Salmos 137
O Texto
Um grupo de exilados está sentado à beira dos canais da Babilônia. Não cantam; choram, porque a lembrança de Sião os alcançou ali, longe demais. As harpas ficam penduradas nos salgueiros, mudas, enquanto os captores pedem entretenimento: "Cantae-nos uma das canções de Sião". O salmista responde com um juramento contra o próprio corpo, caso esqueça Jerusalém, e termina com um pedido que ainda hoje nos faz baixar os olhos: que Edom seja lembrado e que a Babilônia receba de volta o que fez, até nos seus filhos.
O Cerne
Este salmo não ensina doutrina; ele entrega uma ferida a Deus. E é exatamente aí que está sua teologia. O povo da aliança perdeu templo, cidade e canção, e no lugar onde poderia ter calado para sempre, ainda fala com o Senhor. Note o que o salmista faz com a sede de vingança: não a executa, não a disfarça de piedade, não a transforma em política. Ele a coloca nas mãos de Deus com um imperativo, "Lembra-te, Senhor". A justiça deixa de ser tarefa humana e vira petição. É uma renúncia escondida dentro de um grito. Quem entrega a vingança a Deus já não a tem nas mãos, e esse é o começo, ainda sangrento, da confiança.
O Fio Condutor
Jerusalém é mais que uma cidade natal aqui; é o lugar onde Deus prometeu habitar entre seu povo. Chorar por Sião é chorar pela presença perdida. Por isso a pergunta "Como cantaremos a canção do Senhor em terra estranha?" não é saudade geográfica, é a pergunta do exílio espiritual inteiro: como louvar quando Deus parece ter deixado o endereço? A resposta da história bíblica não é a reconstrução de pedras, mas um corpo. Jesus chora sobre Jerusalém e depois carrega para fora dos muros o juízo que este salmo pede. A Babilônia recebe o que merece, sim, mas no Calvário o inocente recebe primeiro. O salmo pede retribuição; o evangelho mostra onde ela caiu.
O Espelho
Há perdas que a gente aprende a administrar e perdas que simplesmente emudecem a música. O casamento que acabou, o filho que não fala mais com você, o diagnóstico, a igreja que se dividiu. E então vem alguém, bem-intencionado ou não, pedindo uma canção: "você já está melhor, né?", "Deus é bom o tempo todo". O salmo defende seu direito de pendurar a harpa no salgueiro por um tempo. Mas ele também te desmascara, porque a mesma boca que chora começa a desejar que o outro sofra o dobro, e você conhece esse cálculo. Hoje, faça isto: escreva num papel o nome da pessoa ou da situação que você gostaria de ver destruída, diga em voz alta "Senhor, lembra-te disto, porque eu não vou cuidar disso", e rasgue o papel.
O Detalhe
"Esqueça-se a minha direita da sua destreza." A mão direita é a mão do harpista, a mão que dedilha. O salmista jura que, se esquecer Jerusalém, a própria mão esqueça como se toca, e logo depois que a língua grude no céu da boca. Ou seja: se eu usar esta música para agradar a Babilônia, que eu perca a música inteira. Há algo feroz e belo nisso. Ele prefere o silêncio à canção barata. A arte do povo de Deus não é mercadoria de corte estrangeira, não existe para entreter quem destruiu o altar. Quantas vezes cantamos coisas santas num tom que as esvazia, só porque alguém pediu um som agradável?
O Perfil
Imagine quem ouviu isso pela primeira vez. Gente que viu as muralhas caírem, que caminhou mil e tantos quilômetros até a Mesopotâmia, que agora mora perto de canais de irrigação numa terra plana e úmida, sem montanha, sem templo. Edom, o povo irmão descendente de Esaú, ficou olhando e gritando "Descobri-a, descobri-a até aos seus alicerces". Traição de parente dói diferente de violência de inimigo. E os babilônios faziam com cativos exatamente aquilo que o verso 9 descreve; o salmista não inventa uma crueldade nova, devolve a que sofreu. Para eles, este salmo não era escandaloso. Era o primeiro som que conseguiram emitir depois de meses de mudez.
A Pergunta
E o verso 9? Como oramos uma bênção sobre quem esmaga crianças nas pedras? Não há como suavizar, e tentativas de alegorizar os "filhos da Babilônia" como pensamentos pecaminosos são fuga. A Escritura registra aqui a voz de uma vítima, não o mandamento de Deus. O salmo é verdadeiro como testemunho do que a violência produz no coração humano, inclusive no coração de quem ama o Senhor. Deus deixou isso no livro de orações do seu povo, o que significa que ele prefere receber nossa fúria crua a receber nossa religiosidade educada. Mas o leitor cristão não pode parar aqui, porque conhece outro que, ferido sem culpa, pediu perdão em vez de retribuição. O salmo é honesto; Cristo é o caminho adiante.
Reflexão
Qual canção você tem cantado para agradar a Babilônia, quando o silêncio seria mais fiel?
O que você ainda não disse a Deus porque acha que ele não aguentaria ouvir?
Aprofunde-se em Psalms
Livros selecionados a dedo que aprofundam ainda mais este livro da Bíblia.
À espera do Natal: 25 leituras de Advento, de 1 a 25 de dezembro, guiadas pelo livro de Lucas. Davi, Zacarias, Maria e José, uma pessoa de hoje por...
Salmos 1-72: Introdução e comentário
Um comentário claro e devocional, versículo a versículo, que abre o sentido de cada salmo sem perder o calor da adoração.
Reflexões sinceras e instigantes sobre temas difíceis dos Salmos, como a ira, a justiça e o louvor, escritas com a sensibilidade de um leitor apaixonado.
Salmos 73-150: Introdução e comentário
Continua o estudo cuidadoso do saltério, ajudando o leitor a acompanhar o fio teológico dos livros III a V dos Salmos.
Faith.network earns a small commission on Kobo purchases made through these links, at no extra cost to you. It helps keep the studies free.
Perguntas frequentes sobre Psalms 137
Respostas rápidas às perguntas mais comuns sobre esta passagem bíblica.
O que significa Salmos 137?
Sobre o que fala Salmos 137?
Qual é o contexto histórico de Salmos 137?
O que Salmos 137 nos ensina sobre o caráter de Deus?
Como Salmos 137 continua relevante hoje?
O que a comunidade compartilha sobre Psalms 137
Reflexões, orações e ações de graças de leitores e da equipe editorial sobre esta passagem.
Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, esqueça-se a minha direita da sua destreza." Longe de casa, com a harpa pendurada no salgueiro, ele jura não deixar a saudade morrer. Há coisas que só a lembrança mantém vivas. O que você deixou de sentir falta porque o exílio ficou confortável demais?
Explore esta passagem em outro nível
Iniciante, teólogo ou uma leitura de outro tamanho? Ajuste as configurações e gere sua própria versão.
Abrir na ferramenta de estudo

