João 5:24
O Texto
"Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê n'aquelle que me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condemnação, mas passou da morte para a vida." Jesus está diante de homens que querem matá-lo por causa de um paralítico curado num sábado, e em vez de se defender, faz uma promessa desproporcional: quem escuta a sua palavra e confia no Pai que o enviou já atravessou a fronteira. Não vai atravessar. Atravessou. O verbo está no passado, e é esse tempo verbal que carrega o peso de tudo. A morte fica para trás como uma margem que já não se pisa.
O Cerne
Repare no que Jesus não diz. Não diz que quem crê receberá vida eterna quando morrer, nem que escapará do juízo se perseverar bastante. Diz que a travessia já aconteceu, no instante em que a palavra foi ouvida e o Pai foi crido. A vida eterna, aqui, não é sobretudo duração; é qualidade de existência, é estar do lado de Deus da realidade. E o meio dessa travessia é surpreendentemente pequeno: ouvir. Não realizar, não subir, não merecer. Ouvir uma voz e confiar em quem a enviou. O paralítico de Betesda passou trinta e oito anos à espera de um movimento nas águas que nunca chegou a tempo. Depois uma voz falou, e a espera acabou. É esse o padrão que Jesus agora transforma em doutrina.
O Fio Condutor
Desde o Éden a Escritura conta a história de uma voz que cria e de uma morte que se instala quando essa voz é trocada por outra. Deus fala, e há luz. O homem escuta a serpente, e há morte. João conhece esse enredo: começou o seu evangelho com "no princípio". Aqui, no meio de um pátio de templo, o mesmo padrão é invertido: a voz volta a falar e a vida volta a acontecer. E o versículo seguinte estende isso até ao limite: "vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus". A ressurreição final e a fé de hoje são, para Jesus, o mesmo acontecimento em dois tempos. Quem crê já ouviu, no presente, a voz que um dia esvaziará os sepulcros. A promessa não é um acréscimo ao plano de Deus; é o plano a chegar ao seu ponto.
O Espelho
Há uma parte de nós que prefere viver de véspera. Ainda não sou o pai que devia ser, ainda não resolvi aquela dívida, ainda não perdoei aquela pessoa, ainda não sei se durarei na fé, e por isso trato a vida eterna como algo que ainda está a ser decidido, sujeita a revisão no fim do mês. Este versículo desmonta essa contabilidade. Se a travessia já aconteceu, então a sua ansiedade religiosa não é humildade: é desconfiança na palavra que o chamou. E, ao mesmo tempo, o texto não deixa espaço para leviandade, porque ouvir de verdade é confiar de verdade, e quem confia muda de margem, não de discurso. Hoje, ainda antes de dormir, diga em voz alta, sozinho, esta frase do texto na primeira pessoa: "passei da morte para a vida". Diga-a devagar, duas vezes. E fique em silêncio um minuto depois.
O Perfil
Os primeiros a ouvir isto eram judeus devotos, homens que sabiam de cor que só Deus dá vida e só Deus julga. Para eles, a vida do século vindouro estava garantida pela aliança, pela circuncisão, pela Torá guardada com cuidado. Ouvir um galileu dizer que a vida eterna passa por escutá-lo a ele, e que o Pai lhe entregou todo o juízo, não soava a boa notícia; soava a usurpação. E João escreve para uma segunda geração de ouvintes, cristãos judeus já expulsos das sinagogas, que perderam a pertença de sempre. Para esses, este versículo era chão firme debaixo de pés que tinham ficado sem casa: perderam a comunidade, mas não perderam a vida. Já a tinham, e ninguém lhes podia tirar aquilo que Jesus dava no passado do verbo.
Contexto
Estamos em Jerusalém, durante uma festa, provavelmente com a cidade cheia de peregrinos. Jesus acabou de fazer o que ninguém pede autorização para fazer: curou ao sábado e mandou o homem carregar a cama, ato visível, público, provocador. A reação não é curiosidade teológica, é ameaça de morte, e o texto diz isso sem rodeios: "procuravam matal-o". A ofensa maior não foi o sábado, mas a frase "Meu Pae obra até agora, e eu obro tambem". Num mundo onde a honra se recebia dos pares e a autoridade religiosa era também poder social e económico, Jesus fala como alguém sem credenciais e sem rede de proteção. É nesse clima de hostilidade, não num retiro sereno, que nasce a promessa mais consoladora do capítulo. Vale a pena notar isso.
A Pergunta
Se quem crê "não entrará em condemnação", como se entende, cinco versículos depois, que "os que fizeram o bem sairão para a resurreição da vida; e os que fizeram o mal para a resurreição da condemnação"? Jesus coloca as duas coisas lado a lado sem as harmonizar para nós. A tentação é escolher uma e domesticar a outra: ou a fé sem obras, ou as obras a decidirem tudo. O texto resiste às duas. Talvez porque, para João, uma fé que ouviu de verdade já começou a produzir uma vida diferente, e o juízo final não acrescentará nada, apenas mostrará o que já era. Talvez. Mas fica um resíduo de mistério que não convém varrer. Não sabemos exatamente onde termina o dom e começa a evidência do dom, e é possível que essa ignorância nos seja saudável: impede-nos de dormir descansados sobre uma certeza barata e de trabalhar aterrorizados por uma insegurança sem fim. O que resta é a voz. Ouvir, e continuar a ouvir.
Reflexão
Se a travessia da morte para a vida já aconteceu em mim, o que é que eu continuo a viver como se ainda estivesse a ser decidido?
Onde é que, hoje, tenho estado à espera de um movimento nas águas, quando a voz já falou e eu ainda não me levantei?
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Trinta e oito anos deitado ali, e Jesus pergunta: "Queres ser são?" Parece pergunta desnecessária. Mas há dores com que a gente se acostuma, queixas que já viraram identidade. Ser curado significaria levantar, andar, assumir a vida de novo. Ele não te levanta à força. Ele pergunta. E espera tua resposta.
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