava a própria sepultura num lugar alto, entre os túmulos da nobreza, e tem "carros da tua gloria", carruagens de aparato. Sua religião é a permanência: quero que meu nome fique gravado na rocha. Deus responde com uma imagem quase humilhante, de bola rolando em terra larga. Nada de sepultura em Jerusalém, nada de inscrição. O homem que quis fixar-se para sempre acaba sendo o mais móvel dos objetos.
O Perfil
Quem ouviu isso reconhecia cada obra citada. O reservatório, o canal entre os dois muros, as casas derrubadas para engrossar a muralha: era a política de defesa da cidade, orgulho nacional, provavelmente celebrada nos discursos oficiais. E era eficiente; a cidade sobreviveu. Ouvir um profeta chamar tudo isso de cegueira, no meio da euforia da sobrevivência, era escandaloso. Mais escandaloso ainda era ouvir um ministro do governo chamado pelo nome, com previsão de demissão e exílio. Imagine alguém subindo ao púlpito no domingo e citando o cargo e o sobrenome de um secretário presente na plateia. Isaías não faz crítica genérica ao "pecado do povo"; ele endereça.
Contexto
O pano de fundo mais provável é a campanha assíria de Senaqueribe, por volta de 701 a.C., quando Judá viu suas cidades caírem e Jerusalém foi cercada. Elão e Quir são contingentes recrutados no exército imperial: povos do outro lado do mundo conhecido, aparecendo diante dos portões. "Valle da visão" é ironia, já que Jerusalém está sobre colinas; a cidade da revelação tornou-se um vale sem horizonte. Os telhados eram planos, lugar de dormir no calor e de olhar para longe, e por isso mesmo o lugar natural para a vigília ou para a festa. Jerusalém escolheu a festa. E os príncipes amarrados sem batalha antecipam algo pior, que só se cumpriria em 586, quando Zedequias fugiu e foi capturado exatamente assim.
Reflexão
Qual crise da sua vida você está gerenciando com competência e sem oração, e o que exatamente você teme ouvir se perguntar a Deus o que ele está fazendo ali?
Que "sepultura na rocha" você anda esculpindo, isto é, que legado ou reputação você quer garantir, e o que aconteceria com sua paz se ele fosse rolado como bola em terra larga?
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