Lucas 5
O Texto
Jesus ensina a multidão do barco de Simão, manda remar para águas fundas e enche as redes de peixe até elas se romperem; Simão cai de joelhos e acaba deixando tudo para segui-lo. Em seguida vêm três encontros que escandalizam: um leproso tocado com a mão, um paralítico cujos pecados são perdoados antes que as pernas funcionem, e um cobrador de impostos chamado no meio do seu posto de trabalho. O capítulo termina à mesa, com vinho novo, odres velhos e um gosto amargo na boca dos religiosos.
O Contexto
Imagine o cheiro: peixe, sal, algas podres nas pedras da praia de Genesaré. É manhã cedo. Os pescadores estão "lavando as redes", tarefa tediosa que se faz depois de uma noite inútil, catando lama e lixo das malhas. Essa gente não era miserável, mas trabalhava sob pressão: Herodes Antipas controlava a pesca do lago por concessões e taxas, e Levi, sentado "na recebedoria", era parte dessa máquina. Os fariseus e doutores da lei que aparecem no versículo 17 vieram "de todas as aldeias da Galilea, e da Judea, e de Jerusalem": não são curiosos de aldeia, são uma comissão. A notícia chegou à capital, e a capital veio ver.
O Cerne
O fio que amarra as cenas é a autoridade de Jesus sobre aquilo que ninguém pode consertar por esforço: a pesca que não vem, a pele que apodrece, o corpo que não anda, a vida já comprometida pela colaboração com Roma. E em cada caso ele não apenas resolve; ele aproxima. "Quem pode perdoar peccados, senão só Deus?" é uma pergunta correta, não tola. Os escribas entenderam exatamente o que estava em jogo. Lucas não suaviza: ou Jesus blasfema, ou Deus em pessoa está sentado numa casa de Cafarnaum, dizendo a um homem deitado numa cama que a dívida dele acabou. Não há terceira opção confortável.
O Fio Condutor
Duas palavras minúsculas carregam o peso. Ao leproso, Jesus diz "Quero; sê limpo", depois de ser tocado por alguém "cheio de lepra". Pela lógica de Levítico, o contato transmite impureza para fora; aqui a corrente se inverte, e a pureza flui do limpo para o imundo. É a mesma lógica da cruz, antecipada em miniatura: ele toma o que nos contamina e devolve o que nos sara. E quando os religiosos reclamam do jejum, Jesus se apresenta como "o esposo", a imagem que os profetas reservavam para o Deus de Israel casado com um povo infiel. O noivo chegou à festa. Jejuar agora seria desafinar.
O Detalhe
Repare no que Simão diz e no que não diz: "Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhámos; mas, sobre tua palavra, lançarei a rede." Há um cansaço profissional ali, quase uma correção educada ao carpinteiro que opina sobre pesca em pleno dia, quando todo galileu sabia que se pesca à noite. E ainda assim ele obedece. Note também que Pedro não cai de joelhos diante de uma cura ou de um exorcismo, mas diante de peixe. O milagre acontece dentro da sua competência, no único terreno onde ele era especialista, e é justamente ali que ele se descobre pequeno: "Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem peccador."
O Espelho
O instinto de Pedro é o nosso: quando Deus chega perto demais, queremos distância. Não por rebeldia, mas por constrangimento. Há coisas que você sabe sobre si mesmo e que preferiria que Jesus não visse, especialmente no lugar onde você é competente: a sala de aula onde ensina bem e fala mal dos colegas, a casa onde se sustenta a família e se escondem as contas, o grupo onde você lidera e nunca confessa nada. A resposta de Jesus não é "você não é tão ruim". É "Não temas: de agora em diante serás pescador de homens". Ele não nega o diagnóstico; ele recruta o doente. Hoje, escreva num papel a única coisa que você não quer que ninguém saiba, diga em voz alta "Senhor, isto você já sabe", e rasgue o papel.
A Pergunta
Por que Jesus perdoa um homem que não pediu perdão? O paralítico queria andar; seus amigos abriram um telhado por causa das pernas dele. E Jesus, "vendo elle a fé d'elles", trata primeiro do que ninguém mencionou. Isso incomoda por dois lados. Incomoda porque parece que a fé dos amigos basta, o que nenhum de nós consegue formular sem exageros. E incomoda porque Jesus define a necessidade do homem por conta própria, sem consultá-lo. Não vou resolver isso. Mas vale dizer o que o texto deixa em pé: às vezes o maior favor que Deus nos faz é não atender ao nosso pedido antes de tratar do que não sabíamos pedir. E o homem foi embora andando, de todo modo, "glorificando a Deus".
Reflexão
Em qual área da sua vida você é bom o suficiente para achar que Jesus não tem nada a dizer ali?
Os odres velhos não eram ruins; eram apenas velhos. O que, na sua prática religiosa, você defende por hábito e não por convicção?
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Perguntas frequentes sobre Luke 5
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Qual é mais fácil: dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda?" Falar, nos dois casos, é fácil. Fazer é que custa. Os amigos trouxeram aquele homem por causa das pernas, e Jesus começou pelo que ninguém enxergava. Talvez o que você mais precisa hoje não seja aquilo que você veio pedir.
E alguns homens conduziam num leito um paralítico; e procuravam introduzi-lo e pô-lo diante dele." Repare: o paralítico não pediu nada. Foram os amigos que quiseram. Alguém carregou o peso dele até Jesus. Hoje talvez você seja o do leito, sem força nem para pedir. Ou talvez seja quem carrega. Quem você tem levado?
Multidões chegando, doentes sendo curados, o nome dele correndo pela região. E o que Jesus faz? "Ele, porém, se retirava para lugares solitários e orava." Não fugia do fracasso, fugia do aplauso. Talvez sua alma esteja cansada não por falta de trabalho, mas por falta desse lugar solitário. Quem sabe hoje?
Senhor, obrigado por não teres vindo procurar os que se acham prontos, mas os que sabem que precisam de ti. Eu sou desses. Não quero fingir força que não tenho. Chama-me outra vez, e ajuda-me a mudar de caminho contigo.
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