João 16:19
O Texto
Eles cochicham. Num canto da sala, enquanto Jesus fala, alguns discípulos se viram uns para os outros e repetem baixinho a frase que não conseguem decifrar: "Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis." Não perguntam a ele, perguntam entre si, como alunos que preferem o murmúrio ao constrangimento de admitir que não entenderam. E então vem o versículo 19: Jesus percebe. "Conheceu pois Jesus que lh'o queriam interrogar." Ele sabe o que está sendo sussurrado antes que alguém levante a mão, e faz algo que desarma qualquer um: coloca a pergunta deles na boca dele mesmo, devolvendo-lhes, palavra por palavra, exatamente aquilo que os confundia.
O Cerne
Há aqui uma revelação sobre Deus que passa despercebida porque está embrulhada num gesto quase banal. Jesus não espera que o discípulo formule corretamente a dúvida para só então respondê-la. Ele conhece a pergunta ainda meio engasgada, ainda envergonhada, ainda em estado de cochicho, e a trata como legítima. Isto é mais do que onisciência exibida; é pastoreio. O Deus que em João se revela como Verbo encarnado não exige que cheguemos até ele com o raciocínio arrumado. A confusão dos discípulos não é obstáculo à revelação, é o lugar onde a revelação acontece. E note o que Jesus não faz: não repreende a ignorância deles, não suspira, não diz "depois de tanto tempo ainda não entendem?". Ele simplesmente abre a porta pela qual eles não ousavam passar.
O Fio Condutor
O "um pouco" que eles não conseguem decifrar é a dobradiça de toda a história da salvação. Dois intervalos curtos: entre a prisão e o sepulcro, e entre o sepulcro e a manhã de domingo. Mas o padrão é mais antigo do que aquela noite. Israel conhecia de cor esse ritmo de ausência breve e retorno: Isaías fala de um pequeno momento em que Deus abandona para depois recolher com grande misericórdia, e os profetas descrevem o nascimento da era vindoura com a imagem de uma mulher em trabalho de parto, exatamente a figura que Jesus usará dois versículos adiante. Os discípulos cochicham sobre uma frase que, sem saberem, resume o Evangelho inteiro: Deus se esconde por um tempo medido, nunca indefinido. O sepulcro tem prazo. É por isso que Jesus não se irrita com a pergunta deles; ela toca o centro.
O Espelho
Existe uma pergunta que você não faz em voz alta. Talvez seja sobre o diagnóstico que chegou no mês passado, sobre o casamento que virou convivência educada, sobre por que você ora há sete anos pelo mesmo filho sem nenhum sinal. Você a comenta de lado, no carro, com um amigo, do jeito que os discípulos cochicharam entre si: "não sabemos o que diz". No grupo de estudo você faz a pergunta apresentável, a que não expõe. E há um orgulho escondido nisso, o orgulho de quem prefere parecer firme a parecer perdido diante de Deus. O versículo 19 desmonta esse cálculo. Ele já ouviu o cochicho. Ele já sabe. A única coisa que sua discrição protege é a sua imagem, não a paciência dele. Hoje, antes de dormir, diga em voz alta, sozinho num cômodo, a pergunta que você só tem sussurrado. Em voz alta mesmo, com as palavras exatas, sem arrumá-las.
O Protagonista
Jesus está a poucas horas da prisão. Sabe que será traído por um dos que acabaram de comer com ele, que Pedro vai negá-lo, que todos "serão dispersos cada um para sua parte" e o deixarão só. Qualquer pessoa carregando esse peso se fecharia, falaria em frases curtas, pediria silêncio. Ele faz o contrário: percebe que onze homens confusos querem perguntar algo e para tudo para atendê-los. Essa é a textura do seu coração. O conhecimento sobrenatural em João nunca serve para constranger; serve para alcançar. Ele conhece Natanael debaixo da figueira, conhece a vida da mulher samaritana, conhece agora o murmúrio dos discípulos, e em cada caso o conhecimento vira porta aberta, não acusação. Onisciência sem ternura seria terrível. Aqui ela é cuidado pastoral na véspera da cruz.
Contexto
É noite de Páscoa em Jerusalém, cidade inchada de peregrinos, cheiro de cordeiro assado e fumaça de lamparinas de barro nas ruas estreitas. Eles estão reclinados em torno de uma mesa baixa, no escuro parcial de um cômodo alto, com a guarnição romana da fortaleza Antônia vigiando o templo a poucos passos dali, como sempre fazia nas festas, quando o risco de revolta aumentava. Num ambiente assim, a proximidade física é total: você cochicha e o outro lado da mesa percebe. Some-se a isso o que Jesus acabara de dizer no versículo 2, que seriam expulsos das sinagogas. Para os primeiros leitores de João, décadas depois, isso não era metáfora: significava perder família, comércio, identidade pública. Eles liam este capítulo já tendo pago o preço.
O Intertexto
O arco se fecha no versículo 30. Depois que Jesus responde ao que eles não ousaram perguntar, os discípulos dizem: "Agora conhecemos que sabes todas as coisas, e não has mister de que alguem te interrogue." A confissão deles nasce precisamente deste gesto do versículo 19. Não foi um argumento que os convenceu, foi serem lidos por dentro e tratados com gentileza. O contraste mais duro está no versículo seguinte à confissão: Jesus responde "Crêdes agora?" e anuncia a dispersão. A fé que nasce de ser conhecido é verdadeira e, ainda assim, frágil. Ele sabe disso também, e mesmo assim não retira nada do que prometeu.
Reflexão
Qual pergunta você vem cochichando com outras pessoas em vez de levá-la diretamente a Deus, e o que exatamente você teme perder ao formulá-la em voz alta?
Onde, na sua vida, o "um pouco" parece estar se arrastando além da conta, e o que mudaria se você tratasse esse silêncio como prazo medido em vez de abandono?
Livros cristãos que valem a pena
Livros escolhidos a dedo, disponíveis no seu idioma.
À espera do Natal: 25 leituras de Advento, de 1 a 25 de dezembro, guiadas pelo livro de Lucas. Davi, Zacarias, Maria e José, uma pessoa de hoje por...
Uma defesa clara e acessível das verdades centrais da fé cristã que fortalece a mente e o coração.
Uma alegoria atemporal da jornada cristã que inspira perseverança diante das provações da vida.
Um testemunho profundamente pessoal da graça de Deus que ensina a buscar descanso somente em Cristo.
Um chamado corajoso a seguir Jesus com fidelidade, custe o que custar.
Um convite ardente a cultivar intimidade com Deus e sede pela Sua presença.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre John 16:19
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa João 16:19?
Sobre o que fala João 16:19?
Qual é o contexto histórico de João 16:19?
O que João 16:19 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como João 16:19 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre John 16
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Estas coisas vos tenho dito por figuras; chega a hora em que não vos falarei por figuras, mas abertamente vos falarei a respeito do Pai."
Jesus sabia que eles não estavam entendendo. E não os repreendeu por isso. Apenas prometeu: vem a hora da clareza.
Talvez hoje você só consiga ouvir por figuras. Tudo bem. A hora está chegando.
Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar." Repare que o Espírito não inventa novidade, Ele reparte o que já é de Cristo. E o que é de Cristo é tudo o que o Pai tem. Nada foi guardado longe de você. Será que sua sede é pequena demais?
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo
