Salmos 113
O Texto
O salmo começa com uma ordem, não com um sentimento: louvem, servos do Senhor, o nome do Senhor, agora e para sempre, do nascer ao pôr do sol. Depois vem a pergunta que sustenta tudo: "Quem é como o Senhor nosso Deus, que habita nas alturas?" A resposta não aponta para o poder abstrato, mas para um movimento estranho: esse Deus altíssimo se abaixa, e o que ele faz ao se abaixar é tirar o pobre do pó e a mulher estéril do seu isolamento, colocando um entre príncipes e a outra como mãe feliz numa casa. Termina onde começou: "Louvae ao Senhor."
O Cerne
A grandeza de Deus aqui não é medida pela distância que ele mantém, mas pela profundidade a que desce. O salmo coloca lado a lado duas afirmações que a religião antiga jamais juntaria: ele está acima de todas as nações, e ele levanta o mendigo do lixo. Um deus grande, no pensamento comum, ocupa-se de coisas grandes. O Deus de Israel é grande precisamente porque se ocupa dos que não contam. Isso tem consequências éticas imediatas: se o caráter de Deus se revela na direção do seu olhar, então a nossa semelhança com ele não se mede pelo nosso entusiasmo religioso, mas por quem enxergamos. Adorar esse Deus e desprezar o pobre é uma contradição prática, não apenas teológica.
O Fio Condutor
Este é o padrão que atravessa a Escritura inteira e culmina em Cristo. O verbo do versículo 6, "se abate", descreve um Deus que se inclina; a encarnação é esse inclinar-se levado às últimas consequências. Aquele cuja "gloria" está "sobre os céus" nasce numa família sem posição, come com cobradores de impostos, toca leprosos e morre fora dos muros, no lugar do monturo. E a ressurreição é o versículo 8 cumprido: o humilhado é assentado com príncipes, à direita do Pai. O salmo, portanto, não é apenas uma bela ideia sobre a compaixão divina; é a lógica do evangelho antecipada em poesia. Quem canta este salmo já está cantando a cruz sem saber.
O Espelho
Pergunte-se com honestidade de quem você se aproxima naturalmente. No trabalho, você cultiva quem pode lhe abrir portas ou também quem limpa a sala depois que todos saem? Na igreja, o visitante mal vestido recebe o mesmo tempo de conversa que o casal influente? Este salmo incomoda porque não permite espiritualizar a pobreza: fala de pó, de monturo, de dinheiro, de lugar à mesa, de uma mulher cuja dor era social antes de ser emocional. E incomoda de outro lado também: se você está no pó agora, desempregado, doente, sem filhos, envergonhado, o salmo não lhe pede paciência resignada. Ele afirma que o seu lugar não é definitivo, porque Deus tem o hábito de mudar assentos.
O Detalhe
"Monturo" traduz o hebraico ashpot, o monte de cinzas e lixo fora da cidade, onde se despejava o que ninguém queria: restos, entulho, dejetos. Era ali que dormiam os que não tinham nada, e ali se sentou Jó quando perdeu tudo. O detalhe é que Deus não manda uma esmola ao monturo. Ele vai até lá, se abaixa e levanta com as próprias mãos. E o destino não é uma situação um pouco melhor, um teto mínimo, um prato de comida; é a companhia dos "principes do seu povo". Deus não faz assistencialismo, faz restauração de dignidade. Isso corrige a nossa caridade quando ela se contenta em aliviar o incômodo sem devolver lugar a ninguém.
O Intertexto
Ana canta quase as mesmas palavras em 1 Samuel 2, e não por acaso: ela era a mulher estéril do versículo 9, e descobriu na própria carne que Deus levanta o humilde do pó. O salmo transformou a experiência de uma mulher específica em confissão de fé de todo o povo. Séculos depois, Maria retoma a mesma melodia no Magnificat, quando diz que Deus derrubou os poderosos dos tronos e exaltou os humildes. As três vozes se sobrepõem: uma mulher sem filhos, um povo sem futuro, uma jovem sem status. Deus escolhe repetidamente esse tipo de gente, e a Escritura insiste no ponto porque nós insistimos em esquecê-lo.
O Perfil
Quem cantava isto? Israelitas reunidos para a Páscoa, muitos deles camponeses endividados, jornaleiros, viúvas. Sabiam o que era o pó e conheciam pessoalmente alguém no monturo. E cantavam num mundo em que a esterilidade condenava uma mulher ao desprezo e à insegurança econômica, e em que o pobre não tinha recurso algum contra quem lhe tomasse a terra. Para eles, "quem é como o Senhor nosso Deus" era uma provocação contra os deuses dos impérios, que sempre ficavam do lado dos vencedores. Cantar este salmo era um ato político e uma promessa mútua: o Deus que faz isso espera que o seu povo faça o mesmo com os vizinhos.
Reflexão
Se alguém observasse a sua agenda e os seus gastos deste mês, concluiria que você serve o Deus que se abaixa?
Onde está o seu monturo hoje, e o que mudaria se você acreditasse que Deus vai até lá e não apenas fica olhando de cima?
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Perguntas frequentes sobre Psalms 113
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Faz que a mulher estéril viva em família, tornando-se alegre mãe de filhos." O salmo começa com Deus altíssimo, acima dos céus, e termina dentro de uma casa, com uma mulher que ninguém contava. Ele se abaixa para ver justamente o vazio que você acha que ninguém enxerga. E o louvor nasce ali, no lugar que parecia sem saída.
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