Mateus 4
O Texto
Jesus, recém-batizado, é levado pelo Espírito ao deserto. Ali, depois de quarenta dias sem comer, enfrenta o tentador em três assaltos: pão, templo, montanha. Sai vitorioso, volta para a Galileia, começa a pregar, chama os primeiros discípulos junto ao mar, e uma multidão começa a segui-lo enquanto cura toda espécie de enfermidade.
O Cerne
Imagine o silêncio. Quarenta dias de vento, pedras, sol, sede. O corpo de Jesus está no limite, os lábios rachados, a fome deixou de ser fome e virou vertigem. É nesse instante, quando a carne está mais frágil, que a voz aparece: "Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se façam pães." Note o "se". Não é uma pergunta inocente, é uma cunha. Poucas semanas antes, no Jordão, uma voz do céu havia dito: "Este é o meu Filho amado." O tentador pega exatamente essa palavra e a transforma em dúvida. Toda a cena gira em torno disto: quem Jesus é, e se ele confiará no Pai sem provas na mão.
O Fio Condutor
Quarenta dias no deserto. Quem lê Mateus com o Antigo Testamento no ouvido reconhece imediatamente: Israel também esteve quarenta anos no deserto, também com fome, também testado. Ali o povo caiu, murmurou, pediu pão, provocou o Senhor, adorou outro deus. Jesus enfrenta as três mesmas tentações e responde três vezes com palavras tiradas de Deuteronômio, o livro em que Moisés recapitulava o deserto. Onde Israel falhou, o Filho permanece. Ele não é apenas mais forte; ele está refazendo a história do povo desde dentro, começando de novo o que tinha desandado. Por isso, quando ele finalmente sai pregando "Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus", essas palavras têm peso: quem as pronuncia acaba de vencer no lugar onde todos nós perdemos.
O Espelho
Reparou como as tentações são inteligentes? Nenhuma é grosseira. Pão quando se tem fome, isso não é pecado. Confiar nas promessas de proteção de Deus, isso é fé. Receber os reinos do mundo, isso Jesus receberá mesmo, o Pai já prometeu. O tentador não oferece o mal cru, oferece o bem pelo atalho. E é aí que ele nos pega. Você não é tentado a abandonar Deus, você é tentado a resolver por conta própria aquilo que Deus está demorando a resolver. O emprego que não vem, o casamento que range, o filho que se afasta, a doença que persiste. A voz sussurra: use suas pedras, faça seu pão, force a mão de Deus, aceite o atalho. Jesus nos mostra que existe uma fome que só a palavra da boca do Pai sacia.
Contexto
A Galileia daqueles anos era mestiça, mal-vista, cercada de cidades gregas, longe do prestígio de Jerusalém. Mateus insiste: "Galileia das nações". Foi para essa região de fronteira, e não para o templo, que a luz raiou. Cafarnaum ficava na rota comercial junto ao mar da Galileia, um lugar de pescadores, cobradores de impostos, soldados romanos. Simão, André, Tiago e João não eram figuras marginais; a pesca era um negócio, com barcos, redes, empregados. Deixar tudo aquilo para seguir um rabino errante custava caro. E o pano de fundo é sombrio: João Batista acaba de ser preso. É justamente quando a voz profética é silenciada que Jesus começa a falar. O reino não avança em tempos calmos.
A Pergunta
Por que o Espírito conduz Jesus ao deserto para ser tentado? O texto é desconfortavelmente claro: "foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo." Não é o diabo que arrasta Jesus para lá contra a vontade de Deus. É o Espírito que o leva. Isto derruba a ideia simpática de que Deus só nos coloca em lugares agradáveis. Há caminhos que passam por deserto, e o deserto faz parte da vocação, não é um desvio dela. Não temos como suavizar isto. O que podemos dizer é que Jesus não entra ali sozinho, o Espírito que o conduz não o abandona, e no fim os anjos vêm servi-lo. Mas os quarenta dias, esses ele atravessa sem consolo visível.
O Perfil
Os primeiros ouvintes de Mateus eram, em boa parte, judeus. Ao ouvir "quarenta dias no deserto", eles não pensavam em jejum devocional, pensavam em Moisés no Sinai, em Elias fugindo, em Israel peregrinando. Ao ouvir Isaías citado sobre Zabulom e Naftali, eles reconheciam terras que tinham sido as primeiras a cair no exílio assírio, séculos antes. Foram as primeiras a serem escurecidas, agora são as primeiras a receber a luz. Havia poesia amarga e doce nisso. E ao ouvir "arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus", eles ouviam a antiga esperança finalmente sendo anunciada como presente, não mais como futuro distante. Não uma revolução política que eles talvez preferissem, mas o reino de Deus chegando por um caminho estreito, começando com quatro pescadores largando suas redes.
Reflexão
Qual é a "pedra" na sua vida que você tem sido tentado a transformar em pão pelas suas próprias forças, sem esperar a palavra do Pai?
Se o Espírito às vezes conduz ao deserto, o que muda na maneira como você lê o período difícil que está atravessando?
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Perguntas frequentes sobre Matthew 4
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Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Percorria Jesus toda a Galileia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo."
Ele não escolheu as cidades mais promissoras. Andou por aldeias sem nome, onde ninguém importante moraria. E não separou o que valia a pena curar: toda sorte. Nada do que você carrega hoje está fora dessa lista.
A fama de Jesus correu pela Síria, e trouxeram até Ele "todos os que padeciam, acometidos de várias enfermidades e tormentos". Repare: não filtraram os casos. Vieram os endemoninhados, os lunáticos, os paralíticos. E Ele curou a todos.
Ninguém foi devolvido por ser complicado demais. Que tipo de dor você acha que Ele não aguentaria ouvir hoje?
Obrigado, Senhor, porque em Tua Palavra encontramos firmeza para não Te pôr à prova. Sou grato por Jesus, que resistiu ao tentador dizendo "não tentarás o Senhor teu Deus", e nos ensinou a confiar em Ti sem exigir sinais.
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