Salmos 3:3
O Texto
Davi acaba de contar os números: os adversários se multiplicaram, muitos se levantam contra ele, e muitos já pronunciaram o veredito sobre a sua alma, "Não ha salvação para elle em Deus". E então vem uma palavra que vira a frase inteira do avesso: "Porém tu, Senhor". Contra a aritmética dos inimigos, ele coloca três afirmações sobre Deus, não sobre si mesmo. Deus é escudo, cobertura que se põe entre ele e o golpe. Deus é a sua glória, isto é, o seu peso, a sua reputação, aquilo que o torna alguém. E Deus é quem levanta a cabeça que a vergonha e o medo tinham empurrado para baixo.
O Cerne
O que impressiona aqui não é o otimismo, é a transferência de posse. Davi não diz que tem um escudo, uma glória e uma cabeça erguida; ele diz que Deus é essas três coisas. Segurança, honra e dignidade deixam de ser bens que ele administra e passam a ser pessoa que ele conhece. Isso tem consequências éticas imediatas, porque quase tudo que fazemos de errado nasce da tentativa de produzir esses três por conta própria: protegemos a nós mesmos mentindo, construímos glória às custas de outros, levantamos nossa cabeça empurrando a de alguém para baixo. Se Deus mesmo é escudo, glória e quem exalta, então essas manobras não são apenas feias; são desnecessárias. Um homem cercado por milhares que ainda assim consegue dormir, como diz o versículo 5, não precisa se defender às cotoveladas.
O Fio Condutor
Vale lembrar onde Davi está quando escreve isso: fugindo do próprio filho, descalço, subindo o monte das Oliveiras com a cabeça coberta em sinal de luto. O rei ungido, perseguido, humilhado, sem trono e sem exército, insistindo que Deus é a sua glória exatamente quando não lhe restou nenhuma. Esse padrão não é acidente na Escritura, é a forma que a salvação sempre toma. Séculos depois, um descendente desse mesmo rei sai da mesma cidade, sobe outro monte, ouve os mesmos gozadores dizendo que Deus não vai salvá-lo, e ali, no lugar onde toda glória lhe é arrancada, inclina a cabeça e morre. Ele não teve escudo. Ele foi o escudo. E porque a cabeça dele desceu, a nossa pode ser levantada sem fingimento, sem currículo, sem vitória própria para exibir.
O Espelho
Preste atenção em onde você busca escudo, glória e cabeça erguida durante uma semana comum. O escudo aparece na meia verdade que você conta no trabalho para não ficar exposto, na resposta seca que corta a conversa antes que ela chegue perto demais, na conta bancária que existe menos para prover e mais para garantir que você nunca dependa de ninguém. A glória aparece na necessidade de mencionar, de passagem, aquilo que você conquistou. E a cabeça erguida quase sempre custa a cabeça de outro: o comentário que diminui um colega, o silêncio irônico à mesa de jantar, a comparação que você faz com seu irmão e nunca diz em voz alta. Davi não está cercado por milhares e negociando sua posição; ele está cercado, e dormindo. Essa é a ética do versículo: quem sabe quem é o seu escudo pode se dar ao luxo de não se defender.
Hoje, pense na pessoa cuja cabeça você tem empurrado para baixo para manter a sua no alto, e mande a ela uma mensagem nomeando, com sinceridade e sem ironia, uma coisa que você admira nela.
O Intertexto
Duas conexões iluminam o versículo. A primeira está em Gênesis 40, onde José diz ao copeiro que o faraó vai "levantar a sua cabeça", isto é, tirá-lo da prisão e restituí-lo ao cargo diante da corte. A expressão é jurídica antes de ser poética: é a reabilitação pública de alguém dado como perdido. Davi está pedindo exatamente isso, e não a um faraó. A segunda é Hebreus 12, onde Jesus suporta a cruz desprezando a vergonha, ou seja, recusando-se a deixar que a humilhação pública defina seu valor diante do Pai. É o mesmo movimento do salmo, levado até o fim: a glória não vem do julgamento da multidão, vem de quem se senta no trono.
A Pergunta
Se o Senhor é escudo, por que Davi está fugindo? O escudo não impediu a conspiração, não protegeu o reino, não salvou Absalão. Aqui o texto não nos deixa fugir: chamar Deus de escudo não é uma previsão sobre o que vai acontecer amanhã, é uma afirmação sobre quem fica de pé quando tudo acontecer. Muitos que rezaram este salmo perderam a casa, o emprego, o filho. Dizer "Porém tu, Senhor" não cancela a aritmética dos versículos 1 e 2; ela continua verdadeira, os inimigos continuam muitos. O que o salmo nega é a conclusão deles, a sentença "não ha salvação para elle em Deus". Davi não sabe como vai terminar. Ele sabe de quem é a última palavra. Isso é menos do que gostaríamos e mais do que qualquer outra coisa oferece.
O Detalhe
"A minha gloria." A palavra hebraica por trás disso, kavod, significa literalmente peso. Glória é densidade, aquilo que faz uma pessoa contar, ter substância, não ser vento. Todo mundo carrega alguma coisa para conferir peso a si mesmo: o cargo, o corpo em forma, os filhos bem-sucedidos, a reputação de pessoa confiável na igreja. Davi, naquele momento, não tem nenhum desses. Perdeu a capital, a autoridade moral, o filho. E ele diz que Deus é o seu peso. Não que Deus lhe dá glória, como quem entrega um prêmio, mas que Deus é a glória dele. O que sobra de você quando tudo o que te dá peso é retirado? Se a resposta for "Deus", você já pode dormir esta noite.
Reflexão
Qual dos três, escudo, glória ou cabeça erguida, você tem produzido por conta própria nesta semana, e o que exatamente isso te custou?
Se amanhã a coisa que mais te dá peso diante dos outros desaparecesse, o que restaria de você, e você conseguiria chamar isso de glória?
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Obrigado, Senhor, porque "do SENHOR é a salvação". Não precisei conquistar nada para ser resgatado: Tu desceste até mim. E ainda derramas tua bênção sobre teu povo, sustentando-nos quando os inimigos se multiplicam ao redor. Meu coração descansa nisso.
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