Apocalipse 2:7
O Texto
O leitor da carta chega ao fim da mensagem para Éfeso e a voz muda de tom: já não é a igreja de Éfeso que é chamada pelo nome, é qualquer pessoa com ouvidos. "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espirito diz ás egrejas", diz o texto, no plural, como se a carta endereçada a uma cidade fosse de repente aberta e lida em voz alta em todas as outras. E então vem a promessa, curta como uma sentença de tribunal invertida: ao vencedor será dado comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus. O jardim de onde o homem foi expulso volta a ser mencionado, e desta vez a porta não está guardada por uma espada.
O Cerne
O que aqui se diz sobre Deus é desconcertante pela sua economia. Cristo acaba de ameaçar remover o candeeiro de Éfeso; no versículo seguinte estende a mão com o fruto que Adão nunca chegou a provar. A mesma boca que adverte é a que promete, e isso não é contradição, é a forma como a graça funciona quando é séria. Note-se também quem fala: Jesus dita, mas o texto diz que é "o Espirito" que fala às igrejas. A palavra do Ressuscitado chega ao ouvido humano pelo Espírito, o que significa que estas cartas não são arqueologia religiosa mas voz presente. E o vencer não é heroísmo espiritual: é permanecer, arrepender-se, voltar ao primeiro amor. A vitória consiste em não largar aquele que já venceu.
O Fio Condutor
Há duas árvores no princípio da Bíblia e apenas uma no fim. Em Gênesis, depois da desobediência, Deus coloca querubins e uma espada flamejante para guardar o caminho da árvore da vida, e o silêncio que se segue dura milhares de páginas. Ninguém come daquele fruto. Israel recebe a terra, o templo, a lei, mas não a árvore. E então um homem é pregado num madeiro fora dos muros de Jerusalém, e a espada que guardava o jardim encontra finalmente alguém em quem cair. É por isso que a promessa a Éfeso não é sentimental: o direito de comer daquele fruto foi comprado. Quando Cristo diz "dar-lhe-hei a comer", fala como quem tem a chave do jardim no bolso porque pagou o preço da entrada com o próprio corpo.
O Espelho
Éfeso trabalhava bem. Detectava falsos apóstolos, aguentava pressão, não se cansava. Se houvesse relatórios anuais de igrejas, o de Éfeso seria exemplar. E é precisamente a essa igreja competente que o Senhor diz: perdeste o primeiro amor. Reconhece-se nisso quem continua a servir na equipa de louvor sem saber quando foi a última vez que rezou sozinho; quem prepara o estudo bíblico da quinta-feira e não abre a Bíblia para si próprio; quem é rigoroso com a doutrina alheia e frio no casamento. O texto não manda trabalhar mais. Manda lembrar, arrepender-se e voltar a fazer as primeiras obras. Hoje, antes de dormir: escreva numa folha uma coisa concreta que fazia por Jesus quando a fé era nova e já não faz, e faça-a esta semana com data marcada.
O Intertexto
Duas passagens iluminam este versículo. A primeira é o fecho do Apocalipse, onde a árvore da vida reaparece na cidade, dando fruto todos os meses e folhas para a cura das nações: a promessa a um punhado de crentes efésios acaba por ser a paisagem final de toda a criação. A segunda é o refrão de Jesus nos evangelhos, "quem tem ouvidos para ouvir, ouça", pronunciado depois das parábolas. É a mesma frase, a mesma voz. Quem ouviu Jesus falar de sementes na Galileia ouve agora a mesma advertência a partir da glória: a palavra não se impõe, exige um ouvido disposto. Nem toda a gente que ouve escuta, e a diferença entre os dois é a diferença entre comer e não comer.
Contexto
Éfeso era uma cidade de trezentos mil habitantes, porto movimentado, sede do templo de Ártemis, uma das maravilhas do mundo antigo. Havia dinheiro, peregrinos, ourives, festivais. Ser cristão ali significava recusar-se a participar naquilo que fazia a cidade girar, e isso custava clientes, convites e segurança. A igreja tinha já uma geração: fundada por Paulo, pastoreada depois por outros, com memória de tempos fervorosos. Agora era madura, organizada, vigilante, e cansada de um cansaço que ninguém confessa. João escreve de Patmos, exilado, e as sete cartas circulavam provavelmente pela estrada que ligava as cidades por ordem, lidas em voz alta na assembleia. Imagine o silêncio na sala quando alguém lê, diante de todos, que o candeeiro pode ser removido.
O Detalhe
Repare onde está a árvore: "no meio do paraiso de Deus". No meio, não à entrada, não num canto reservado. Em Gênesis, a árvore da vida está igualmente no meio do jardim, e ao lado dela a outra árvore, a proibida, e é essa que ocupa o centro do desejo humano. O drama do princípio foi um centro trocado. Aqui, no fim, resta apenas uma árvore no meio, e ela é dada, não roubada. O verbo é decisivo: "dar-lhe-hei a comer". Adão estendeu a mão; ao vencedor a mão será estendida. Toda a diferença entre religião e evangelho cabe nessa inversão de gestos.
Reflexão
Se Cristo lhe dissesse hoje "sei as tuas obras", o que ficaria de pé, e o que Ele veria por trás delas?
Qual foi a primeira obra que o amor lhe fez fazer, e o que a substituiu?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Senhor, tu conheces o que ninguém vê em mim, os motivos escondidos por trás do que faço. Não quero aparentar uma fé que não vivo. Sonda o meu coração e me ajuda a andar com verdade, sabendo que cada escolha minha importa diante de ti.
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