Salmos 33
O Texto
O salmo abre com uma ordem, não um convite: alegrem-se, cantem, toquem bem. E logo dá o motivo, que não é uma experiência interior mas um fato cósmico: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus". Desse ponto o salmista desce em espiral, do universo à história das nações, das nações ao coração humano, e finalmente ao pequeno grupo que confessa: "A nossa alma espera no Senhor: elle é o nosso auxilio e o nosso escudo." Entre o começo e o fim, uma demolição sóbria de tudo em que os poderosos se apoiam: exércitos, força, cavalos. Termina em oração, quase sussurrada, pedindo que a misericórdia venha na medida da esperança.
O Coração
Repare em como o salmo une duas coisas que normalmente separamos. A palavra que criou as estrelas é a mesma palavra que é "recta", confiável, moralmente firme (v. 4). Não há um Deus da física e outro da moral. O poder que "ajunta as aguas do mar como n'um montão" é o poder de Alguém que "ama a justiça e o juizo". Isso muda tudo, porque significa que o universo não é neutro. E significa que os projetos humanos, mesmo os mais bem armados, colidem com uma vontade que não se desfaz: "O Senhor desfaz o conselho das nações… O conselho do Senhor permanece para sempre." A soberania aqui não é abstrata. Ela tem conteúdo: justiça, bondade, misericórdia.
O Fio Condutor
Duas expressões do verso 6 ficam vibrando: a palavra do Senhor e "o espirito da sua bocca". João pega exatamente esse fio quando escreve que no princípio era o Verbo, e que tudo foi feito por ele. O evangelista não inventou uma ideia grega; ele leu salmos como este e reconheceu quem era a Palavra que falou e foi feito. Mais adiante o salmo diz que os olhos do Senhor estão sobre os que esperam na sua misericórdia "para lhes livrar as almas da morte". O salmista pensava em fome, guerra, doença. Mas a frase é maior do que ele. A Palavra pela qual os céus foram feitos entrou na criação, encontrou a morte de frente e livrou almas dela pelo caminho mais improvável: sendo aquela que morre.
O Espelho
Os versos 16 e 17 são desconfortáveis porque nós temos nossos cavalos. Para o rei antigo era cavalaria; para você talvez seja a reserva de emergência, o currículo, a rede de contatos, o plano de saúde, o corpo que ainda aguenta. Nada disso é pecado. O salmo não diz que exército e força são maus; diz que não salvam. "O cavallo é fallaz para a segurança." A palavra é dura: falaz, enganoso, promete o que não pode entregar. Você descobre isso no dia em que a força não bastou, quando o diagnóstico chegou ou o emprego acabou. E então vem a pergunta incômoda: quando tudo isso falha, sobra alegria em Deus, ou sobra só o vazio de onde o cavalo estava?
A Pergunta
Se os olhos do Senhor estão sobre os que o temem "para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome", o que dizemos dos que temeram o Senhor e morreram de fome? A história de Israel conheceu cercos com canibalismo. A igreja conheceu mártires. O salmo não faz ressalvas, e é honesto notar isso em vez de suavizar. Talvez a chave esteja no verso final, que não é declaração mas pedido: "Seja a tua misericordia, Senhor, sobre nós, como em ti esperamos." Ou seja, o salmista canta a certeza e ainda assim pede. Ele sabe que a libertação prometida não é um contrato que ele controla. A cruz não resolve essa tensão; ela a habita.
O Perfil
Quem cantou isso pela primeira vez era um povo pequeno entre impérios enormes. Egito tinha carros de guerra; a Assíria, cavalaria; Babilônia, engenharia de cerco. Israel tinha colinas e uma aliança. Quando eles cantavam "Não ha rei que se salve com a grandeza d'um exercito", não estavam fazendo teologia de gabinete, estavam recusando a lógica de sobrevivência de todo o mundo antigo. E quando cantavam "Bemaventurada é a nação cujo Deus é o Senhor", era uma afirmação escandalosa: a nação mais bem-aventurada não é a mais forte, mas a escolhida como herança. Isso soava a autoengano para qualquer diplomata da época. Soava a fé para quem se lembrava do mar aberto e do exército afogado.
O Intertexto
João 1 é o eco mais direto: "todas as coisas foram feitas por ele", uma releitura do verso 6 à luz de Belém e do Gólgota. O segundo eco está em Apocalipse 5, onde o novo cântico do verso 3 finalmente encontra seu objeto. O salmista mandou cantar um cântico novo por causa da criação; a visão de João mostra multidões cantando um cântico novo ao Cordeiro por causa da redenção. Entre os dois há uma continuidade que vale notar: o mesmo Deus, a mesma palavra eficaz, a mesma alegria ordenada. Só que agora o Deus que "olha desde os céus e está vendo a todos os filhos dos homens" tem olhos humanos.
Reflexão
Qual é, concretamente, o seu cavalo, aquilo que promete segurança e que você defenderia com mais energia do que defenderia a sua fé?
O salmo termina pedindo misericórdia "como em ti esperamos". Sua oração hoje é maior ou menor que a sua esperança?
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Perguntas frequentes sobre Psalms 33
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