Marcos 1:9
O Texto
Enquanto multidões inteiras da Judeia e de Jerusalém descem ao Jordão, Marcos interrompe o fluxo com uma única pessoa vinda do lado oposto do mapa: Jesus sai de Nazaré, da Galileia, e entra na água como mais um entre os que se enfileiravam diante de João. Nenhuma apresentação, nenhuma credencial, nenhuma explicação do porquê. O evangelista que acabou de anunciar "Principio do Evangelho de Jesus Christo, Filho de Deus" apresenta esse Filho pela primeira vez não num trono, mas numa fila de pecadores confessos, recebendo das mãos de outro homem um batismo que, segundo o próprio Marcos, era "o baptismo do arrependimento, para remissão dos peccados". O verso é curto, quase administrativo. É também escandaloso.
O Cerne
O escândalo é o cerne. João havia dito que o que vinha depois dele era "mais forte", alguém diante de quem ele não se julgava digno nem de desatar sandálias; e esse mais forte aparece submetendo-se ao rito do mais fraco. Marcos não suaviza nada, não acrescenta diálogo explicativo, não protege a dignidade de Jesus. Aqui se revela o modo como Deus decidiu salvar: não por cima, à distância, com decreto, mas de dentro, descendo ao lugar onde o povo confessava sua sujeira. A solidariedade do Filho com os pecadores não começa na cruz; começa na água barrenta de um rio de fronteira. Quem quiser um Messias que se mantenha limpo do nosso problema terá de procurar outro evangelho, porque este abre com o Santo molhado da água do arrependimento alheio.
O Fio Condutor
Marcos escolheu um rio com memória. O Jordão não é um curso de água qualquer: foi ali que Israel, depois de quarenta anos no deserto, atravessou a seco para entrar na terra prometida, com a arca parada no meio do leito enquanto o povo passava (Josué 3). Agora alguém faz o caminho inverso. Jesus desce de Nazaré para dentro dessa mesma água, e logo em seguida o Espírito o impele para o deserto, onde fica quarenta dias. A sequência é deliberada: água, deserto, provação. É a história de Israel rebobinada e recomeçada numa só pessoa. Onde o povo murmurou e caiu, este Filho resiste. Marcos não explica isso em nenhum lugar; ele simplesmente arruma os fatos na ordem em que qualquer judeu reconheceria o padrão e sentiria o arrepio.
O Espelho
Existe uma fila da qual todos nós tentamos sair discretamente: a dos que precisam confessar. Preferimos estar na margem, ajudando, organizando, ensinando, qualquer coisa menos estar dentro da água com os outros, molhados da mesma vergonha. No trabalho construímos a reputação de quem não erra; na igreja desenvolvemos uma linguagem de pedidos de oração que nunca menciona nada realmente comprometedor; em casa defendemos nossa versão dos fatos diante do cônjuge como se a vida dependesse disso. E então Jesus, que teria todo o direito de ficar na margem, entra na fila. Se ele entrou, sua respeitabilidade cuidadosamente mantida não é santidade, é distância. Hoje, antes de dormir: escreva num papel, com palavras concretas, a confissão que você nunca disse em voz alta a ninguém, leia-a em voz alta diante de Deus e depois rasgue o papel.
O Detalhe
"De Nazareth, da Galilea." Marcos poderia ter dito apenas "Jesus"; ele insiste em dois marcadores geográficos que, para o leitor da época, soavam como um encolher de ombros. A Galileia era o norte periférico, mestiço, distante do templo; Nazaré, uma aldeia sem importância nenhuma nas Escrituras. E esse rótulo gruda nele: poucos versículos adiante, é o espírito imundo quem grita "Jesus nazareno", usando o nome da aldeia como quem aponta uma origem humilde demais para ser perigosa, e descobre que está diante do "Sancto de Deus". O detalhe não é decorativo. Marcos está dizendo que o Filho de Deus vem de onde ninguém esperava, com sotaque errado, e que o evangelho começa na margem do mapa, não no centro religioso.
A Pergunta
Por que o sem pecado recebe um batismo "para remissão dos peccados"? A pergunta é tão incômoda que os outros evangelistas a sentiram: Mateus insere um diálogo em que João tenta impedi-lo e Jesus responde que assim convém cumprir toda a justiça; João nem sequer narra o batismo. Marcos não oferece nada. Deixa a cena nua e segue adiante. Podemos dizer, com razão, que Jesus se identifica conosco, que assume nosso lugar antes de assumir nossa cruz. Mas é honesto admitir que o texto não diz isso; o texto apenas mostra. E talvez seja esse o ponto: o evangelho começa com um gesto que não se explica, que ofende a lógica religiosa e só faz sentido no fim, quando o justo morre entre dois criminosos. Quem entende rápido demais provavelmente não entendeu.
O Protagonista
Jesus não fala. Em todo o versículo ele é objeto dos verbos: vem, é batizado. Trinta anos de silêncio terminam não num discurso, mas num ato de submissão a outro homem, diante de uma multidão que nem percebeu quem entrou na água. Há nisso uma liberdade impressionante, a liberdade de quem não precisa se explicar nem se distinguir. Ele não corrige João, não pede tratamento diferente, não se posiciona. E essa é exatamente a textura do resto do evangelho de Marcos: um Messias que manda calar os demônios que o reconhecem, que foge das multidões de madrugada, que vai para aldeias menores quando a fama cresce. O poder que vai libertar o mundo entra nele pela porta de serviço.
Reflexão
Em que área da sua vida você está na margem do rio, ajudando os outros a entrarem na água, mas sem jamais entrar você mesmo?
Se o evangelho começa com Jesus se colocando ao lado dos pecadores em vez de acima deles, o que isso muda no modo como você fala das pessoas cujo pecado é visível?
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Pai, trago diante de ti os nomes que carrego no coração, aqueles que estão de cama, cansados, sem força para pedir por si mesmos. Eu falo contigo sobre eles, como quem puxa teu braço. Chega perto, Senhor, e levanta quem não consegue se levantar.
E, encontrando-o, lhe disseram: Todos te buscam." Parece elogio, mas é pressão. Jesus tinha acabado de acordar antes do sol para orar a sós, e já vêm chamá-lo de volta à multidão. Ele não volta. Segue para as outras aldeias. Nem toda urgência que bate à sua porta vem de Deus. Você sabe distinguir?
Jesus não parou na pele curada. Mandou: "vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou". Era o caminho de volta para casa, para a sinagoga, para os abraços perdidos. Deus não quer só tirar tua ferida, quer te devolver ao meio do povo. Que parte da tua vida ainda espera essa volta?
Viu os céus rasgados, e o Espírito descendo como pomba sobre ele." Marcos não diz que o céu se abriu com delicadeza. Diz rasgado, como um pano que se rompe e não volta a fechar. Deus não entreabriu uma porta para nos observar de longe. Ele rasgou a distância. Você ainda ora como quem fala com um céu fechado?
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