Explicação bíblica

Isaías 39

Bíblia
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O Texto

Depois da doença e da cura, chegam cartas e um presente de Babilônia. Ezequias, lisonjeado, abre tudo: tesouro, prata, ouro, especiarias, a casa de armas, "coisa nenhuma houve, nem em sua casa, nem em todo o seu dominio, que Ezequias lhes não mostrasse". Isaías aparece com três perguntas curtas e depois com uma sentença: tudo aquilo será levado para Babilônia, e também os filhos. E Ezequias responde que a palavra é boa, desde que haja paz nos seus dias.

O Núcleo

Repare na repetição. Ezequias mostra tudo, e o Senhor anuncia que nada ficará: "não ficará coisa alguma, disse o Senhor". A frase do rei volta como eco invertido na boca do profeta. É como se o julgamento não acrescentasse nada de fora, apenas devolvesse ao rei a forma exata do seu próprio gesto. Quem exibe tudo perde tudo. Não porque Deus seja mesquinho com bênçãos, mas porque aquele tesouro havia sido guardado por gerações ("o que enthesouraram teus paes até ao dia d'hoje") como depósito de um povo que devia confiar no Senhor dos Exércitos, não no efeito que causa nos embaixadores estrangeiros. O capítulo não descreve um pecado espetacular. Descreve algo mais silencioso: a confiança que se desloca sem que ninguém perceba o momento da mudança.

O Fio Condutor

Isaías 39 é a dobradiça do livro. Até aqui, Babilônia era uma curiosidade distante, "d'uma terra remota"; a partir daqui, é o horizonte do exílio, e os capítulos seguintes falarão de consolo a um povo já levado. O anúncio dos filhos que serão eunucos no palácio do rei de Babilônia abre o espaço onde, mais tarde, ressoará a promessa de um Servo que também será levado e do qual se dirá que não teve descendência. O contraste é o fio: Ezequias perde os filhos porque quis mostrar o seu tesouro; Cristo entrega-se sem ter onde recostar a cabeça e ganha uma descendência que ninguém pode contar. Entre os dois reis de Judá, um exibe e perde, o outro esvazia-se e recebe.

O Espelho

A pergunta de Isaías é desconfortavelmente doméstica: "Que é o que viram em tua casa?" Não pergunta pelos tratados nem pela política. Pergunta o que os outros viram quando entraram. Talvez seja a pergunta certa para nós também. O que as pessoas veem quando entram na sua casa, no seu perfil, na sua conversa depois do culto? A doença de Ezequias havia acabado de mostrar-lhe que ele não controlava nem o próprio pulmão; três semanas depois, ele está a abrir gavetas para impressionar visitantes. Nós fazemos o mesmo com a recuperação de uma crise: mal sobrevivemos, já queremos contar como sobrevivemos bem. Hoje, antes de dormir, escreva num papel uma coisa sua que você tem gosto em mostrar aos outros, e depois diga em voz alta ao Senhor: isto é teu, não é minha defesa.

O Protagonista

Ezequias é um dos reis fiéis, e é por isso que este capítulo dói. Ele orou nos dias de Senaqueribe, ele chorou na doença, ele conhecia Isaías pelo nome. E termina o seu livro com uma frase que gela: "Pois haja paz e verdade em meus dias." Há nela uma piedade genuína, ele aceita a palavra, não discute, não negocia. E há nela um encolhimento terrível do coração: o horizonte da esperança reduzido ao tamanho de uma biografia. Os filhos ficam do lado de fora dessa paz. Ezequias não é um vilão; é um homem cansado que já gastou a sua coragem e agora só quer que o resto da conta caia depois da sua morte. Quantos de nós oramos assim, sem dizer.

A Pergunta

A palavra é boa? Ezequias diz que é: "Boa é a palavra do Senhor que disseste." Como pode ser boa uma sentença que entrega os netos a um palácio estrangeiro, castrados? O texto não explica. Não diz se Ezequias falou por fé madura ou por alívio egoísta, e a ambiguidade parece deliberada. O leitor fica com as duas possibilidades nas mãos, e com a suspeita de que ambas coexistem no mesmo homem, como coexistem em nós. Talvez seja isto que o silêncio do texto nos dá: a recusa de resolver se somos crentes ou covardes. Deus não corrige a resposta do rei. Simplesmente deixa-a ali, e o livro continua, e o consolo do capítulo seguinte é dirigido a pessoas que já perderam tudo.

O Intertexto

Duas ressonâncias ajudam. Primeiro, Deuteronômio 17, onde a lei do rei proíbe justamente o acúmulo de prata e ouro e o olhar voltado para os impérios; o que Ezequias mostra com orgulho é exatamente o que o rei de Israel não devia ter. Segundo, Daniel 1, onde aparecem jovens de estirpe real de Judá servindo no palácio da Babilônia. A palavra de Isaías cumpre-se num nome, num rosto, e o leitor que atravessa as Escrituras encontra ali o eco desta tarde de exibição em Jerusalém. Deus fala, e o tempo obedece lentamente, geração após geração, muito depois de o homem que ouviu já ter tido a sua paz.

Reflexão

Onde, na sua vida, você já orou sem dizer "haja paz em meus dias", deixando o preço para os que vêm depois?

Se Isaías entrasse hoje e perguntasse "que é o que viram em tua casa?", o que você teria vergonha de ter mostrado, e por quê?

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Perguntas frequentes sobre Isaiah 39

Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.

O que significa Isaías 39?
Depois da doença e da cura, chegam cartas e um presente de Babilônia. Ezequias, lisonjeado, abre tudo: tesouro, prata, ouro, especiarias, a casa de armas, "coisa nenhuma houve, nem em sua casa, nem em todo o seu dominio, que Ezequias lhes não mostrasse". Isaías aparece com três perguntas curtas e depois com uma sentença: tudo aquilo será levado para Babilônia, e também os filhos.
Sobre o que fala Isaías 39?
Isaías 39 é a dobradiça do livro. Até aqui, Babilônia era uma curiosidade distante, "d'uma terra remota"; a partir daqui, é o horizonte do exílio, e os capítulos seguintes falarão de consolo a um povo já levado.
Qual é o contexto histórico de Isaías 39?
Ezequias é um dos reis fiéis, e é por isso que este capítulo dói. Ele orou nos dias de Senaqueribe, ele chorou na doença, ele conhecia Isaías pelo nome. E termina o seu livro com uma frase que gela: "Pois haja paz e verdade em meus dias." Há nela uma piedade genuína, ele aceita a palavra, não discute, não negocia.
O que Isaías 39 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Duas ressonâncias ajudam. Primeiro, Deuteronômio 17, onde a lei do rei proíbe justamente o acúmulo de prata e ouro e o olhar voltado para os impérios; o que Ezequias mostra com orgulho é exatamente o que o rei de Israel não devia ter. Segundo, Daniel 1, onde aparecem jovens de estirpe real de Judá servindo no palácio da Babilônia.
Como Isaías 39 continua relevante hoje?
Se Isaías entrasse hoje e perguntasse "que é o que viram em tua casa?", o que você teria vergonha de ter mostrado, e por quê?

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