Lucas 17:11
O Texto
Uma única frase de trânsito: Jesus está a caminho de Jerusalém e atravessa a faixa de terra entre a Samaria e a Galileia. Nada acontece ainda. Ninguém fala, ninguém é curado, ninguém discute. Lucas apenas nos informa de onde vem o Senhor e para onde vai, e regista que o caminho passou "pelo meio" de duas regiões que se detestavam. É um versículo que a maioria dos leitores atravessa com a mesma pressa com que imagina Jesus a atravessar aquele terreno. Mas Lucas não desperdiça frases de ligação. Antes dos dez leprosos, antes do samaritano que volta, ele quer que saibamos exatamente onde estamos: numa fronteira, com Jerusalém no horizonte.
O Cerne
Deus escolhe caminhos que nós contornaríamos. A expressão "pelo meio" descreve uma terra de ninguém, onde a identidade de cada um fica menos nítida, onde judeus e samaritanos se cruzavam sem se reconhecerem como próximos. É precisamente aí que o Senhor caminha, e é precisamente aí que a misericórdia vai acontecer. Há algo profundamente revelador nisto: a salvação não se desloca de centro em centro, de templo em templo, de gente respeitável em gente respeitável. Ela desce pela margem. E há um segundo fio, mais sombrio: o destino é Jerusalém, e o leitor de Lucas já sabe o que ali espera. Cada passo por esta zona fronteiriça é um passo em direção à cruz. A misericórdia que se derrama pelo caminho custa alguma coisa a quem caminha.
O Fio Condutor
Lucas já nos avisou, capítulos antes, que Jesus "firmou o rosto" para ir a Jerusalém. Desde então, tudo o que acontece acontece a caminho. Este versículo é mais um marco nessa longa subida, e a geografia torna-se teologia: o Filho do homem vai para o lugar onde será rejeitado, e faz o percurso passando por onde vive gente que também é rejeitada. Há no Antigo Testamento um Deus que insiste em descer, que visita Agar no deserto e Elias na fenda da rocha, que aparece onde ninguém instalaria um santuário. Aqui esse mesmo Deus caminha com pés cansados por uma faixa de terra desprezada. O fio que atravessa toda a Escritura não é a subida do homem até Deus, mas a descida de Deus até ao meio.
O Espelho
Todos nós temos as nossas Samarias, aquelas zonas do mapa pessoal que contornamos: o colega cuja política nos irrita, o familiar que magoou e nunca pediu desculpa, o bairro por onde não passamos, a conversa que adiamos há três anos. Não são decisões conscientes; são rotas que o coração desenhou sozinho e que os pés seguem sem perguntar. E depois há a outra pergunta, mais incómoda: quando é que eu deixei de reparar em quem grita de longe? Jesus não desviou. Escolheu o caminho do meio, com o custo que isso trouxe. Hoje, faça isto: pegue num mapa mental do seu dia e escreva num papel o nome de uma pessoa ou de um lugar que tem evitado, e ore por esse nome em voz alta, uma frase só.
O Detalhe
"Pelo meio" traduz uma expressão grega curiosa, dià méson, literalmente "por entre". Não diz que Jesus atravessou a Samaria, nem que passou pela Galileia; diz que seguiu ao longo da linha que as separava. Lucas podia ter escrito uma rota limpa. Escreveu ambiguidade. E há uma pergunta que o texto deixa em aberto e que não devemos apressar-nos a fechar: por que razão o Senhor caminha justamente pela costura entre dois mundos que não se falam? Talvez porque é ali que nasce um grupo de dez leprosos onde judeus e samaritanos partilham a mesma desgraça sem se importarem com a origem uns dos outros. A doença fizera o que a religião não conseguira. E Cristo caminha exatamente por essa fronteira.
Contexto
Judeus e samaritanos partilhavam Abraão e discordavam de quase tudo o resto: onde adorar, que Escrituras valiam, quem era o povo legítimo. Peregrinos galileus que subiam a Jerusalém para as festas atravessavam por vezes a Samaria por ser mais rápido, e nem sempre chegavam do outro lado sem incidentes. Lepra, no vocabulário da época, cobria várias doenças de pele; o problema não era só médico, era social e religioso: impureza, exclusão, distância obrigatória, o fim da vida familiar e do trabalho. Um leproso samaritano era, portanto, duas vezes excluído. É este o mundo por onde Jesus caminha: um território de fronteiras invisíveis, de códigos rígidos sobre quem pode aproximar-se de quem, e de um templo ao fundo que decidia o que era limpo.
O Intertexto
Lucas gosta de samaritanos. Já contou a parábola do homem que desce de Jerusalém para Jericó e é socorrido justamente por quem ninguém esperava; agora prepara o encontro com o único leproso que volta, "e este era samaritano". Nos dois casos, a lição não é sobre tolerância, é sobre quem reconhece Deus quando o vê. E há um eco mais antigo: Naamã, o sírio, curado da lepra pelo profeta em Israel, o estrangeiro que ninguém contava. A Escritura repete este padrão até ficarmos incomodados: a graça costuma ser reconhecida primeiro por quem não tinha direito a ela.
Reflexão
Que caminho tenho evitado por ser demasiado desconfortável, e o que me diz o facto de Jesus ter escolhido precisamente esse?
Se a misericórdia acontece "pelo meio", nas margens e nas fronteiras, onde é que eu tenho procurado Deus, e será que ele está ali?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, tantas vezes procuro teu reino longe daqui, em algum lugar melhor, em algum dia futuro. Mas tu já estás perto, no meio da minha vida comum. Abre meus olhos para te reconhecer hoje, nas pessoas e nas horas simples que me deste.
Obrigado, Senhor, porque me ensinas a olhar por mim mesmo e a não fingir que o pecado não existe. Sou grato pelos irmãos que tiveram coragem de me repreender e pelo perdão que me alcançou quando me arrependi. Que eu também saiba perdoar assim.
Repare no detalhe: "no dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e enxofre, e destruiu a todos". No mesmo dia, não antes. Deus esperou o justo sair. E até aquela manhã a cidade seguia comprando, vendendo, plantando, sem suspeitar de nada. A rotina tranquila não é prova de segurança. Onde você tem colocado a sua?
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