Jeremias 33:3
O Texto
Jeremias está preso no pátio da guarda, em Jerusalém cercada, e a palavra do Senhor vem a ele uma segunda vez. Deus se apresenta primeiro como aquele que faz, forma e confirma, e só depois faz o convite: "Clama a mim, e responder-te-hei, e annunciar-te-hei coisas grandes e firmes que não sabes." O versículo seguinte já fala de casas derribadas com trabucos e à espada. Ou seja: a promessa de resposta é dada dentro do desastre, não depois dele.
O Núcleo
Há uma ordem aqui que importa. Deus não diz "clama e eu te tiro daí". Diz "clama e eu te anuncio". O que se promete é revelação, não resgate imediato. E o conteúdo dessa revelação já está indicado pelo versículo 2: o Senhor é aquele que faz, que forma, que confirma. Ele age quando parece que só os caldeus agem. A oração, nesse enquadramento, não é uma alavanca para mover Deus, mas o lugar onde Deus abre ao orante uma parte do seu propósito que o orante não conseguiria deduzir olhando o noticiário. Note o "que não sabes". Deus assume que existe uma distância real entre o que Jeremias entende e o que é verdade. Orar é consentir com essa distância.
O Fio Condutor
Se você continuar lendo o capítulo, descobre o conteúdo dessas coisas grandes: cura, perdão, o retorno da voz do noivo e da voz da esposa nas ruas desertas, e então o Renovo de justiça brotando de Davi, chamado "o Senhor justiça nossa". A resposta ao clamor de Jeremias, no fim, é uma pessoa. O que ele não sabia era que a linhagem aparentemente extinta produziria um rei cuja justiça seria dada ao povo como nome próprio. Isso amarra o versículo 3 ao Evangelho de um modo nada forçado: quando Deus responde a quem clama, ele responde em Cristo, dando o que não sabíamos pedir, porque nem sabíamos que existia.
O Espelho
Aqui o texto começa a incomodar. A maior parte das nossas orações é sobre coisas que já sabemos: o resultado do exame, a conta do mês, o filho que não fala com você, a reunião de segunda. Pedimos que Deus assine embaixo do plano que já traçamos. Este versículo oferece outra coisa, e por isso é mais perigoso: quem pede para saber o que não sabe está autorizando Deus a desmontar a sua leitura da própria vida. É pedir que ele diga algo sobre o seu dinheiro que você não quer ouvir, sobre a sua parte naquele conflito familiar, sobre o tempo que você gasta e chama de descanso quando é fuga. Jeremias clamou de dentro de uma prisão e recebeu uma promessa que não incluía a chave. Faça isto hoje: escreva numa folha de papel uma frase começando com "Senhor, o que eu não sei sobre…" e complete com a situação concreta que mais te aperta esta semana. Leia em voz alta, uma vez, e deixe o papel à vista.
A Pergunta
E se você clamar e não houver resposta? A pergunta é honesta e o texto não a resolve. Jeremias clamou muito e recebeu, em boa parte da sua vida, silêncio, desprezo e cisterna. As coisas grandes anunciadas no capítulo 33 se cumpriram, mas não na vida dele; ele morreu no Egito, longe das ruas onde voltaria a soar a voz da alegria. O convite "clama a mim" não vem com prazo. E aqui é preciso resistir ao consolo barato: a promessa é de que Deus fala, não de que ele fala quando queremos, nem que entenderemos o que ele disse enquanto ainda somos os cercados. O que resta é a identidade dele no versículo 2: o que forma isto, para o confirmar. Ele confirma. O quando fica com ele.
O Intertexto
Quatro capítulos antes, na carta aos exilados, Deus já havia dito que eles o invocariam e ele os ouviria, e que o buscariam de todo o coração. Ali a promessa é dirigida a um povo derrotado, longe de casa; aqui, a um profeta preso. As duas vezes, a oração aparece do lado errado da história, entre os que perderam. No Novo Testamento, o mesmo padrão retorna quando Paulo, também preso, escreve que Deus é capaz de fazer muito mais do que pedimos ou pensamos (Efésios 3.20). "Muito mais do que pensamos" é o eco exato de "coisas que não sabes". A oração cristã nasce em cativeiro e pede além da sua própria imaginação.
O Detalhe
"Coisas grandes e firmes." A palavra hebraica traduzida por "firmes" é betsurot, e vem da raiz usada para cidades fortificadas, muralhas inacessíveis. Jeremias está vendo as muralhas de Jerusalém caírem, casa por casa, sob os trabucos do versículo 4. E Deus escolhe justamente essa palavra: eu tenho coisas fortificadas para te anunciar. As suas fortalezas desabam; as minhas, não. O que Deus revela a quem clama não é informação frágil, é muralha. É a única coisa em Jerusalém que continuará de pé quando os babilônios terminarem o serviço.
Reflexão
Qual pedido meu, repetido há meses, talvez esteja me protegendo de ouvir algo que Deus quer me dizer?
Onde na minha vida eu confundi a queda das minhas muralhas com a ausência de Deus?
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Perguntas frequentes sobre Jeremiah 33:3
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