Juízes 7
O Texto
Gideão acampa junto à fonte de Harode com trinta e dois mil homens, e Deus lhe diz que são gente demais. Não pouca: demais. Duas peneiras depois, uma pelo medo confessado e outra pelo modo estranho de beber água, restam trezentos, e é com esses trezentos que o Senhor promete entregar Midiã. Na véspera, Deus manda o próprio Gideão descer às sentinelas inimigas para ouvir um midianita contar o sonho de um pão de cevada que rola pelo acampamento e derruba as tendas; Gideão ouve, e adora. Depois vêm as buzinas, os cântaros quebrados, as tochas na mão esquerda, o grito no meio da noite, e um exército imenso que se volta contra si mesmo e foge.
O Cerne
"Muito é o povo que está contigo." A frase deveria ser boa notícia e é justamente o problema. Deus não teme a derrota de Israel; teme a vitória de Israel, porque uma vitória grande demais produziria uma frase pequena demais: "A minha mão me livrou." Existe um tipo de sucesso que apaga Deus do relato do próprio sucesso. Por isso a subtração. Note que Deus não fortalece os trezentos, não lhes dá armas melhores, não os treina; simplesmente reduz até que nada na aritmética explique o que vai acontecer. E repare no que sobra nas mãos deles: buzinas, cântaros vazios, tochas. Nenhuma espada mencionada. A salvação, quando chega, chega de fora, e a única coisa que os homens fazem é fazer barulho e quebrar o que os cobria.
O Fio Condutor
Um pão de cevada rolando morro abaixo. Cevada era o grão dos pobres, o pão de quem não tinha trigo, e é essa migalha que derruba as tendas de um exército inumerável. A Bíblia volta a esse padrão tantas vezes que ele deixa de ser exceção e vira método: Deus salva por meio do que é pequeno demais para levar o crédito. Paulo dirá séculos depois que Deus escolhe o fraco para envergonhar o forte, e que carregamos o tesouro em vasos de barro, precisamente para que a força seja de Deus e não nossa. Difícil não ver, nos cântaros quebrados de Harode, a antecipação de um corpo partido na escuridão, e a luz que só aparece porque o vaso se rompeu. O padrão termina numa cruz. Ali também parecia haver gente demais do lado errado.
O Espelho
Você provavelmente não conta soldados, mas conta outras coisas. O saldo no fim do mês. O número de pessoas que prometeram ajudar no projeto. Os anos de experiência que colocam você acima do colega mais novo. A saúde que ainda responde. Nada disso é pecado; a pergunta é o que acontece quando dá certo. Qual será a frase que você vai dizer no jantar, ou pensar sem dizer? Há uma versão religiosa de "a minha mão me livrou" que agradece a Deus em voz alta e credita a si mesma em silêncio. E há o inverso: o pavor de que Deus tire justamente a margem de segurança que você juntou com tanto esforço. Ele às vezes tira. Hoje, pegue um papel e escreva os três números em que você mais se apoia nesta semana; ao lado de cada um, escreva "não é isto que me livra". Guarde o papel na carteira.
O Perfil
O nome do lugar já diz alguma coisa: Harode vem de uma raiz hebraica que significa tremer. Israel acampa na fonte do tremor, e a primeira ordem de Deus é dispensar os que tremem. Quem ouvia essa história pela primeira vez conhecia Midiã de perto: os camelos, as colheitas roubadas, os anos de esconderijo. Sabiam o que era ver o trabalho de um ano desaparecer no vale. E ouviam a história já sabendo o fim do livro dos Juízes, aquela espiral em que cada libertação é seguida de mais decadência. Para eles, este capítulo não era um conto de heroísmo militar. Era um argumento sobre memória: um povo que esquece quem o livrou volta a precisar ser livrado. Israel guardou o nome de Gideão. Guardou melhor o nome do Senhor?
O Protagonista
Deus é o protagonista, mas o retrato mais comovente é o que ele faz com o medo de Gideão. Depois de reduzir o exército a trezentos, o Senhor diz: "Levanta-te, e desce ao arraial, porque o tenho dado na tua mão." E então, sem repreensão nenhuma, acrescenta: "se ainda temes descer, desce tu e teu moço Pura." Não há ironia ali. Deus dispensou os medrosos do exército e mantém o medroso no comando, e ainda lhe dá companhia, um rapaz cujo nome o texto se dá ao trabalho de registrar. Gideão desce, ouve um estranho contar um sonho, e adora. Não grita, não convoca ninguém primeiro: adora, sozinho, no escuro, perto das sentinelas inimigas. Talvez seja esse o momento mais silencioso do capítulo, e o mais decisivo.
O Intertexto
Jônatas, em 1 Samuel 14, sobe sozinho com seu escudeiro contra uma guarnição filisteia dizendo que nada impede o Senhor de salvar com muitos ou com poucos, e ali também o pânico se espalha e os inimigos se ferem uns aos outros. O eco é claro demais para ser acidente. Mas o contraste mais duro está a um capítulo de distância: o mesmo Gideão que adorou no escuro fará depois um éfode de ouro, e Israel se prostituirá diante dele. A lição de Harode não se fixa nem no homem que a recebeu. O que Deus tira do exército, o coração tende a reconstruir em ouro.
Reflexão
O que você contaria primeiro, se amanhã tudo desse certo: o que você fez, ou o que recebeu?
Onde, na sua vida, Deus parece estar subtraindo, e você ainda insiste em chamar isso de perda?
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Perguntas frequentes sobre Judges 7
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque na hora da vitória chamaste também Efraim para descer e guardar as águas até Bete-Bara. Tu não me deixas lutar sozinho: levantas irmãos que atendem ao chamado e seguram a parte que eu não alcanço. Grato por cada um deles.
Obrigado, Senhor, porque o Senhor viu aquele vale cheio de midianitas, "como gafanhotos em multidão", e mesmo assim não recuou. Quando o que me ameaça parece inumerável como a areia da praia, o Senhor continua sendo maior. Obrigado por não contar exércitos para me salvar.
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