Lucas 18:13
O Texto
Enquanto o fariseu ocupa o centro do pátio e faz o inventário das próprias virtudes, um cobrador de impostos fica parado a distância, longe do altar, longe dos olhares, e nem sequer consegue erguer os olhos ao céu. Bate no peito, gesto de luto e de vergonha, e diz sete palavras em português e cinco no grego: "Ó Deus, tem misericordia de mim, peccador!" Não há currículo, não há promessa de reforma, não há comparação com ninguém. Ele não pede que Deus reconsidere os fatos do seu caso; pede que Deus faça algo apesar dos fatos. E o veredito de Jesus, no versículo seguinte, é que foi este homem, e não o outro, que desceu do templo justificado.
O Cerne
O que torna esta oração devastadora não é a humildade como virtude, mas o reconhecimento de que não existe moeda alguma na mão do homem. O publicano cobrava impostos para Roma e enriquecia à custa dos vizinhos; sua profissão o tornava, na prática, irrecuperável. Ele sabe disso. Não diz "sou pecador, mas"; diz apenas "peccador". E é exatamente aí que Deus age. A justificação, no sentido de Jesus, não é o prêmio de quem finalmente acertou; é o veredito gratuito sobre quem só tem a própria falência a apresentar. Isso reorganiza tudo em nossa vida prática: se fomos aceitos sem currículo, o currículo perde o poder de nos definir e, sobretudo, perde o poder de nos autorizar a desprezar quem tem um pior.
O Fio Condutor
Aquele homem está no templo, e o templo é o lugar onde o sangue corre para cobrir o pecado. Ele bate no peito no exato espaço onde Israel aprendeu, durante séculos, que a culpa não se resolve por esforço mas por substituição. O publicano não sabe explicar isso; ele apenas se coloca no único lugar do mundo onde alguém pode dizer "sou pecador" e não ser destruído por dizê-lo. E Lucas coloca esta parábola a poucos versículos do anúncio de que o Filho do homem subirá a Jerusalém para ser escarnecido, cuspido e morto. A oração do publicano é atendida porque Alguém subiria a mesma cidade para tornar essa misericórdia justa. O que aqui é veredito antecipado, na cruz se torna preço pago.
O Espelho
Repare onde o desprezo mora em você. Não no ódio explícito, quase ninguém tem tempo para isso, mas no comentário morno sobre o colega que sempre erra o prazo, no julgamento silencioso sobre o cunhado endividado, na certeza tranquila de que sua família funciona porque você fez as escolhas certas. O fariseu não estava mentindo: ele jejuava mesmo, dizimava mesmo. O problema é que sua contabilidade espiritual precisava de alguém abaixo dele para fechar. E é assim que funciona em nós: a autoimagem que se sustenta por comparação sempre exigirá vítimas, e normalmente as encontra dentro de casa. O publicano quebra esse mecanismo porque para de olhar em volta e olha para baixo, para o próprio peito.
Hoje, em voz alta, sozinho, de pé, diga estas palavras exatas e nada mais: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador." Sem acrescentar nenhum "mas", nenhuma explicação, nenhum nome de outra pessoa. Só isso, e fique em silêncio dez segundos depois.
A Pergunta
Fica no ar algo incômodo: o publicano desce justificado sem prometer devolver um centavo. Nenhuma restituição, nenhuma mudança de emprego, nenhum plano. Isso não seria uma graça que deixa o mundo exatamente como estava, com as viúvas ainda espoliadas pelo sistema de impostos? Jesus não responde. E é melhor não inventarmos a resposta. O que o texto afirma é o veredito, não o itinerário. Podemos observar que a graça, quando é real, tem histórico de reorganizar bolsos e agendas, mas não podemos transformar isso em condição prévia, porque então voltamos ao fariseu com outra roupa. Fica a tensão: Deus justifica o ímpio antes de qualquer prova, e nós, que gostamos de garantias, teremos de conviver com esse risco divino.
O Intertexto
O Salmo 51 é o pano de fundo audível desta oração: Davi, depois de Bate-Seba, não negocia, não alega serviços prestados, pede misericórdia e reconhece o pecado como algo diante de Deus antes de ser algo diante dos homens. O publicano ora como um homem que aprendeu o salmo de cor sem nunca ter conseguido cumprir a lei. Mais interessante ainda é o eco dentro do próprio capítulo: no fim da estrada para Jericó, um cego grita "tem misericordia de mim", e a multidão o repreende para que se cale. Lucas coloca as mesmas palavras na boca de um homem desprezado por sua profissão e de um homem desprezado por sua cegueira. Nos dois casos, quem grita sai com o que não podia produzir.
O Detalhe
A palavra que o publicano usa não é o termo comum para "ter pena". No grego é hilasthēti, um verbo ligado à propiciação, ao sangue aspergido sobre a tampa da arca no Dia da Expiação. Traduzida ao pé da letra, sua oração seria: "Ó Deus, sê propiciado para comigo, o pecador." Ele não pede que Deus baixe a guarda, feche os olhos ou releve. Pede que Deus faça o que só Deus pode fazer no templo: cobrir o pecado por meio de um sacrifício. E note o artigo, que a tradução perde: não "um pecador entre outros", mas o pecador, como se ele fosse o único caso no pátio inteiro. Enquanto o fariseu conta os outros, este homem perdeu de vista todo mundo, exceto Deus e a si mesmo.
Reflexão
Quem é a pessoa cuja falha, quando penso nela, me deixa secretamente aliviado a respeito de mim mesmo?
Se eu tivesse de orar hoje sem mencionar nada de bom que fiz e sem comparar-me a ninguém, o que sobraria da minha oração?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Obrigado, Senhor, porque paras e perguntas: "Que queres que eu te faça?" Tu não me tratas como número na multidão, mas ouves o meu pedido com nome e detalhe. Gratidão por poder dizer sem rodeios: "que eu torne a ver", e ser ouvido.
Obrigado, Senhor, porque paraste no meio da multidão para ouvir o clamor de um cego que todos mandavam calar. E porque ainda dizes hoje: "Recupera a tua vista; a tua fé te salvou." Enxergo alguma coisa da vida só porque tiveste misericórdia de mim.
Pai, tenho clamado dia e noite e às vezes o silêncio parece longo demais. Mesmo assim, escolho confiar que ouves e que farás justiça no tempo certo. Sustenta minha esperança enquanto espero, e não me deixes desistir de bater à tua porta.
Pai, tira de mim essa vontade de me achar melhor do que os outros. Tantas vezes olho para alguém e já julgo, sem saber nada da luta dela. Ensina meu coração a se ver como realmente é e a confiar só na tua bondade, não na minha.
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